“Olá, malta”. O início bem disposto de cada vídeo já deixa adivinhar o tom do resto do conteúdo. Desde de 2023 que Joaquim Pinheiro habituou os seguidores a acompanharem-no na hora da refeição, onde além de apresentar o que confeciona, dá o feedback sobre a qualidade. A meio é possível ouvir um “ai que bô”, em sinal de aprovação do seu próprio prato.
Batatas com bacalhau, carne estufada ou uma simples sandes com queijo e chouriço são algumas das especialidades que cozinha na parte de trás da carrinha e apresenta aos seguidores. No final, o camionista, natural de Marco de Canaveses, solta sempre um autoelogio.
Atualmente tem quase 113 mil pessoas a verem os seus vídeos no TikTok e mais 70 mil no Instagram. Os números poderiam inibir qualquer um, mas não Joaquim. O motorista de mercadorias especiais diverte-se a gravar os conteúdos e confessa que ser reconhecido na rua não o intimida.
O camionista abandonou o nosso País há 24 anos, para emigrar para o País Basco, em Espanha, com a família. Trabalhou como motorista de pesados até abrir a sua própria empresa, em que acompanha, com a sua carrinha, transportes especiais. “Quando há cargas de tamanhos fora de normal têm de ser acompanhadas com um carro piloto que segue à frente da mesma para avisar os condutores. Faço normalmente travessias de França a Alemanha”, explica o criador de conteúdos à NiT.
É durante essas viagens, que duram entre dois a três dias, que acaba por gravar muitos dos vídeos. “Durante os almoços acabo por ter algum tempo livre, em que estou sozinho e comecei a trocar o scroll de outros criadores para fazer os meus próprios vídeos. Achei piada e as pessoas também, então continuei. Agora são essas partilhas que me fazem companhia, assim como os comentários e as mensagens que recebo”, revela.
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Quem não concordou no início foi a família. As filhas não aprovavam a exposição do pai no digital e a mulher chateou-se muitas vezes com ele, por medo que fosse ridicularizado. Durante esse período Joaquim, um pouco por teimosia, continuou com as partilhas e não deixou que a vergonha ou o medo de ser gozado falasse mais alto. Passados três anos já sente que deixou as filhas orgulhosas e a mulher até vai aparecendo nos vídeos.
Nas partilhas ora aparece a cozinhar o seu estufado no pequeno fogão que tem na carrinha, ora a comer uma sandes na estação de serviço. O que não muda é a boa disposição com que brinda os seguidores. À NiT confessa que prefere comer sossegado na carrinha, porque não adora a cozinha francesa. “Quando se trata de transportes especiais, nem sempre há estacionamento, por isso paramos em descampados e eu fico sossegado a fazer a minha comida. Depois tem outro lado positivo: a minha comida é melhor”, revela.
Embora não seja fã de outras cozinhas além da portuguesa, admite que é um bom garfo. Está sempre pronto para provar um “bom cozido”, tripas à moda do Porto, ou uma feijoada a transmontana. Como nem sempre encontra, cozinha ele. “A minha carrinha parece uma autocaravana. Tem cama, fogão, microondas e frigorifico. Nunca me deixa mal”, sublinha.
A vida de motorista é desafiante. Joaquim já está habituado a passar dias e até semanas fora de casa. Às vezes quando regressa tem produtos que lhe enviam para provar. Contudo, não é uma prática, comum no mundo dos influencers, que goste.
“Todos os dias recebo mensagens de marcas e lojas a quererem enviar-me produtos e vinhos, mas nem sempre aceito. Não tenho necessidade. Tenho o meu trabalho e compro as minhas coisas”, diz. No entanto, a outra parte deste trabalho, a de ser reconhecido, já gosta mais. Em Portugal tem muitos seguidores, dos 5 aos 60 anos, que gostam das suas partilhas e querem guardar uma recordação quando o veem. “Pedem-me para tirar fotografias e eu aceito, feliz”, remata.








