Cafés e Bares

Empresários de bares e discotecas furiosos: “É às 20 horas que o vírus aparece?”

Houve reações de humor às novas normas mas, para lá das piadas, há um setor à beira do colapso.
Um setor à espera de soluções.

A partir deste sábado, 1 de agosto, os bares e discotecas vão poder operar num regime semelhante ao dos cafés, pastelarias e casas de chá. Na maior parte do país, isto implica admitir entradas até à meia-noite e ter as portas abertas até à uma da manhã. Mas na área metropolitana de Lisboa, o contexto de contingência só permite funcionar até às 20 horas, o que está a deixar os empresários do setor à beira de um ataque de nervos.

Foi ainda em março que os bares e discotecas começaram a fechar portas, muitos ainda antes de o confinamento ser a nova lei. O desafio já seria grande se durasse só umas semanas. Mas foi há quase cinco meses que este setor praticamente parou. Pelo meio, há um verão que está a passar e que é a altura de principal retorno para muitos espaços.

A NiT falou com diferentes empresários ligados à noite sobre o que esta possibilidade de abrir como café implica. “A proposta para minimizar os estragos é ainda pior”, conta-nos Tiago Caridade, empresário ligado ao Tamariz Summer Club e Focus Lisbon.

Tiago conta-nos que tinham novo investimento preparado para Vilamoura. “Tudo o que tínhamos preparado está suspenso. Neste momento não há luz ao fundo do túnel, estamos às escuras”, conta. Nos espaços a funcionar em Lisboa e no Estoril, depois de uma primeira fase em lay-off, começaram a chegar a acordo com funcionários. A perspetiva de poderem voltar a contratar fica em stand-by.

Tiago Caridade explica que “é inviável” discotecas transformarem-se agora em pastelarias. “Já não há mercado para restaurantes, cafés e pastelarias, ainda transformar uma indústria toda para o mesmo setor não tem qualquer cabimento”.

O empresário critica também o que chama de “terror diário”, pelo qual culpa a comunicação social, e que não ajuda a algo essencial para negócios destas dimensões: a confiança. Tiago lamenta que no início do verão não tenham surgido a tempo algumas medidas que permitissem aos espaços reabrir sob determinadas condições. “Podiam ter aberto com capacidade reduzida, com limitação de espaços, com mesas, eventos privados”, sugere. “Podia-se arranjar uma forma de as pessoas trabalharem”.Não foi o que aconteceu.

Pedro Chuva, gerente dos mesmos espaços do Tamariz e do Focus, é perentório em resumir o assunto em poucas palavras. À NiT, diz apenas que a proposta em cima da mesa para responder ao desafio da Covid-19 “é ofensiva para o setor”.

O estranho caso do vírus que ataca de noite

Houve vários empresários que propuseram que os bares e discotecas funcionassem nos horários habituais mas adaptando-se a regras novas, à imagem do que teve de acontecer com cafés e restaurantes. Mas tal não foi aceite. À NiT, um outro empresário que prefere não dar o nome, fala mesmo de um “horário estapafúrdio”. “É às 20 horas que o vírus aparece?”.

João Fernandes, o empresário e DJ mais conhecido como Deejay Kamala, corrobora. “Isto não é positivo para ninguém. São espaços que laboram noite dentro. Continuamos com o mesmo pressuposto: aparentemente, o vírus ataca mais depois da meia-noite”.

Passagem de Ano
Deejay Kamala fala no colapso do setor.

“Isto é tão triste porque senão seria cómico”, prossegue. “Quem tem bares e discotecas pode trabalhar até às 20h mas quem tem restaurantes pode trabalhar até à meia-noite. É daquelas coisas que ninguém consegue perceber”.

O DJ e empresário lamenta mesmo que o governo não tenha apostado em readaptar o setor durante este tempo, até para haver mais controlo de festas ilegais, “quando estes espaços estão preparados” para que decorressem festas, dentro de regras pré-estabelecidas.

Ao invés, critica, “há cinco meses que este setor procura apoios, porque somos obrigados a estar fechados, por ser interesse público, mas este setor não tem participação a fundo perdido”. Esta situação, elabora, afeta milhares de famílias de forma direta e indireta. Além dos empresários, há funcionários, fornecedores, artistas, técnicos de som e muitos mais que foram afetados.

“Vejo insolvências em massa a partir de setembro”, admite Tiago Caridade, lembrando que o verão é a altura do ano em que muitos destes negócios têm maior retorno dos seus investimentos. João Fernandes revela mesmo que conhece “vários empresários que já entregaram as chaves. Só para não estarem a criar mais dívida”.

“”Estamos a falar de um setor inteiro poder colapsar. Não há nenhum negócio no mundo preparado para estar cinco meses fechado a acumular dívidas”, salienta. Mas tem sido essa a vida de bares e discotecas. E parece que assim irá continuar.

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