Numa esquina discreta de Rio Tinto, nos arredores do Porto, existe um pequeno café de bairro onde uma funcionária passa os dias a montar tostas mistas. No fundo, ela tem uma única missão de vida: enfileirar pão, queijo e fiambre em quantidades industriais para alimentar as centenas de clientes que aparecem diariamente à procura da tosta que se tornou viral no último ano. Estamos a falar da tosta mista gigante do Café Panda.
António Santos, o dono, conta que serve entre 150 a 200 tostas por dia, numa média que o obriga a comprar montanhas de queijo e fiambre, nunca menos de 40 quilos por dia. Cada exemplar leva cerca de 300 gramas de recheio e custa 6€. A brincadeira começou em plena pandemia, ganhou vida própria nas redes e, nas palavras do próprio, fez disparar o negócio “do oito para o oitenta”. O espaço, esse, tem uma história bem mais antiga. O Café Panda, em Rio Tinto, está aberto desde 1978.
Aos 59 anos, o homem natural de Murça recorda que chegou à cidade com 14 anos, para trabalhar. O ponto de viragem viria vários anos depois, quando o dono original do Café Panda, onde já trabalhava, decidiu largar o negócio. António Santos assumiu o papel de proprietário no virar do século, em 1999, e nunca mais dali saiu.
“Adoro esta profissão”, confessa. Férias? Só duas semanas por ano e, mesmo assim, “a segunda semana já é difícil de aguentar”.
“Sinto sempre que me falta qualquer coisa. Gosto de conviver com o público, gosto de fazer as minhas coisas. E então com este sucesso todo ainda me dá mais alegria, mais vontade de trabalhar.”
Quando abriu, o Café Panda pouco tinha a ver com tostas, pregos ou cachorrinhos. Era sobretudo uma casa de jogos, com bilhares e máquinas de flippers. Durante anos, foi, como se percebe, um ponto de encontro para quem queria jogar, beber qualquer coisa e passar o tempo com os amigos e vizinhos.
No início, havia três mesas de bilhar. Depois ficaram duas. Até que António decidiu mudar e tirar tudo o que ocupava o centro da sala, para abrir espaço para outra prioridade: a comida. Primeiro devagarinho, com uma ou outra sandes, petiscos simples e um prego que começou a dar nas vistas. Mais tarde, já em plena Covid, a mudança concretizou-se em pleno.
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Foi aí que António e o filho decidiram apostar num “sistema diferente”, com mais comida e menos máquinas, até que chegou a grande estrela. “A tosta mista foi uma invenção que eu fiz na Covid e que começou logo a ter sucesso”, recorda. Mas nenhum sucesso se pode comparar ao boom do último ano, quando a sandes volumosa se espalhou pelas redes sociais. “Deus me livre. Foi um disparate”, brinca António.
Antes de a tosta mista conquistar a Internet, já havia uma estrela da casa: o prego. Foi a primeira grande especialidade que António colocou na carta assim que ficou com o espaço. Aqui não há molhos secretos, reduções complicadas ou truques de chef. Há obsessão com a qualidade.
“A carne tenra, o pão, tudo no ponto certo, nem muito passado, nem muito cru”, afirma. “E nada de molhos. Só sal grosso.”
Quando o cliente termina, o prato tem de ficar com aquele “restinho de molho”. É assim que António Santos percebe que foi mais um prego bem-sucedido. Pode ser comido no pão (6,5€), ou em versão mais composta, no prato (10,5€).
Hoje, porém, é a tosta mista que rende mais stories e vídeos. Cada unidade leva cerca de 300 gramas de queijo e fiambre, entre duas fatias de pão que pouco têm de discretas. E, apesar de toda a exposição, continua a haver um segredo que só o dono conhece.
“A tosta tem um segredo que só eu é que sei qual é. Nem o meu filho sabe. Só eu é que sei dar aquele toque certinho”, explica.
Na prática, isto significa que a equipa monta as tostas e António finaliza. “Quando não estou, fazem eles, mas não é a mesma coisa”, assume.
A tosta mista especial custa 6€ e quem quiser algo mais modesto pode optar pela tosta mista normal (3,7€).

Além da famosa tosta mista, a carta do Café Panda está cheia de clássicos de café à portuguesa que fazem a clientela voltar. Há o cachorrinho (4€) — que muitos usam como aquecimento antes da tosta — o cachorro especial (7,5€), o inevitável pica-pau e um hambúrguer feito com a mesma carne do prego. Para quem prefere algo mais composto, a ementa inclui ainda a francesinha (10€).
Em certos dias, o espaço torna-se demasiado pequeno para acolher tanta gente. Senta à volta de 30 a 40 pessoas, mas começa a trabalhar cedo, pelas 10 horas, em horário contínuo até às duas da madrugada. Descanso, só mesmo à segunda-feira. O cenário muda completamente ao fim de semana.
“É uma loucura. Durante a semana trabalhamos razoavelmente bem, mas ao sábado e domingo é de loucos”, explica. Uma rotina cansativa. “Às vezes quero fechar e tenho isto cheio, mas o pessoal tem que se convencer que temos que descansar. Já não sou nenhum jovem”.
Ainda assim, continua a ser António o fio condutor. É ele quem afina o ponto da carne do prego, quem finaliza as tostas. Mas um dia, admite, terá de parar.
“Sei que vai acontecer, mas não me estou a ver sem isto.”







