Cafés e Bares

Morango e azeitona? Na Bizzarro Gelato, todos os sabores são improváveis

Nova gelataria de Lisboa é irmã da Echo, em Sesimbra, mas aposta em combinações inusitadas. E até serve gelado em pão brioche.
(Foto: Attilio Fiumarella)

No virar do século, uma moda de vida curta abanou o cenário dos gelados em Portugal. Um pouco por todo o País, surgiam gelatarias que com escolhas arrojadas e inusitadas de sabores. Saíam gelados de sardinha, de camarão, de bacalhau — mais para chocar do que para agradar aos clientes. A ideia teve o fim que se antecipava.

Desde então, os experimentalismos gelados têm estado reservados às cozinhas de autor e a um ou outro restaurante informal mais irreverente. De cogumelos a brioches, as escolhas eram criteriosas e executadas na perfeição, mas sempre num balanço delicado com o resto da ementa e quase sempre como personagens secundárias de uma sobremesa ou prato.

Frederico e Filipe Calado decidiram que estava na altura de recuperar a bizarria — mas sem loucuras. O arrojo está lá, embora exija muita experimentação, cuidado na escolha das combinações e alguma ciência. Um projeto bem diferente daquela moda que nos quis empanturras com bolas de gelado de sabor a peixe.

Os dois irmãos setubalenses não são sequer novatos nestas lides. Frederico, farmacêutico de profissão, convenceu Filipe, designer com formação em pastelaria, a aventurar-se no mundo dos gelados. O mais novo viajou até Bolonha para aprender os segredos da arte com os mestres gelateiros e em 2022 abriram em conjunto o Echo Gelato Lab, em Sesimbra. E era mesmo um laboratório: oficina à vista, ingredientes naturais e frescos, sem conservantes ou corantes, tudo feito em casa.

Os pedidos para uma incursão em Lisboa multiplicaram-se. A ideia cresceu e até colocaram uma food truck com os gelados junto à Torre de Belém. Mas os irmãos acharam que “era demasiado fácil” transplantar a Echo para um espaço semelhante na capital.

“Soubemos desta loja na rua de São Julião, no espaço de uma garrafeira muito antiga, e assegurámos a loja. Mas em vez de fazermos o mais fácil, isto é, replicar, tivemos uma ideia: sermos mais ambiciosos e criar um conceito que é bizarro.” A Bizzarro Gelato abriu as portas no sábado, 20 de janeiro, com “emparelhamentos improváveis de sabores”.

“Testámos receitas durante meses até chegarmos a estes 16 sabores que vão ser também sazonais. Todos os meses sai um para entrar outro”, explica Frederico. A verdade é que a experimentação começou ainda em Sesimbra, onde a combinação de cerveja preta com marmelada fez sucesso e deu alento para este plano arriscado. “A partir do momento em que decidimos avançar para Lisboa, perdemos o medo e o número de possibilidades explodiu.”

E, afinal, que sabores loucos são estes? Por lá vai poder provar gelados de morango e azeitona; ananás e pimento; abóbora e café; chocolate e malagueta; e caramelo com molho de soja. Há ainda gelados vegan como o de ervilha e manjericão, alho e maçã, cebola e manga, beterraba e laranja, tomate e côco ou pêra e moscatel.

Entre junções mais intuitivas, há outras menos óbvias que obrigam a muitos testes. “Ocasionalmente surgem uns monstros, combinações que correm mal, mas também aprendemos com elas”, explica. “É curioso, porque conhecemos os sabores, mas a experiência sensorial é complexa. Reconhecemo-los, mas não estamos habituados a senti-los juntos ou sequer frios. A cor também é curiosa, até porque não usamos corantes, nem naturais. Vai tudo com a cor com que fica.”

A temperatura a que é servido também é relevante, nota o farmacêutico que puxa dos galões da sua formação. “Aqueles comerciais são servidos entre os 18 e os 20 graus negativos, isto porque não têm um sabor tão intenso. O gelado artesanal como o nosso serve-se entre os 14 e os 15 graus negativos. E há algumas gelatarias que o servem mais como creme, a 12 graus negativos, que já está a derreter quando nos chega às mãos — mas isso também lhe dá um sabor mais intenso. A nossa temperatura, achamos que é um bom compromisso entre estrutura, tempo até derreter e sabor.”

Nem tudo é bizarro na Bizzarro Gelato. Há opções mais consensuais para os menos aventureiros e também para os miúdos, os clássicos chocolate de leite, morango, baunilha ou pistácio. Os gelados podem ser provados em copo ou em cone, sempre servidos com a tradicional espátula, com preços que começam nos 3,8 e podem ir aos 6,3€. Mas há outras novidades.

Em particular, o brioche gelato, inspirado no clássico gelado siciliano servido em pão. Mas neste caso, em vez de aberto, o brioche é prensado numa máquina que o tosta por fora, tornando-o crocante, ao mesmo tempo que sela no seu interior o gelado: é o brioche gelato (4,8€).

O espaço é também visualmente arrojado, de linhas modernas, onde despontam manequins com vestidos feitos de açúcar, uma criação própria, ou melhor, de Filipe Calado — Blanquet de nome artístico. Um hobby de criação de vestidos de açúcar que uniu o jeito para o design e a formação em pastelaria, e que agora emolduram a loja na baixa de Lisboa.

Entre um pé direito de respeito e abóbadas, há mobiliário de alumínio, um carrinho de gelados e uma palete pouco usual de cinzas e pretos. Tudo para se afastarem do aspeto habitual das gelatarias. “Quisemos afastar-nos do óbvio e fomos para as cores menos usadas nas gelatarias, um aspeto mais industrial, mais bruto”, explica Frederico. Nas estantes, a prova de que tudo ali é caseiro: frascos e frascos de caramelos e compotas. Uma “espécie de loja do Willy Wonka” para fanáticos por gelados — e por sabores inusitados.

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FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua de São Julião 54
    1149-030 Lisboa
PREÇO MÉDIO
Menos de 10€
TIPO DE COMIDA
Gelataria

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