Quem passava pela Rua da Indústria, em Alcântara, conhecia aquela fachada. As letras em ferro anunciavam “Papelaria, Livraria, Brinquedos” e, lá dentro, havia jornais, livros escolares, cadernos, raspadinhas e muitas conversas entre vizinhos. A Estudantina era gerida pelo Sr. Carvalho, como era conhecido na zona, hoje com mais de 90 anos, e tornou-se uma das lojas mais típicas do bairro.
Quando fechou portas, há cerca de um ano, deixou saudades entre os moradores. Foi precisamente essa história que chamou a atenção de Quentin Metayer, de 35 anos, quando passou por ali, em novembro de 2025. “As pessoas do bairro conheciam este sítio pelo proprietário. Não era apenas uma loja, fazia parte da vida de muita gente”, conta à NiT.
Foi essa ligação entre a comunidade e o espaço que o convenceu a avançar com um novo projeto ali. Em vez de apagar o passado, decidiu prolongá-lo. “Assim que vi o espaço percebi que não era só um local vazio para abrir mais um café de especialidade em Lisboa. Era um pedaço do bairro. A ideia nunca foi apagar o que já existia, mas continuar a história.”
Natural de França, Quentin mudou-se para Portugal há quase cinco anos. Quando chegou a Lisboa começou a visitar regularmente cafés de especialidade e foi aí que nasceu a vontade de abrir um projeto próprio.
As obras arrancaram pouco tempo depois, mas houve uma preocupação constante em manter a identidade do espaço. A fachada permaneceu exatamente igual, bem como o nome Estudantina, que continua por cima da porta de entrada. “O nome fazia demasiado sentido para desaparecer. Em Portugal, uma estudantina faz parte da cultura e das tradições. Era importante manter essa ligação”.
O interior mudou, mas também procurou respeitar o passado. Quentin trabalhou com vários artesãos portugueses para criar praticamente todo o espaço. A cerâmica foi produzida pela Manteiga Cerâmica, um atelier do bairro, enquanto o mobiliário foi feito por um marceneiro português.
A Estudantina abriu oficialmente a 27 de maio e rapidamente começou a chamar a atenção. Apesar de a antiga papelaria já não existir, Quentin fez questão de manter uma pequena seleção de livros no espaço.

A ideia nunca foi competir com brunches cheios de opções ou menus intermináveis. O novo proprietário preferiu apostar numa carta reduzida, onde quase tudo é preparado diariamente no próprio café. “Não queríamos fazer muitas coisas. Preferimos fazer poucas, mas fazê-las bem.”
Um dos maiores sucessos da casa acaba por ser o ovo à la coque (5€), que pode ser personalizado com queijo Tomme de Fleur (3,50€), fiambre artesanal (3€) ou compota da época (2€). O clássico francês é servido com pão de massa mãe para mergulhar na gema ainda líquida. “É provavelmente aquilo que mais vendemos. Em França é uma coisa muito normal, mas aqui continua a surpreender muita gente.”
Entre os destaques estão também a granola caseira com iogurte grego, mirtilos, pólen, chocolate negro e mel (6,50€), as overnight oats com banana caramelizada, manteiga de amendoim e compota de mirtilo (6,50€), o clafoutis de mirtilo (4,50€) e a focaccia com creme de feta, presunto, tomate, azeitonas e manjericão (8€).
Os croissants, os pains au chocolat e o pão chegam diariamente da Meia Lua, uma pastelaria artesanal portuguesa. A ideia passa por combinar produtos feitos na casa com outros preparados por produtores locais, sempre escolhidos pela qualidade.
Nas bebidas, há espresso (2,5€), americano (2,8€), cortado (3€), flat white (4€), cappuccino (4€) e latte (4€). Para quem prefere café de filtro, há V60 (6€), batch brew (3,5€) e cold brew (4€), além das versões frias como iced americano (3,5€), iced latte (4€), iced flat white (4€) e um iced latte de banana bread (5€).
As opções sem café incluem chá verde ou preto (4€), matcha latte (5€), matcha com gelo (5€) e babyccino (3€). Já nas bebidas frescas encontram-se limonada caseira (3€), limonada de mirtilo e yuzu (3,5€), soda de chá Caxemira (4€) e água com gás (3€). É ainda possível acrescentar leite vegetal ou xarope por mais 0,5€.
Um projeto que arrancou há poucas semanas e tem ajudado a dar vida ao espaço, é o run club organizado pela Estudantina. A ideia surgiu depois de Quentin perceber que o bairro ainda não tinha tantas iniciativas deste género como outras zonas da cidade. “Há bairros em Lisboa onde existem muitos cafés de especialidade e muitos eventos. Sentimos que aqui ainda havia espaço para criar esse tipo de encontros.”
A iniciativa ocorre todas as sextas-feiras, às 8h30, e pretende juntar moradores e visitantes para uma corrida informal pelas ruas de Alcântara.
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