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Amazon deixa tecnologia de compras sem caixa — afinal era tudo uma farsa

Sistema evoluído de AI dependia afinal de milhares de trabalhadores indianos que monitorizavam os produtos levados pelos clientes.
Era tudo muito fácil e simples (supostamente).

“Como a AI generativa ajuda a Amazon a eliminar as filas de pagamento e a revolucionar a experiência da compra”, apregoava a gigante tecnológica no verão passado sobre aquilo a que chamou “Just Walk Out”. Nos supermercados da marca, os clientes precisavam apenas de colocar os artigos no carrinho ou em sacos e sair porta fora sem ter de esperar em filas ou colocar os produtos num tapete para serem passados pelo código de barras.

“O feito é uma combinação de visão computorizada, reconhecimento de objetos, sensores avançados, modelos altamente avançados de aprendizagem e AI generativa — o tipo de AI que recentemente tem inspirado o público”, anunciava a empresa. “Sem saber como funciona realmente, parece magia.” E como um bom truque de magia, aquilo que achámos que está acontecer, é na verdade um estratagema para nos enganar. 

Afinal, o sistema não funcionava graças a uma super tecnologia avançada, mas estava dependente de milhares de trabalhadores indianos que, remotamente e com acesso às centenas de câmaras, vigiavam continuamente os clientes para registarem aquilo que eles compravam. Isso mesmo foi admitido esta segunda-feira, 1 de abril, pela própria empresa, que revelou a decisão de, graduadamente, descontinuar o sistema Just Walk Out, sistema que tinha começado a ser implementado em alguns supermercados em 2016.

“Queremos abrir mais lojas Amazon Fresh, mas sem a tecnologia Just Walk Out”, anunciou Tony Hogget, vice-presidente de setor de lojas da Amazon, em entrevista ao “The Information”. O responsável admitiu ainda que a retalhista está a retirar a tecnologia dos supermercados norte-americanos e apontou alguns motivos para este desfecho. Entre eles destacou o preço da instalação de todo o equipamento necessário, a contratação dos funcionários indianos após perceberem que iam precisar de um suporte maior e da quantidade de queixas e denúncias sobre o mau funcionamento do mesmo. Segundo os relatos de alguns clientes, os recibos eram enviados muitas horas depois da compra (o que impedia a confirmação dos mesmos) e por vezes acabavam a pagar os artigos errados.

Por outras palavras, os equipamentos ultra tecnológicos e mais de mil pessoas por trás de uma câmara não conseguiram fazer o trabalho de meia dúzia em caixas tradicionais. Contudo, o debate não se ficou por aqui. Assim que se soube a verdade por trás destas caixas inovadoras, os clientes colocaram em causa a questão da privacidade. Os sensores utilizados podem ter captados informação biométrica de milhares de pessoas, ao contrário do que tinham evidenciado quando lançaram a tecnologia.

“A confiança e a privacidade do cliente são fundamentais para a experiência. Em cada imagem temos vários pixels que pertencem a uma pessoa. Se um comprador tira o casaco, por exemplo, a assinatura é atualizada conforme ele se movimenta pela loja. A tecnologia Just Walk Out não recolhe nenhum dado biométrico. Tudo o que precisamos saber é onde essa pessoa está no chão e onde estão as suas mãos em relação à mercadoria da loja”, explicava a retalhista na altura. Mas parece que não era bem assim.

Os novos contornos deixaram muitos consumidores desconfortáveis e já levou a uma ação por uma empresa nova-iorquino que acusa a Amazon de ter recolhido informação sensível, sem informar os consumidores.

O processo adianta que a retalhista entrou em conflito com a Lei de Informações de Identificadores Biométricos do estado, que exige que as empresas informem aos clientes se estão a recolher dados usados ​​para fins de identificação. Peter Romer-Friedman, advogado que representa os lesados, disse ao “The Seattle Times” que “a Amazon deve uma explicação sobre como estão a trabalhar esses sistemas mesmo antes das pessoas entrarem nos supermercados – para que as pessoas possam decidir por si mesmas se desejam fornecer medidas do tamanho e forma do seu corpo como condição para conseguir uma sanduíche.”

Mesmo após estas confusões e descobertas, a tecnologia continuará a ser a utilizada nos supermercados da marca no Reino Unido. E em nada esmoreceu a vontade da Amazon de tentar inovar. Agora está a planear lançar os carrinhos de compras inteligentes, a que chamara Dash. Estes terão uma balança incorporada que identifica os produtos lá colocados. Além de fazerem as contas do quanto cada cliente está a gastar, permite passar a barreira das caixas sem parar.

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