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Joyeux: já abriu em Portugal o café onde trabalham pessoas com problemas cognitivos

Os funcionários têm trissomia 21 ou perturbações do espectro do autismo. Sentem que conseguiram finalmente a oportunidade que tanto queriam.
Pedro, Sebastião e Carolina trabalham no Joyeux.

“Todos merecemos o mesmo olhar e a mesma atenção, é isso que importa.” Sebastião, 24 anos, estava um pouco nervoso durante a conversa com a NiT. Perguntámos-lhe sobre a experiência de trabalhar no novo Joyeux, em Lisboa, onde são empregadas pessoas com dificuldades intelectuais e do desenvolvimento (DID), como trissomia 21 ou perturbações do espectro do autismo. “Tem sido muito bom, gosto bastante de estar em contacto com o público.”

Do outro lado do balcão tinha o apoio de Carolina, 21 anos. “Este sim, é o meu maninho”. Já tinha estado nos recursos humanos de uma cadeia de pizzaria. Este verão foi protagonista da campanha de regresso às aulas da FNAC. Agora — e desde o primeiro dia, 23 de novembro — faz parte da equipa maravilha do Joyeux.

“Estou atrás do do balcão, falo com as pessoas, digo ‘bom dia’, ‘boa tarde’, e também sirvo às mesas. Ajudo as minhas equipas e as outras também. Foi uma oportunidade muito boa”, conta Carolina à NiT.

É um trabalho idêntico ao de Pedro, 22 anos. Os avós tiveram um café, por isto esta não é uma experiência totalmente nova para o jovem empregado. “Já tinha feito, mas é algo que gosto de fazer, como o atendimento ao público e o serviço às mesas.”

Esta é a primeira vez que a marca Joyeux abre um café fora de França — onde nasceu e tem cinco espaços. A ideia de criar um conceito do género — onde são contratadas na maioria pessoas com problemas cognitivos — já era antiga para Filipa Pinto Coelho, presidente da associação VilacomVida, que trouxe o projeto para o nosso País.

“Gostávamos de criar qualquer coisa muito ou praticamente igual à que o café Jouyex acabou por fazer. Para não reinventarmos a roda, e porque não há tempo a perder, convidámos a marca a vir para Portugal”, explica Filipa à NiT.

Em Santos, esta associação já tinha desenvolvido um projeto de restauração inclusivo. “Aprendemos com a experiência e que as coisas são mais simples do que o que podemos pensar.” Esteve aberto durante 18 meses, mas acabou por fechou em março de 2020. A experiência serviu para dar força ao que viria um ano e poucos meses mais tarde.

“Apresentei a ideia, a missão da associação e que gostávamos muito de importar o conceito [do Joyeux]. Consegui ter a oportunidade de apresentar esta ideia ao fundador da marca, Yann et Lydwine Bucaille, e as coisas aconteceram.”

Demoraram algum tempo até encontrarem o espaço ideal. Porém, o processo de montar todo o espaço foi muito mais rápido. Em apenas três semanas, as paredes do número 26 da Calçada da Estrela ganharam tons amarelos. O interior ficou com novas mesas e cadeiras; e o balcão e a área de cozinha — que fica no piso inferior — foram completamente renovados.

“Abrir este projeto significa mudar o olhar sobre a capacidade que existe nestas pessoas de conseguirem desempenhar uma profissão com qualidade e de poderem fazê-lo de forma apelativa para que os clientes venham mais, queiram ajudar e possam perceber que é possível fazer tudo. É possível trabalhar com qualidade, empregar estas pessoas também, dar-lhes um trabalho, e funcionar acima de tudo com uma equipa inclusiva.”

A equipa do Joyeux tem, atualmente, nove pessoas que lutam com estas dificuldades — no verão, é provável que este número aumente. Os funcionários têm um contrato de trabalho e durante dois anos estão em formação para receber um diploma e certificado de restauração. O staff divide-se em quatro áreas: cozinha, serviço de mesa, barista e caixa. O grupo fica completo com outros três elementos que lhes dão o apoio necessário.

“Não queremos continuar com uma lógica do vamos lá ajudar os coitadinhos. Não tem nada a ver com isso. Queríamos um projeto que fosse apelativo e que, de facto, fosse bom ir até lá, porque se come bem, porque temos um bom ambiente, porque se ouve boa música, porque tem boa energia e porque estamos a contribuir para apoiar uma boa causa. Ao mesmo tempo, tudo isto nos transforma”, continua Filipa.

Quando a NiT visitou o espaço, a equipa de cozinha já não estava no local. Trabalha sobretudo durante a parte da manhã, altura em que são feitas as várias propostas que vão ser servidas ao longo do dia. Ainda assim, no percurso pelas escadas até ao piso inferior, conseguimos ver as fotos de cada um destes trabalhadores — e que estão molduradas. Filipa identifica-os à medida que desce cada degrau: “João, David, Lurdes, Pedro, Carolina, a nossa Carol, António, Joana, José e Sebastião…”

O Joyeux tem capacidade para receber 37 clientes. Há ainda uma esplanada, com vista para o Parlamento, com mais oito cadeiras. Até às 11 horas são servidos os pequenos almoços. A carta tem, por exemplo, o Sorridente, que junta uma bebida quente, sumo de laranja, croissants ou cesta de pão, manteiga, compota cadeira, queijo ou fiambre. Custa 5,50€.

Aos almoços, há sopas, quiches, bruchettas e pratos do dia, que vão rodando. Nesta primeira semana vai haver lasanha de salmão e espinafres, salada de quinoa, beterraba e queijo feta ou a quiche de cenoura, mel, cominhos e sésamo. Já aos sábados é servido brunch entre as 9 e as 15 horas. Custa 12€. É composto por bebida quente, sumo natural, queijo fresco, granola, ovo, torradas, cesta de pão, compota caseira, tábua de carnes frias e salada.

Os pedidos são sempre feitos ao balcão. Os clientes recebem tudo numa enorme peça de Lego. No balcão fica outra da mesma cor, para que o empregado saiba a que mesa específica tem de levar o tabuleiro. “É um processo inclusivo”, conta Filipa. Assim que fizer o pagamento pode deixar um donativo, ou as tradicionais tips, num porquinho mealheiro dourado. Cada vez que ali cai uma moeda é tocado um sino.

Há mais uma forma de ajudar a associação e o café Joyeux. Foi criado um site onde pode comprar T-shirts, sweatshirts, aventais e sapatilhas que fazem parte da farda de todos os colaboradores.

São Bento foi a primeira localização escolhida para conceito. Mas poderá haver mais novidades. “Temos um projeto de expansão de cinco cafés no próximos cinco anos. Pretendemos estar num sítio de passagem para que todas as pessoas o possam conhecer, promover um contacto e uma relação para desmistificar estes preconceitos.”

Filipa acredita que o sucesso do Joyeux deverá abrir mentalidades e criar mais oportunidades no País. “Pode fazer com que os patrões queiram contratar pessoas com dificuldades intelectuais e de desenvolvimento, não apenas por uma obrigação, mas porque se sentem entusiasmados.”

Carregue na galeria para conhecer melhor o novo café Joyeux.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Calçada da Estrela, 26, Lisboa
    1200-664 Lisboa
  • HORÁRIO
  • Das: 09:00
  • Às: 18:00
  • Fecha segunda e domingo.
PREÇO MÉDIO
Entre 10€ e 20€
TIPO DE COMIDA
Café

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