Gourmet e Vinhos

A alemã apaixonada por Portugal que é chef privada de futebolistas como Vlachodimos

Desde que o guarda-redes se mudou do Benfica para o Nottingham, Kira Meenke passou a ir a Inglaterra cozinhar para a família.
Kira Meenke vive em Lisboa desde 2021.

Nasceu na Alemanha, cresceu no Luxemburgo e na Dinamarca, já viajou pelo mundo. No entanto, Kira Meenke escolheu viver em Portugal. Descobriu o nosso País em 2017, quando veio estudar para Lisboa durante um semestre no ISCTE. “Apaixonei-me pelas pessoas e pelas praias e soube logo que ia voltar um dia. Após passar algum tempo na Suíça e na Austrália, decidi concretizar o meu sonho: mudei-me para cá em 2021.”

Com 28 anos, licenciou-se em gestão e marketing. O currículo de Meenke não se fica por aqui: também inclui formações em nutrição e culinária, e passagens por restaurantes de fine dining nos EUA e na Polónia. Competências que usa no trabalho diário como chef privada de futebolistas.

“Tudo começou com atletas da Bundesliga (primeira liga de futebol da Alemanha). Os meus clientes mais conhecidos aqui em Portugal são Jeremiah St. Juste, do Sporting, e Odysseas Vlachodimos, que jogou vários anos no Benfica e foi recentemente para o Nottingham Forest. Tenho mais jogadores com quem trabalho, mas apenas quando a família vem visitá-los.”

A atração pelos diferentes aspetos da nutrição começou cedo. “Costumava praticar desporto de competição. Quando era adolescente, joguei andebol juvenil na Dinamarca e, mais tarde, nos sub-18 da primeira divisão alemã. A dieta saudável sempre foi algo fundamental e, como não tinha um chef privado (risos), tive de colocar em prática o que os nutricionistas dos clubes me ensinavam.”

Se conhecer as características dos alimentos era fastidioso para muitos colegas, desapontados com os sacrifícios de não poderem comer tudo o que queriam, com Kira aconteceu o contrário. “Após concluir a minha licenciatura em gestão, trabalhei em empresas ligadas à saúde e bem-estar, tornei-me nutricionista certificada, e criei um negócio próprio. A partir daí, iniciei a jornada como chef, aprendendo com mentores cujo trabalho admiro, e criei o meu estilo.”

A abordagem de Kira inclui comida saudável, claro, mas tem características específicas, como a adaptação dos ingredientes aos horários de cada atleta. “Faz com que seja muito consciente das escolhas na cozinha. Embora desafiador, este processo mais lento torna os pratos ainda melhores.” Apesar do que muitos supõem, não é vegana. “Como quase tudo, exceto porco, mas sou muito seletiva com aquilo que consumo, em especial quando se trata de laticínios e carne.”

A proveniência dos produtos ganha uma importância maior. “Quer dizer, como pode um animal doente fazer-te saudável? Por essa razão, como menos alimentos de origem animal e, quando o faço, apenas de fontes orgânicas certificadas.”

Desde cedo habituada a mudar de país, é natural que a sua personalidade reflita essa influência. “A minha educação em diferentes lugares teve um grande impacto, não só na pessoa que sou como naquilo que faço. E o meu trabalho obriga a adaptar-me a pessoas de diferentes origens culturais num curto espaço de tempo.”

No caso dos futebolistas, há ainda outro detalhe que precisa levar em conta. “A minha situação de vida também depende dos clubes para onde vão os meus clientes. Essa adaptação ao desconhecido é algo que aprendi desde a minha infância.”

Trabalhar como chef privada implica contactos privilegiados, rede que começou a estabelecer no mundo do desporto e alargou enquanto nutricionista. “A dada altura, comecei a ser contactada por retiros de ioga em toda a Europa. Amigos dos meus tempos do andebol, ligados à alta performance e que sabiam o que fazia, apresentaram-me atletas que precisavam de apoio na sua nutrição.”

Depois, as solicitações aumentaram. “A rede de contactos foi fundamental para ter novas oportunidades de emprego, mas não só – obviamente, nunca desiludi. Hoje trabalho para jogadores de futebol profissional por alguma razão. Além disso, tenho clientes em Nova Iorque, para os quais cozinho sempre que tenho disponibilidade.”

E compensa ser chef privada de futebolistas? “Adorei a ideia desde o primeiro minuto, mas é claro que tinha preconceitos, pensei que podiam ser arrogantes. Nada mais errado, só conheci pessoas incríveis, sempre acessíveis e acolhedoras.”

Escudando-se no dever de reserva sobre a vida dos clientes, Kira evita dar alguns nomes ou pormenores, mas realça que trabalhar com futebolistas permite-lhe viver experiências inesquecíveis. “No ano passado, fui contratada para me juntar à família de um jogador durante o Mundial, no Qatar. Acabei por assistir a todas as partidas em que ele participou e ainda tive tempo de ver Portugal em campo.”

Recentemente, o guarda-redes do Benfica Odysseas Vlachodimos saiu do clube lisboeta, rumando ao clube inglês Nottingham Forest. Sendo chef privada, como gere estas mudanças súbitas, típicas da vida de qualquer futebolista? “Essa é, de longe, a parte mais difícil. As refeições unem as pessoas, todos já estivemos em jantares em casa de amigos que acabam com conversas profundas na cozinha. Vivo cenários semelhantes, ligo-me aos meus clientes quando estou a trabalhar. Contamos piadas, falamos sobre a vida e outras coisas que os afetam ou aos membros das famílias.”

Quando mudam de clube, o que sucede? “Deixá-los partir, muitas vezes de forma repentina, é difícil. Felizmente, às vezes, isso não significa que as coisas tenham acabado. No caso do Odysseas, concordei em fazer de Nottingham o meu segundo local de trabalho. Passo parte do mês no Reino Unido, a cozinhar para ele e para a sua adorável família.”

Kira já explicou a importância que a alimentação saudável exerce na forma como confeciona os pratos, mas parece uma descrição curta. Como descreve, então, o seu estilo de cozinha? “Um dos meus clientes definiu-o bastante bem outro dia. Disse que a minha comida o faz sentir-se em casa. É esse o meu estilo: cozinhar pratos que alimentam tanto o corpo como a alma.”

As muitas viagens que realizou têm também um papel distintivo nas escolhas gastronómicas, com uma região do globo a destacar-se. “A culinária onde me sinto mais confortável é a do Médio Oriente. Aprendi muito com chefs do leste da Turquia e do Líbano. Gosto do conceito de mezze. A variedade de pratos, o calor das especiarias e o lado de partilha constituem uma experiência muito bonita. Além disso, tenho espaço para ser criativa durante a preparação dos alimentos.”

O cruzamento de nutrição, culinária e gestão materializou-se ainda noutra área – Kira lançou uma marca, a Keers, com produtos de detox por jejum. “Enquanto os atletas têm tempo e recursos financeiros para cuidar da saúde todos os dias, a maioria das pessoas tem horários preenchidos, que dificultam as escolhas saudáveis. Uma vez que o jejum é uma ótima maneira de permitir que o corpo ative capacidades naturais de cura (autofagia), é isso que recomendo.”

A chef considera que apesar de ser “uma conclusão óbvia, é complicado pô-la em prática”. O que a levou a criar uma forma de facilitar a tarefa. “Os sumos desintoxicantes são tentadores, mas com falta de fibras e demasiado açúcar, não se revelam úteis no jejum. Resumindo, desenvolvi o The Reset como um programa que torna o processo de auto-cura agradável, acessível e eficaz. Até os meus clientes o fazem nas alturas apropriadas.”

Assumindo que o seu gosto por desporto nunca passou pelo futebol, diz que os últimos tempos mudaram isso. Apesar de ser nas praias portuguesas que está a preferência dela. “Agora olho de outra forma para o futebol, claro, porque me importo com os meus clientes, mas não me considero fã. Prefiro assistir a transmissões de surf e, sempre que posso, vou surfar.”

A seguir, carregue na galeria para ver alguns dos pratos de comida saudável feitos por Kira Meenke.

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