Há pouco mais de um ano, o chef Carlos Afonso era conhecido sobretudo por quem acompanha a gastronomia portuguesa. Hoje, basta abrir o Instagram para perceber que a realidade mudou. As receitas rápidas, explicadas de forma simples e sem grandes complicações, fizeram disparar a popularidade do chef alentejano. Em poucos meses passou dos cerca de 37 mil para mais de 102 mil seguidores, conquistando um público muito mais vasto do que aquele que o conhecia da televisão ou dos restaurantes.
Apesar do sucesso nas redes sociais, Carlos Afonso garante que nada disto aconteceu por acaso. Aos 40 anos, olha para este momento como mais uma etapa de um percurso que começou muito longe dos estúdios onde hoje grava vídeos. Antes das câmaras, dos programas de televisão e das parcerias com marcas, houve uma infância passada em Beja, muitas horas à mesa com a família e uma paixão pela cozinha que nasceu sem que ninguém a tivesse planeado.
“Na minha família sempre existiu esta cultura de nos juntarmos à volta da mesa. Ainda hoje acontece. Basta estar bom tempo e combinamos um petisco. O meu tio leva o vinho da talha, cada um faz um prato e, através de uma mensagem no WhatsApp, organizamos tudo. Foi nesse ambiente de convívio que nasceu o meu amor pela gastronomia”, conta à NiT.
Essas memórias não se resumem às refeições. Na infância, acompanhava o pai em dias inteiros de pesca no rio e nas barragens alentejanas. A pesca acabava quase sempre à mesa, onde o peixe era preparado pela família. “Sempre pesquei muito com o meu pai. Havia o prazer de pescar, mas também o de cozinhar e partilhar aquilo que apanhávamos. Era tudo muito natural.”

Foi também nessa altura que começou a perceber que a gastronomia faz parte da identidade portuguesa. “Temos um país pequeno, mas com uma riqueza gastronómica enorme. Só no Alentejo encontramos milhares de receitas diferentes. São pratos muito honestos, muitos deles com centenas de anos, que contam a nossa história”, diz.
Embora hoje seja conhecido como chef, o percurso começou por outro caminho. Aos 16 anos saiu de Beja para Lisboa e concluiu um curso profissional de Comunicação e Marketing. Durante esse período trabalhou em bares, discotecas, balcões e restaurantes para ganhar experiência e pagar as despesas. Ainda chegou a iniciar um curso de Turismo, mas rapidamente percebeu que o que realmente o entusiasmava era a cozinha.
“Procurei na Internet um curso de cozinha e encontrei Gestão e Produção de Cozinha, em Portalegre. Pareceu quase um sinal. As inscrições fechavam no dia seguinte, fui chamado para uma entrevista e consegui entrar. A partir daí nunca mais parei.”
A formação abriu-lhe as portas da hotelaria profissional e, pouco depois, começou a trabalhar em cozinhas de referência. Primeiro passou pelo Marmòris, em Vila Viçosa, seguindo depois para a Bica do Sapato, em Lisboa. Mas queria aprender ao mais alto nível e decidiu procurar experiências fora de Portugal. Trabalhou na Bélgica, na Holanda e no País Basco, onde teve contacto com cozinhas distinguidas pelo Guia Michelin, antes de regressar ao País para integrar a equipa do Ocean, no Vila Vita Parc, no Algarve, um dos restaurantes mais prestigiados da gastronomia nacional.
“Queria aprender com os melhores. Passei por restaurantes completamente diferentes e isso deu-me uma visão muito mais ampla da profissão. Foi uma fase de enorme crescimento.”
Depois da experiência no Ocean assumiu novas responsabilidades no restaurante Avenida, em Lagos, antes de regressar às origens. Em 2019 abriu, juntamente com o primo Sérgio Frade, o restaurante O Frade, em Belém. O conceito recuperava muitas das receitas tradicionais alentejanas com que ambos cresceram.
“O Frade foi um projeto muito especial porque nasceu da nossa história. Criámos tudo de raiz, desde o conceito ao branding, sempre com a preocupação de preservar uma cozinha muito portuguesa”. O sucesso levou-o a dar um novo passo. Em 2022 inaugurou o restaurante Oitto, em Lisboa, no Chiado, um projeto onde teve liberdade para desenvolver uma identidade própria.
No entanto, ao fim de dois anos percebeu que a vida já não cabia dentro de um restaurante. “Nessa altura já estava a fazer televisão, consultoria e outros projetos. Percebi que não conseguia estar a cem por cento em tudo e decidi vender o restaurante. Foi uma decisão difícil, mas fazia sentido”, recorda.
Ao mesmo tempo, também a vida pessoal mudou. Em outubro de 2022 nasceu a filha, Benedita, fruto da relação com a apresentadora da TVI, Alice Alves. O casal terminou a relação em 2025, mas a filha continua a ocupar um lugar central no seu dia a dia. “Gosto muito de a levar aos mercados para perceber de onde vêm os alimentos. Acho importante que as crianças criem essa ligação aos produtos e à nossa gastronomia.”
Depois de quase duas décadas sempre dentro de cozinhas profissionais, Carlos Afonso decidiu fazer uma pausa inédita. “Percebi que existiam muitas oportunidades na gastronomia para lá da restauração tradicional. Estava há cerca de 15 anos sem tirar férias e precisava de pensar no próximo passo.”
Foi durante esse período que começou a construir aquela que viria a tornar-se a sua maior aposta: a marca pessoal. Não queria deixar de cozinhar, mas procurava uma forma diferente de chegar às pessoas, mantendo a gastronomia no centro da sua vida. A resposta acabaria por surgir poucos meses depois, através das redes sociais.
Das cozinhas Michelin aos vídeos que conquistaram o Instagram
Foi precisamente nessa altura que começou a olhar para as redes sociais de outra forma. Até então, já publicava alguns conteúdos e tinha uma comunidade com cerca de 37 mil seguidores, muito graças ao percurso que construiu na restauração e às várias participações em televisão. No entanto, sentia que ainda não tinha encontrado um formato que mostrasse verdadeiramente aquilo que queria transmitir.
A resposta surgiu no final de 2025. Em vez de apostar apenas em fotografias de pratos ou bastidores das cozinhas, decidiu criar vídeos onde explicava receitas passo a passo, de forma simples e acessível. Investiu num estúdio próprio, estudou as plataformas e começou praticamente do zero.
“Tentei transportar para as redes sociais aquilo que fazia na televisão. Muitas pessoas viam uma receita, mas depois já não conseguiam apontar os ingredientes ou o modo de preparação. Pensei que fazia sentido criar um espaço onde essas receitas ficassem disponíveis e onde qualquer pessoa pudesse voltar a consultá-las.”
O crescimento acabou por surpreendê-lo. Em poucos meses ultrapassou a barreira dos 100 mil seguidores no Instagram e soma atualmente mais de 102 mil. Mas garante que o resultado não apareceu por acaso.
“Foram muitas noites sem dormir a estudar as redes sociais, a perceber como devia comunicar e a aprender como funcionavam o Instagram, o Facebook e o TikTok. Tive uma equipa de marketing a ajudar-me, mas houve muito trabalho por trás.”
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Mais do que ensinar receitas, acredita que encontrou uma forma de aproximar uma geração que, muitas vezes, cresceu sem cozinhar. “Hoje pede-se muita comida através das aplicações. Eu queria mostrar que cozinhar não tem de ser complicado. Basta começar. Recebo muitas mensagens de pessoas que nunca tinham feito um bacalhau com natas ou uma açorda e que agora perderam o medo.”
A missão vai muito além das receitas. Carlos Afonso quer incentivar as pessoas a voltarem aos mercados tradicionais, a conhecerem os produtos e a criarem memórias à volta da mesa, tal como aconteceu na sua infância. “A cozinha precisa de treino, mas também de convivência. Há momentos que ficam para sempre na memória e muitos deles acontecem enquanto estamos a cozinhar para a família ou para os amigos. Gostava que mais pessoas voltassem a viver isso.”
Ao mesmo tempo, continua ligado à televisão. Depois de apresentar duas temporadas do programa “Chef de Serviço”, no 24Kitchen, e de integrar outros formatos dedicados à gastronomia, considera que as câmaras lhe deram ferramentas importantes para comunicar com um público muito mais vasto.
O crescimento da marca pessoal também despertou o interesse de várias empresas. Atualmente mantém uma parceria com o Continente, onde assume o papel de chef de referência na área do peixe e marisco. “Trabalho com eles para valorizar o produto e mostrar às pessoas como podem tirar o melhor partido de ingredientes que encontram facilmente.”
Nas redes sociais, os elogios à comida misturam-se com comentários sobre a aparência física. Alto, atlético e bronzeado pelas horas passadas no mar, tornou-se presença habitual nas listas dos chefs mais mediáticos do País. Ainda assim, faz questão de separar completamente essa imagem do seu trabalho.
“Nunca quis que me vissem como um sex symbol. Sou cozinheiro e é assim que quero ser reconhecido. Claro que gosto de cuidar de mim, treino há muitos anos, faço desporto e passo muito tempo no mar, mas isso faz parte do meu estilo de vida, não da minha profissão.”
Carlos acredita que, se deixasse que essa imagem ganhasse demasiado peso, poderia desvalorizar quase duas décadas de trabalho. “Seria muito fácil dizerem que as coisas me acontecem por causa da aparência. Mas a minha carreira foi construída com muito esforço, muitos riscos e muitas horas de trabalho. Nunca quis que uma coisa se confundisse com a outra”, reforça.
Quando não está na cozinha ou a gravar conteúdos, é no mar que encontra o equilíbrio. Continua a fazer surf sempre que as condições permitem, pratica pesca e caça submarina e assume que dificilmente conseguiria viver longe da água. “Não sou nenhum surfista extraordinário, mas adoro estar no mar. Sempre que tenho oportunidade vou surfar ou pescar. Faz parte de mim desde criança”.
Apesar de hoje trabalhar sobretudo na consultoria, televisão e criação de conteúdos, garante que nunca deixou de pensar em abrir outro restaurante. Mas, desta vez, imagina um projeto muito diferente.
“Gostava de encontrar uma tasca antiga, daquelas em que os proprietários estão prestes a reformar-se. Um espaço pequeno, com cerca de 30 ou 35 lugares, que mantivesse a identidade portuguesa. Queria preservar essa alma, melhorar apenas as técnicas de cozinha e continuar a servir comida muito genuína.”
A ideia faz lembrar o espírito que deu origem ao Frade e admite que anda à procura do parceiro e do espaço certos para concretizar esse sonho.
Ao mesmo tempo, acompanha com preocupação o momento que a restauração atravessa. Considera que o setor vive um crescimento difícil de sustentar e acredita que a falta de profissionais será um dos maiores desafios dos próximos anos.
“Abriram muitos restaurantes, mas não existem trabalhadores suficientes para todos. O mercado vai acabar por se ajustar, mas neste momento há uma grande dificuldade em encontrar pessoas para trabalhar”, diz.
Antes disso, porém, há outro projeto prestes a chegar às livrarias. Até setembro deverá lançar o primeiro livro, uma obra que mistura receitas, histórias pessoais e uma homenagem às raízes alentejanas. “Tem uma componente autobiográfica muito forte. É uma forma de homenagear a minha família, o Alentejo e todas as receitas que marcaram o meu percurso.”
O objetivo mantém-se exatamente o mesmo de quando começou a publicar vídeos nas redes sociais: fazer com que mais portugueses voltem a cozinhar. “Se conseguir que uma pessoa deixe de encomendar jantar uma vez por semana para cozinhar em casa com a família, já sinto que valeu a pena.”
Para acompanhar o trabalho do chef pode visitar a sua página de Instagram.
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