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Aos 72 anos, esta avó de Sever do Vouga virou estrela do TikTok

Entre danças com as netas e receitas, Maria do Carmo acumulou milhares de seguidores e até o marido já ajuda nos vídeos.

Os avós fazem tudo pelos netos. Levam-nos ao parque, deixam-nos saltar no sofá, preparam os pratos favoritos e oferecem chocolates às escondidas dos pais. Maria do Carmo Henriques não é exceção. Faz tudo pelas netas, até vídeos para as redes sociais, que, e forma absolutamente inesperada, acabaram por torná-la numa estrela digital, com mais de 40 mil seguidores no Instagram e 46 mil no TikTok.

A Avó Carmo, como ficou conhecida online, começou a gravar vídeos com as netas durante a pandemia. Começaram com coreografias, passaram a mostrar o dia a dia na casa dos avós e, pouco a pouco, a reformada de Sever do Vouga viu os vídeos chegar a milhares de pessoas por todo o País.

“Durante um dos confinamentos, três das minhas netas que vivem em Portugal – porque tenho mais dois emigrados – quiseram fazer um TikTok. Os pais não deixavam e elas continuavam a insistir. Acabaram por virar-se para mim. Pediram-me tanto que eu aceitei fazer”, conta Maria do Carmo, de 72 anos, à NiT.

A primeira experiência foi uma dança que, segundo a própria, ficou “escangalhada”. O vídeo ultrapassou um milhão de visualizações e as netas insistiram para continuar. Na altura, a avó só tinha uma página no Facebook e pouca experiência com redes sociais, mas alinhou. Vieram depois os vídeos na horta, entre os animais e as receitas de forno com produtos da época.

“As minhas netas inventaram as coreografias, ensinavam-me e eu dançava. Achavam hilariante. Depois começámos a mostrar as minhas receitas em forno e lenha e os seguidores começaram a surgir e a pedir mais coisas do género.” O crescimento acabou por ser natural.

@avocarmo22

Desenrola, bate e joga de ladinho

♬ –

As receitas que partilha são as mesmas que prepara para os almoços de domingo em família. “Normalmente a minha família vem cá toda comer, tenho a casa cheia e não me chateio muito. Acendo o forno a lenha, meto uma carne na assadeira com batatas, faço arroz e está uma maravilha. O segredo está nos temperos e no facto de ser tudo caseiro”, garante.

Os ingredientes vêm todos da sua horta. Depois da reforma, dedicou-se à agricultura e cuida de porcos, galinhas, coelhos e patos. Planta e colhe batatas, cebolas, tomates, feijão, pepinos, pimentos e abóboras, sempre com total respeito pelos produtos da época. Depois, transforma tudo em pratos tradicionais, doces ou compotas. E gosta cada vez mais de gravar o processo e explicar os passos das receitas.

As receitas aprendeu-as com a mãe e com algumas patroas, quando trabalhava como empregada doméstica. A vida nunca foi fácil. Cresceu num meio rural, antes do 25 de Abril. “Quando saí da escola fui apanhar madeira, depois comecei a trabalhar num café. Mais tarde fui para Aveiro para trabalhar na casa de uma cabeleireira. Limpava, cozinhava e tratava da gestão”, recorda. Voltou mais tarde a Sever do Vouga, onde esteve três décadas a servir à mesa na única pensão da zona, até à reforma.

Quando as netas propuseram gravar vídeos, Maria do Carmo já passava os dias nos seus dois lotes de terra. O marido não achou grande ideia . Tinha receio que os comentários fossem maldosos ou que algo corresse mal, mas acabou por mudar de ideias perante o sucesso evidente. Hoje, toda a família se diverte com o reconhecimento da Avó Carmo.

“As pessoas são muito queridas comigo. Raramente tenho comentários menos positivos. O único comentário negativo veio de uma seguidor que me disse para cortar a cara aos pedaços e fazer uma feijoada. Mandei-lhe beijinhos, porque talvez estivesse a ter um dia mau”, revela.

@avocarmo22

Massa de língua de vinha d’alhos 🍝 #massa #cozinha

♬ som original – Avó Carmo

Os dias são preenchidos com o trabalho no campo. Durante o dia trata dos animais e da horta. Só à noite é que pega no telemóvel, responde aos comentários e vê as novas tendências. As gravações vão sendo encaixadas na rotina. Às vezes é a própria a filmar, mas sempre que possível, delega a tarefa nas netas ou até mesmo no marido, Rogério, que agora colabora com orgulho. A edição fica a cargo da neta mais velha, Feliciana. “Eu gravo e respondo aos comentários. Gosto muito de falar com as pessoas nos meus vídeos”, diz.

Grande parte das receitas vêm da mãe, da avó e de uma tia que teve um restaurante conhecido pelos pratos de forno. Uma das receitas que já partilhou foi uma massa de forno com frango. Ainda assim, admite que o prato “não é para todos os paladares”, isto porque a massa “fica muito cozida”.

Outro conteúdo que gosta de gravar são as visitas à horta, onde mostra com orgulho o que está a crescer por lá. Um dos vídeos mais partilhados foi gravado enquanto andava pelos carreiros de galochas. “Andava a preparar-me para a peregrinação a Fátima e fiz várias caminhadas de galochas à chuva e com nevoeiro e eu comecei a brincar a dizer que precisava de umas sapatilhas. O vídeo chegou a muitas pessoas e muitas disponibilizaram-se a oferecer-me. Eu esclareci que tinha sido uma brincadeira, porque eu gosto de brincar e de passar o meu dia assim”, conta.

E porque o inverno e o final do ano estão já aí à porta, a Avó Carmo está já a pensar nos conteúdos para a época. Isso significa que vai ensinar a fazer o seu famoso bacalhau da Consoada. “Faço sempre bacalhoada para a ceia de Natal. Uso couve caseira, batatas cozidas e, claro, bacalhau”, diz. “Primeiro cozo o bacalhau, porque não precisa de muito tempo e depois na mesma água cozinho o resto. Fica com um gosto maravilhoso”, acrescenta. Para terminar, há leite-creme e aletria, que fazem a família feliz.

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