Cafés e Bares

Um copo de vinho a ver o mar: o Botella é o novo (e obrigatório) wine bar do Porto

Acaba de nascer na Foz e aposta em vinhos originais, de pequenos produtores, acompanhados de petiscos escolhidos a dedo.
Há mais de 70 referências para provar a copo

Ainda antes de nascer o Botella, já Diogo Magalhães Ferreira passava a vida entre elas — as garrafas, está claro. Formado em produção enológica e cansado da correria habitual entre vinhas de norte a sul do País, decidiu alargar o percurso e lançar-se num périplo pelas regiões vinícolas de todo o mundo.

Despediu-se, pegou nas malas e foi. A aventura esbarrou numa pandemia que o deixou apeado em Napa Valley, na Califórnia, que dificilmente será um mau sítio para deixar abrandar o pânico global provocado pela Covid-19. Por lá ficou oito meses, antes de regressar.

“Queria fazer algo, não sabia bem o quê. Então no regresso decidi montar um negócio, uma distribuidora de vinhos de pequenos produtores, que tanto sofreram durante a pandemia”, conta à NiT o portuense de 36 anos e um dos proprietários do novo wine bar da cidade.

Uma coisa levou a outra e, em conversa com o amigo João Monteiro, surgiu o desafio: agarrarem um espaço vago na Foz do Douro, a dois passos do mar, e transformarem-no num espaço de vinhos e petiscos. “Queríamos fazer algo que ainda não houvesse na Foz”, nota João, 31, economista e gestor de formação.

Diogo é o homem dos vinhos. João controla os detalhes da carta. E Margarida, a irmã de Diogo, é quem gere o dia a dia do Botella, wine bar inaugurado em maio e que assenta em duas regras muito simples: vinhos bons, diferentes e de pequenos produtores; e pequenos pratos feitos com produtos de qualidade.

Numa cidade onde os wine bars se aglomeram no pequeno raio do centro histórico e turístico, Diogo e João quiseram traçar uma linha. “Acho que há muitos wine bars mas são feitos para os turistas. O Botella é feito para os locais. Recebemos turistas com todo o gosto — e eles vêm e gostam —, mas o nosso público alvo são os locais”, nota.

É precisamente esse o cenário da pequena loja de esquina, dividida a meias entre a rua do Padrão e a avenida do Brasil. A janela ampla abre-se e cria uma espécie de balcão aberto. No interior, respira-se o ar de mar; lá fora, no pequeno balcão improvisado, convida-se quem passa a parar e beber um copo. E a máxima cumpre-se: o Botella está cheio de locais, de moradores.

“Foi curioso, porque abrimos para um teste a 29 de abril, sem dizermos nada a ninguém, e quando reparámos, estávamos completamente cheios”, conta Margarida.

No interior, encontraram um espaço sóbrio, moderno, com uma garrafeira que troca a madeira pelo metal, onde as garrafas baloiçam, literalmente penduradas. A dinâmica é, acima de tudo, prática. Pequenos bancos de madeira saem dos bancos corridos ao longo da parede e os lugares parecem multiplicar-se, ao ponto de, apesar de pequeno, comportar perto de 30 pessoas. Nas paredes, apontamentos de cor em forma de esculturas, um nariz, a boca, os sentidos que se querem apurados para provar os 75 vinhos da carta.

“Focamo-nos muito nos pequenos produtores, mais genuínos, queremos coisas mais naturais — e preferimos sempre deixar os vinhos das grandes prateleiras de fora”, conta Diogo. “Por vezes esgotam, é normal, porque há ali vinhos dos quais só foram feitas 500 garrafas. Hoje temos, amanhã não sabemos.”

Preferem apostar em “vinhos mais difíceis de vender”, com um perfil diferente, mais distinto. “As pessoas sabem que vêm aqui e têm um produto diferenciado. Podem provar e depois levam para casa para dar aos amigos e fazem um brilharete.” Aos vinhos nacionais e espanhóis, querem brevemente juntar referências italianas e francesas.

João e Diogo são os criadores do projeto

Outro pormenor importante: cada uma das 75 referências, independentemente do valor, estão disponíveis a copo, a um valor que pode ir dos 2,5€ aos 13,8€. Depois, há toda uma carta de petiscos pensada para acompanhar as estrelas do Botella.
O pão de massa mãe com um trio composto por manteiga, azeite e pesto (5€) e o salmão usado no tártaro (9€) vêm dos negócios do chef Vasco Coelho Santos, respetivamente do Ogi e da Peixaria. O presunto ibérico (15€) tem a assinatura ade Castro y González.

“Tal como nos vinhos, procuramos essencialmente a qualidade e a diferenciação. Até porque também queremos que nos procurem pela qualidade da comida”, explica João, enquanto aponta para a pequena mas variada ementa.

Há carpaccio de polvo (15€) e de bovino (9,5€), bife tártaro (9,5€), tacos mexicanos com lombo de porco, guacamole, feijão e pico de gallo (8,5€) ou umas espetadas de frango teriyaki (6,5€). Não faltam também os doces, um leite creme (4,5€), um merengue de framboesa(4,5€) ou o Melhor Bolo de Chocolate do Mundo (5€) acompanhado de um gelado de citrinos.

Com a carta pensada para as semanas de verão que se seguem, prepara-se já também o elenco para os meses mais frios. A ideia é que os clientes possam vir e provar coisas diferentes, bem como servir de pretexto para provas de vinho mais diversificadas.

Para breve está também a introdução de sopas, saladas e sandes, para servirem de pretexto para um almoço leve — e uma ótima desculpa para o fazer acompanhar de um copo de vinho. Todos os pratos podem também ser vendidos para fora, a preços mais baixos, já prontos a comer ou para poder preparar em casa.

Também os vinhos têm dois preços: quando bebidos no local ou a preço de garrafeira, apenas para pick up. “Somos uma espécie de loja de conveniência (risos)”, brinca João.

Verdadeiramente convenientes são também as Wine Sessions que organizam a cada duas semanas, sempre à quarta-feira, quando parte do espaço é ocupado por um dos produtores que fornecem o Botella. Das 18 às 20 horas, há sempre espaço para uma prova aberta, onde é possível descobrir novos vinhos e conversar com os produtores.

De resto, é ir e deixar-se ficar nas mãos e nos conselhos sábios de Diogo Ferreira, que aceita de bom grado o desafio de convencer até os que dizem não gostar de vinho. E mesmo antes da primeira visita, deixa já três vinhos a provar.

O primeiro é o Silice, um rosé galego, da Ribeira Sacra, feito com a casta Mencía. “É um vinho mais fresco, natural, sem produtos químicos. É diferente, mais ácido e com madeira que faz dele mais glu glu, isto é, vem-se beber um e acaba-se a beber dois ou três copos”, nota. Vende-se a copo (10,25€) e à garrafa (41€ no restaurante, 22€ na garrafeira).

No campo dos tintos, recomenda uma viagem até ao microclima da serra de Sintra, onde o Infinitude aposta na casta Merlot. “É um vinho mais especiado, de pouca extração, com mais acidez e menos alcoólico”, nota. “Na boca cumpre os requisitos de um vinho tinto, tem estrutura, final longo, mas distingue-se pelos taninos mais finos.” A copo sai a 11,40€ e a garrafa fica por 51€ no espaço e 28€ na garrafeira.

Por fim, nova viagem até Espanha, para provar o Aguja del Fraile. “Um vinho de Madrid, feito a muita altitude, tem muita acidez, pouca extração. Tem mais garra na boca do que o anterior”, explica. A referência feita com a casta Garnacha prova-se a copo (10,34€) ou em garrafa (46€/25€).

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FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua do Padrão, 78
    4150-557 Porto
  • HORÁRIO
  • Das 12h às 22h. Até às 2h à sexta e sábado. Fecha à terça-feira.
PREÇO MÉDIO
Entre 10€ e 20€
TIPO DE COMIDA
Mediterrânica

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