Gourmet e Vinhos

Bruno Almeida: o baterista que ensina aos americanos as maravilhas do vinho português

Apaixonou-se pela música, mas trocou-a pelo vinho. Aos 44 anos, é sommelier em Nova Iorque e um verdadeiro embaixador nacional.
Quem precisa de uma bateria quando tem um bom vinho?

Viveu a adolescência a dois passos da região vinícola de Lisboa, a ver “pernas peludas de calções a esmagarem uvas” com um olhar de soslaio. Nessa altura, a paixão era outra: o solo de bateria de Peter Cross dos Kiss, ouvido num dos muitos discos do pai, levou-o noutra direção. Trinta anos depois, Bruno Almeida sonha em fazer o caminho inverso, longe das baterias, para perto das vinha que o viram crescer.

Diretor de vinhos e sommelier do restaurante Tocqueville, em Manhattan, Nova Iorque, o português nascido em Lisboa é uma espécie de embaixador oficioso dos vinhos portugueses na cidade e no país.

Começou por baixo, como quase todos começam no país das oportunidades. O título oficial é que haveria de mudar: quando saiu do avião, sonhava ser um músico famoso de baquetas na mão. Acabou por encontrar a felicidade entre as garrafas. E elas lá estavam, empilhadas atrás de si durante a videochamada com a NiT, diretamente de Nova Iorque.

Contudo, é na carta do restaurante que se encontra o seu tesouro, as escolhas que seleciona cuidadosamente e que servem de carta de apresentação do país aos clientes. Explica os nomes, soletra-os com esmero, conta as histórias dos vinhos, por vezes faz roteiros de viagem por Portugal.

“As pessoas não pagam só pelos vinhos, pagam pelo storytelling. Gostam de ouvir isso”, conta à NiT.

Entre a música e as vinhas

Mais alfacinha era impossível — à exceção da paixão rebelde pelo F.C. do Porto. Nasceu no centro de Lisboa e ali viveu até aos 10 anos. Sempre gostou da natureza. Chegava a passar os verões com a família dos senhorios, umas vezes no Norte, outras no Alentejo.

Os pais, que chegaram de Moçambique e de São Tomé e Príncipe, separaram-se e esse momento marcou a despedida de Lisboa rumo aos arredores, já no meio mais rural, a um passo da região de produção de vinhos.

“Comecei a criar um affair com o arinto. Liguei-me mais à natureza. Estive próximo das vinhas, bebia ocasionalmente, vi vindimas, bebi de copos que eram enchidos nos lagares”, recorda, apesar de reconhecer que todo esse mundo demorou a fazer o clique.

Dos pais, trouxe a alma musical. O pai “tinha algo de percussionista”, fã das bandas progressivas dos 60 e 70. A mãe pendia mais para o soul, Aretha Franklin, Janis Joplin. Uma boa educação musical — e um apaixonante solo de bateria — levaram-no às batucadas. Primeiro nas almofadas, depois nos tachos e finalmente numa bateria a sério. A primeira, comprada aos 14 anos.

Não foi para a faculdade. Queria a música e era aí que dedicava todas as forças. Tocou em várias bandas de punk, rock e metal. Em 2001, surge a oportunidade de tentar o sonho nos Estados Unidos, como baterista dos CLIMB.

“Gravámos vária demos para editoras, tocámos muito na zona de Nova Iorque, mas é complicado vingar. Depois de algum tempo as saudades começaram a bater. Não foi fácil”, conta. Dos quatro elementos, dois voltaram para Portugal. Hoje, só ele ficou por lá. A carreira e o sonho de ser um baterista famoso, caiu. A paixão nem por isso, ate porque ainda é um orgulhoso dono de três baterias.

O interesse pelos vinhos surgiu de forma natural, em quem lida com eles todos os dias. A curiosidade levou-o à leitura, a tentar compreender os segredos dos vinhos. E a provar muitos, mesmo muitos vinhos.

“Aconteceu tudo naturalmente. Trabalhava num restaurante italiano e por isso comecei naturalmente pelos vinhos italianos. Tornei-me sommelier em 2008. Ao entender a dificuldade inerente aos vinhos italianos, consegui facilmente perceber os portugueses. Já me estava no sangue”, explica.

Seguiram-se os vinhos franceses e, finalmente, a paixão pelos portugueses. Decidiu formar-se no Court of Master Sommeliers of America e oficializar aquilo que já era oficioso: Bruno era um expert.

Um self-made sommelier

A vida de um artista com tudo por provar era mesmo assim: bateria à noite, um trabalho como os outros durante o dia. Bruno Almeida começou a lavar pratos, sempre em restaurantes ibéricos, até pela ligação da língua.

Ao fim de dois ou três meses passava a assistente dos empregados de mesa, depois como bartender e finalmente como captain, o empregado principal da sala, ao fim de um ano de trabalho.

A formação permitiu-lhe passar a outros patamares de exigência. Mas não foi o único fator a ajudar a ascensão.

“Nos últimos anos houve uma abertura na restauração, há uma maior diversidade, querem pessoas no staff com cores e backgrounds diferentes ou até ter mulheres como sommelier, algo que há dez anos não acontecia. Isso mudou. Vêem-se sommeliers de fato e gravata, mas como eu, com tatuagens. Tenho rastas, tenho barba. Isso em 2000 não era bem aceite, hoje é diferente”, nota, apesar de revelar que o seu look mais alternativo foi por vezes um entrave. “Mesmo em Nova Iorque”, sublinha.

O vinho português na América

As cartas estavam cheias de referências italianas, com o ocasional espaço para um champanhe francês. Nos franceses, acontecia o oposto. Bruno Almeida reparou que não era fácil encontrar abertura para explorar os vinhos portugueses. Fartou-se.

“Comecei a notar que alguns restaurantes de topo nem um vinho do Porto ou Madeira tinha. Bateu-me um bocado e percebi que as pessoas não sabiam assim tanto sobre os nossos vinhos. Por exemplo, tinham a perceção de que o vinho verde tinha que ter bolhinhas, que era para beber na piscina. Tinham ideias muito erradas do Porto e da sua diversidade. Picou-me um bocado e soube que tinha que fazer alguma coisa”, recorda.

Ele quer mostrar os vinhos nacionais aos americanos

Quando há três anos chegou ao Tocqueville — restaurante que existe já há mais de 20 anos e que reabriu agora as portas depois da crise pandémica —, deram-lhe liberdade para apostar nos vinhos portugueses. E aproveitou a oportunidade. O ponto de partida? Os vinhos verdes.

“São imperiais no sentido da acidez, que permite uma harmonização com várias culinárias, da americana à indiana, com sushi, tacos”, refere. Apresentou-os aos amigos, colocou-os nas cartas de vinhos. Tinha-os experimentado pela primeira vez antes mesmo do Tocqueville, num restaurante de comida do médio oriente.

No lugar de um chardonnay, colocou um encruzado. Demitiu um sauvignon blanc e promoveu ao seu lugar um loureiro. “As pessoas aceitaram bem e é mais fácil ter uma pessoa portuguesa lá, que consegue explicar tudo e soletrar alvarinho. Nem toda a gente consegue (risos).”

Na carta do restaurante nova-iorquino moram agora pelo menos 15 tintos e 10 brancos. Fora do Tocqueville, Bruno Almeida participa em diversos eventos relacionados com o vinho, mais até numa vertente educativa. Algo que faz muito com os seus clientes.

“Há cada vez mais americanos a quererem ir a Portugal, que é relativamente prto. Daqui à Califórnia podemos demorar perto de seis horas. O mesmo que daqui a Lisboa. E eu digo a toda a gente que vai para aí: vão estar a aterrar em Lisboa e já estão a ver vinhas”, conta.

Dos clientes ouve cada vez mais vozes a expressarem desejos de investirem em Portugal. Alguns até dizem querer comprar casa e reformar-se no País. “Faço muitos roteiros com sítios a visitar”, diz.

Com o sonho da música arrumado de vez, Bruno confessa que a nova meta pode até não envolver sequer restaurantes. Quer ajudar os outros a educarem-se sobre vinhos, mas não só. Apesar de estar bem ajustado em Nova Iorque, onde se casou e tem um filho, confessa que um regresso às raízes está nos planos.

“Sempre que vou a Portugal vou acompanhado, mas queria ir às raízes, sozinho. Explorar a região onde nasci. Cada vez mostro mais vinhos de Lisboa, zona de vinhos seculares, alguns dos melhores que o País fez no século passado. Estive ali, vivi aquilo de perto, passei aqueles anos todos no meio da vinha e nunca se fez o clique”, confessa.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT