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Ricardo Araújo Pereira: “Já tomei medicamentos por causa do Benfica”

2013 foi um ano tão traumático que o humorista teve de procurar um “especialista em saúde mental”. Contudo, foi ele que o ajudou a começar a escrever o livro que chegou agora às lojas, “A Doença, O Sofrimento e a Morte Entram Num Bar”.

Ricardo Araújo Pereira, o humor e um livro entram num bar. O título do artigo podia ser este mas vamos deixar as piadas para quem sabe fazê-las ou, neste caso, explicá-las numa “espécie de manual de escrita humorística”, como é descrita a mais recente obra editada pela Tinta da China, “A Doença, O Sofrimento e a Morte Entram Num Bar”.

O humorista chega cinco minutos depois da hora marcada com a NiT e pede várias vezes desculpa. Sabemos que só temos 20 minutos para falar com ele, está entre “um prazo para entregar um texto” e várias entrevistas sobre o seu novo livro, à venda desde 2 de dezembro. Pede novamente desculpa por ser tudo tão rápido e há-de repeti-lo ainda antes de nos despedirmos. Com pressa ou não, Ricardo Araújo Pereira é sempre cordial e paciente, como se não tivesse mais nada agendado para o resto do dia. É um entrevistado difícil de ler, nunca se percebendo muito bem se está a falar a sério ou a brincar. Ainda assim, deixa escapar que a época de 2012/2013, em que o Benfica perdeu o campeonato, a Liga Europa e a Taça de Portugal numa semana, o levou a consultar um psicólogo — ou um “especialista em saúde mental”, nas palavras dele.

Seria o psicólogo, no entanto, a ajudá-lo a desbloquear a escrita de “A Doença, O Sofrimento e a Morte Entram Num Bar”, uma ideia que tinha surgido em 2007 e que Ricardo Araújo Pereira não conseguia começar a compor. O livro é dedicado à avó mas sobre ela não gosta de contar detalhes demasiado pessoais.

Foi a tentar fazê-la rir que ganhou as bases que fizeram dele humorista e garante que não leva a mal quando há pessoas que o abordam com piadas ou imitações. Pelo contrário, até acha que é “um ato de amor”.

Ricardo Araújo Pereira explica ainda porque é que tem vários fatos iguais no armário e quantas vezes é que os membros do Gato Fedorento se encontram. Leia a entrevista e veja o vídeo.

Dedica este livro à sua avó e diz que isto do humor começou graças a ela. Qual é a recordação mais marcante que tem dela?

Eu vivi muito tempo lá em casa, são muitas. A questão aqui é que eu seria uma pessoa muito diferente se tivesse vivido noutro sítio. Como eu acho que deixo claro aí [no livro], eu acredito que aquilo a que chamamos sentido de humor não é um dom, uma maneira como se nasce, mas uma espécie de olhar sobre as coisas que é propositado, que umas pessoas têm e outras não. Olham para as coisas de forma pouco convencional, pelo menos é esse o meu caso, para se protegerem do mundo. Eu acho que adquiri isso com a minha avó. Se eu levo algum avanço em relação a outras pessoas a fazer rir alguém, é porque passei a infância a tentar fazer rir uma velhota.

Mas não respondeu à minha pergunta, qual é a melhor memória que tem dela?

Tenho muitas mas, enfim, não seria apropriado dizer à NiT… Isso fica só entre mim e ela. Eu hesitei em por o nome dela aí, pus assim como está [Sr.ª D. Adélia Maria da Cunha] porque ela achava graça a que eu a tratasse com uma certa formalidade… Mas enfim… Já é o suficiente, sim.

Em entrevista ao programa “Alta Definição”, da SIC, disse que o facto de olhar para as suas filhas e saber que um dia elas hão-de morrer, o faz questionar para que serve tudo à sua volta. Isso leva-o também a pensar na sua própria morte?

Claro, quando o Raul Solnado morreu, eu escrevi sobre isso. Eu gostava imenso dele, encontrei-o apenas duas ou três vezes mas foram memoráveis. Uma vez perguntei-lhe se era verdade o mito de que uma senhora tinha morrido de tanto rir no teatro. Ele respondeu: “Não, foram duas. Mas atenção, também fiz nascer um bebé, por isso está 2-1.” Respondendo à sua pergunta, esse texto que eu escrevi quando ele morreu falava sobre isso, o facto de a morte ser para todos mas de ser especialmente evidente para os humoristas, que têm isso ainda mais presente do que a generalidade das pessoas.

Tem algum desejo especial quando morrer, por exemplo que as suas cinzas sejam espalhadas no Estádio da Luz?

A ter algum, seria esse, até porque acho que a cinza faz bem às plantas. Mas tenho a consciência bastante aguda de que nessa altura já nada me fará feliz, façam o que quiserem. Há uma música do José Mário Branco, “FMI” — metade é uma espécie de poema falado — em que, a certa altura, ele diz assim: “Cabrões de vindouros.” Partilho essa opinião, eu já cá não estarei mas eles sim. Desse ponto de vista tenho algum mau perder em relação a eles. Por outro lado, era giro, uma vez que as milhas filhas também aí ficarão, espero eu, que a gente deixasse qualquer coisa que elas possam utilizar. Já não era mau.

Escreveu este livro com que público em mente? Não é necessariamente o mesmo que passa por si na rua e reproduz os skteches do Gato Fedorento.

É possível que não. Especialmente neste caso, não faço a mínima ideia de quem poderá ter interesse nisto.

É um manual, uma coisa consistente, bem escrita, com muita pesquisa. Pode eventualmente ser incluído numa qualquer cadeira da faculdade no futuro.

Duvido. Aquilo a que chama pesquisa são coisas que eu fui lendo, observando e que me foram formando. Quem tem a profissão que eu tenho não tem uma escola onde possa formar-se e isso é quase único nas profissões ligadas à criatividade. Quem escreve textos humorísticos não tem um sítio onde vá aprender mais sobre esse ofício.

Então também é para eles que escreve.

No fundo, é mais para mim. As pessoas que fazem o que eu faço têm de criar a sua própria história. O livro é uma espécie de coleção de exemplos que me foram ocorrendo quando eu ia escrevendo. Isto não é uma antologia. Se fosse, estaria gravemente incompleta. Estes foram os que me foram ocorrendo para ilustrar aquilo de que queria falar e, por isso, procurei atafulhar o livro de exemplos.

Como disse, o livro está “atafulhado” de citações. Inspirou-se em José Sócrates?

[risos] Já no outro dia me disseram isso, que ele tinha dado uma entrevista cheia de citações. Eu cito sem nenhum pudor porque isso me ajuda a pensar, tenho consciência de que antes de mim já outras pessoas fizeram coisas e pensaram sobre assuntos. Seria estúpido da minha parte se não aproveitasse. Confesso que, se não tivesse essas ajudas, provavelmente não teria grande coisa para dizer. Mas fui eu que escrevi isto, não foi aquele professor da faculdade de Direito… só para dizer.

A ideia para o livro surgiu em 2007 mas é publicado nove anos mais tarde. Teve de se fechar em casa para conseguir finalmente escrevê-lo?

Sim, foi isso, estive fechado em casa. Uma das razões para o livro foi também o facto do professor Barros Baptista, que dá aulas na Universidade Nova, me ter convidado há uns quatro anos para dar aulas de escrita humorística numa pós-graduação, que se chama Arte da Escrita. Essas aulas, até lhes chamo mais conversas ou sessões com as pessoas que têm a paciência de me ir aturar, obrigaram-me a fazer um esforço de sistematização de algumas coisas que se podem dizer sobre isto.

Tem noção de que as pessoas quando estão perto de si, incluindo os jornalistas, tentam ser engraçadas. Acha que é para provarem que também têm sentido de humor?

Eu não entendo isso como desagradável, pelo contrário. Acho que quando uma pessoa quer ser engraçada, quer fazer a outra rir, na maior parte das vezes, para não dizer todas, entendo isso como um ato de amor, quase. Acho nobre, tenho apreço por quem tenta fazer rir os outros. Os filósofos, eu falo disso a certa altura, não se entendem, não têm uma versão consensual daquilo que o riso é. Mas há duas ou três coisas sobre as quais concordam, uma é a de que o riso dá prazer e proporciona aos outros essa sensação, cria uma espécie de intimidade que nenhuma outra coisa cria. Eu gosto disso, gosto quando as pessoas vêm ter comigo com essa atitude, querem contar-me uma coisa engraçada que inventaram.

“Quando uma pessoa quer ser engraçada, na maior parte das vezes, para não dizer todas, entendo isso como um ato de amor, quase.”

Não se importa que as pessoas vão ter consigo mas na rua está sempre a ser observado, as suas filhas estão sempre a serem observadas. Já teve alguma situação constrangedora?

Nunca, nenhuma. Às vezes as pessoas abordam-me, dizendo: “Eu sei que não gosta de ser abordado.” E não é verdade, eu adoro ser abordado, até porque tenho a sorte de as pessoas me tratarem muito melhor do que eu mereço, de me tratarem de uma forma educada. Vêm-me pedir coisas normais, um autógrafo, uma fotografia, é rápido de satisfazer e não me custa nada. Não é um fardo que eu carrego. Vamos supor que eu chego agora ali à esplanada e me sento. Nos primeiros cinco minutos há uma espécie de comoção do género “está ali um bicho”. É exatamente isso, era como se se sentasse um gorila, “está ali um bicho”. E de repente o bicho está lá sossegado e as pessoas retomam a sua vida.

Já confessou que sente uma certa ansiedade em relação aos trabalhos que tem para entregar, ao que escreve. Imagino que este livro lhe tenha tirado o sono mas, agora que está terminado, o que é que o angustia neste momento — tirando a derrota do Benfica [1-2 frente ao Marítimo, na sexta-feira, 2 de dezembro]?

É mais isso, tira-me literalmente o sono. Esta é uma semana terrível, tendo em conta que vem aí o Nápoles e ainda acaba com o Sporting. Eu gostava mais de estar sossegado, com 15 pontos de avanço. Essa é a minha grande ambição, estar sossegado, e aquela derrota prejudica a minha ambição. De resto, é saber se as pessoas que compram este livro, olham para ele e dizem: “Sim senhora, há aqui duas ou três ideias que talvez me ajudem ou me sejam úteis.” Ou então se olham para isto e acabam a dizer: “O que é que foi isto? O que é que se passou? O que é que este palerma quer?” As duas hipóteses estão em cima da mesa, vamos esperar.

De quem é que precisa de validação, da sua mulher? É ela a primeira a ler?

Sim, é lá em casa, em primeiro lugar. Já têm saído recensões sobre o livro e eu tenho-me esforçado por não ler, faço sempre isso, mas parece-me que têm sido simpáticas. Mas não leio porque, imagine que dizem muito bem, isso não me deixa “ah, sim senhor”. Imagine que dizem muito mal, isso não me deixa “ah, se calhar, eu…”. Eu sei exatamente o que o livro podia ser ou não, que coisas deixou por fazer e que outras não fez por incapacidade do autor, eu sei mais ou menos isso.

Mas está satisfeito com o resultado que está nas livrarias?

Estou tranquilo porque a minha capacidade não dá para mais do que isso. Seja o que for que as pessoas pensem, eu fiz o que tinha para fazer. Sabe, em 2013 eu fiquei clinicamente deprimido quando o Benfica perdeu a Taça de Portugal. Por ordem inversa, a Taça de Portugal, a Liga Europa e nas Antas. Eu fiquei clinicamente deprimido, uma coisa de precisar de medicamentos e tudo. Então comecei a frequentar um especialista em… Vamos dizer um especialista em saúde mental. Parece bizarro e as pessoas que não têm clube, ou que não ligam a futebol, acham que é uma estupidez. As pessoas que têm clube, seja ele qual for, e qua gostam dele, sabem do que estou a falar. Foi o que me aconteceu. E eu estava a queixar-me disso, de me faltar ler muitas coisas antes de estar habilitado para escrever o livro e que, pensando dessa forma, nunca iria escrevê-lo porque cada livro que eu compro sobre esta matéria tem uma nota bibliográfica que me aponta mais 15 livros, é quase um esquema ponzi de bibliografia, que nunca vai acabar. Foi ele que me disse:” Eh pá, calma, escreva como achar agora, a sua experiência.” E pronto, isso dá alguma tranquilidade, é um exercício em que basicamente não há errado. Se eu disser: “A minha posição é esta, o que eu acho que o humor é, é mais ou menos isto.” Ninguém pode dizer: “Não, não, isso está errado, isso não é o que tu achas.” Não, é isso, é o que eu acho.

 

Como está o projeto Gato Fedorento. É possível esperar um regresso à televisão para breve?

Alguns de nós vão fazendo umas coisas a solo, em grupo é mais difícil. O Zé Diogo tem para cima de 40 padarias, é um magnata da indústria da panificação; o Miguel tem quatro filhos, o que muitas vezes é um investimento superior a quatro dezenas de padarias; e o Tiago teve um filho e está encantado com aquilo, ninguém o tira de casa.

Mas conseguem encontrar-se com frequência? Têm almoços mensais?

Sempre. Quer que eu lhe mostre a minha lista de chamadas?

Quando foi última vez que estiveram os quatro juntos?

Os quatro é mais difícil porque, como lhe disse, ninguém arranca o Tiago de casa. Mas, por exemplo, o Zé Diogo, o Tiago e eu ainda na semana passada fomos almoçar. Quase todas as semanas nos encontramos, telefonamos todos os dias, há sempre comentários para fazer sobre lesões ou esquemas táticos e gostamos de chatear o Zé Diogo porque o clube dele não é igual ao nosso. Para que é que se tem amigos sportinguistas se não os pudermos chatear?

Houve uma transformação no seu visual. Deixou de usar T-shirts e calças de ganga. Quantos fatos iguais a esse é que tem no armário?

Vários. O que acontece é que eu deixei de ser um jovem, não é? É um bocado ridículo um senhor de meia idade vestir-se como um miúdo. Isto são só vantagens, é muito fácil porque basta escolher uma camisa branca e pôr o fato. É uma espécie de farda. Não é “e agora, o que é que ficará bem?” Não interessa, é uma camisa branca e eu tenho várias, mandei fazer várias. Tenho de mandar fazer porque o meu corpo é absurdo, tenho braços muito compridos e o tronco comprido também. É só por pudor que não lhe mostro até onde vai a minha a minha camisa. Só para eu não me esbarrigar cada vez que faço um movimento, ela vai até bastante lá abaixo, eu gosto disso.

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