Gourmet e Vinhos

Ele cria “vinhos do outro mundo” que se vendem a 500€ por copo — e um deles é português

A coleção Wines From Another World foi criada pelo wine advisor para exaltar "o melhor que se faz em Portugal".
Cláudio tem 46 anos.

Chamam-lhe “vinhos do outro mundo” e um deles é vendido nos restaurantes de Gordon Ramsay por 500€. Não a garrafa, mas o simples copo desta referência feita no Alentejo. Por detrás destes vinhos está Cláudio Martins.

Nascido em São Romão, na Serra da Estrela, decidiu mudar-se para Londres aos 19 anos. Determinado a não continuar com os estudos, mudou-se para a casa dos tios, na cidade inglesa, para “ganhar o seu próprio dinheiro” e “sair das saias da mãe”. O primeiro emprego foi a lavar copos num restaurante. Mas o mundo do vinho não tardou a aparecer na sua vida.

“O espaço tinha uma carta de vinhos impressionante. Embora eu viesse de uma região privilegiada no que toca a esta bebida [Dão], nunca tinha tido um contacto tão direto. Ali havia rótulos de todo o mundo e que éramos quase obrigados a provar”, conta à NiT.

Entre as formações, visitas, provas e explicações dos produtores e sommeliers, o português ficava cada vez mais rendido. “Acabou por ser uma injeção boa e que me levou para este mundo dos bons vinhos”, adianta. A dada altura deixou a copa e passou a servir à mesa, para logo a seguir ser colocado atrás do bar, de onde mais tarde saltou para integrar a equipa de escansões. Na mesma empresa acabou por tornar-se wine ambassador e participava em diversos eventos luxuosos ligados ao mundo do vinho.

Em 2012 foi convidado para abrir a loja e bar Mistress Wine Shop, no distrito financeiro de Londres, e conheceu “muitas pessoas com capacidade económica acima da média”. “Ao fim de semana pediam-me para arranjar diferentes referências e conselhos”, conta. E passado vários meses percebeu que podia fazer o mesmo trabalho sem estar ligado a uma loja.

Em 2014 surgiu então a Martins Wine Advice, uma consultora de vinhos de luxo. “A ideia era ajudar os clientes a criar uma garrafeira privada e a ter as referências certas nos iates e jatos privados.”

Contactos e vinhos certos fizeram com que a escalada de Cláudio Martins se desse de forma muito natural. Era convidado para simpósios de luxo no mundo do vinho, eventos restritos e provas privadas. E foi num desses palcos, num hotel do Lago di Como que se confrontou com uma realidade que o deixou intrigado. De tantos rótulos expostos, não havia uma referência de mesa portuguesa. “Volta e meia apareciam os licorosos da Madeira e do Porto. Mas era só isso. E começou a fazer-me confusão como é que com tão bons vinhos não fazíamos parte deste círculo”, recorda.

Já em 2016 mudou-se para Zurique, onde continuou a ajudar clientes premium e em 2017 emigrou para Moscovo, onde viveu 11 meses. Com saudades da qualidade de vida, decidiu voltar para Portugal. “Cá posso estar perto da família, ver a minha filha e sobrinhos a crescerem”, justifica. Mas não esquece Londres: “será sempre a minha segunda casa e considero-a ainda a meca dos vinhos”.

Os vinhos de outro mundo

O regresso fez com que surgisse o momento ideal para criar a “Wines From Another World”, uma série de rótulos “de outro mundo” e com valores astronómicos. Começou em 2021 e em português com o alentejano Júpiter, produzido na Herdade do Rocim. O vinho é vendido nos restaurantes do chef Gordon Ramsay a 500€ o copo. Mas as poucas garrafas que existem podem valer acima de 1.500€. No ano seguinte foi para Espanha para lançar Uranus, da Terroir al Limit de Priorat e em 2023 voltou a Portugal para o lançamento do Saturn, em parceria com o alemão Ernest “Erni” Loosen, de Vale do Mosel.

O objetivo agora é completar o Sistema Solar e embora afirme que não pode adiantar muito mais, revela à NiT que haverá neste lote mais um representante português: “O último será uma homenagem e será entre um dos fortificados, Porto, Madeira, Moscatel ou Carcavelos. Os restantes de outras regiões como Toscana, Geórgia, Estados Unidos, Champanhe e Bordéus”. O próximo está previsto ser lançado no final deste ano, mas o vinho, o produtor e as garrafas estão escolhidas e a “estagiar”.

Os valores de cada garrafa — que podem chegar aos 28 mil euros — deixam colegas de profissão e muitos clientes indignados. Mas Cláudio Martins não tem dúvidas que é o preço justo. “Quando não existem oportunidades temos de as criar. Neste caso foi posicionar um produto tão nobre como o vinho. Os nossos vinhos têm muita qualidade e nunca tinham sido vistos como uma categoria mais luxuosa, exceto algumas mais pontuais. Se o cliente não tiver problema em pagar quatro dígitos por uma garrafa, porque não aproveitar? Acredito que o País precisava desta categoria”, refere.

O wine advisor e produtor admite ainda que não quer “aumentar o preço dos vinhos”, mas sim criar uma “nova categoria de alta qualidade”. E essa é a palavra que usa para descrever os primeiros rótulos da coleção “de outro mundo” e que parecem agradar aos clientes.

Sobre a forma como o Júpiter chegou ao restaurante do chef britânico, Cláudio Martins não se alonga, mas revela que durante os 20 anos que viveu em Londres conheceu muitas pessoas do meio. “É muito importante ter os vinhos disponíveis nos restaurantes do Gordon Ramsey e de outros, claro. Ao 1890, o espaço do chef, o rótulo chegou pelas mãos de Emanuel Pesqueira, um português que reside em Londres há muitos anos e diretor do grupo de vinhos do cozinheiro. E não é o único espaço a fazê-lo. Há outros restaurantes em vários pontos do mundo, escolhidos a dedo, que vendem os From Another World aos preços que merecem.”

Os projetos de Cláudio no mundo dos vinhos vai além da parte comercial. O wine advisor criou há dois anos, em parceria com o engenheiro Bento Amaral, o projeto Humanwinety, destinado a formar e a ajudar pessoas com deficiência a integrarem-se neste mercado. “Têm formações através de vários módulos, nas várias áreas das indústrias e depois encaminhá-las para os locais certos para trabalhar”, refere.

Como um homem do mundo dos vinhos seria natural que tivesse um preferido, mas Cláudio Martins confessa que cada vez mais “daquele que se bebe no momento certo”. Mas admite que é mais fã de vinhos brancos. “Com carne, peixe, numa conversa, ou com música. Tem sido sempre a minha opção.”

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