Gourmet e Vinhos

O burlão dos vinhos que enganou a elite de Nova Iorque — e fugiu com 8 milhões

Omar Khan ludibriou dezenas de CEO de algumas das maiores empresas americanas, que convenceu com faustosos jantares regados com vinhos raros.
Novo lançamento está programado para último trimestre deste ano

Quão digno é certo convidado de um determinado vinho? Todos os amantes de convívios bem regados e com uma garrafeira pessoal construída com dedicação já foram assolados por esta dúvida. Qualquer colecionador, por mais modesto que seja, tem rótulos que considera especiais. Abrir uma dessas garrafas e perceber que mais ninguém aprecia o vinho que acabou de servir pode ser um choque.

A situação inversa, porém, é ainda mais frustrante — ser convidado para um jantar com a promessa de provar um espécime raro e o tão aguardado repasto é adiado eternamente. Pior: pagar uma bela maquia para reservar um lugar com a devida antecedência e nunca mais ver a cor do dinheiro. Foi o que aconteceu a vários clientes (muito) afortunados de Omar Khan.

O autodenominado “consultor de vinhos” de origem paquistanesa foi acusado de fraude em 2019. No total, ter-se-á apropriado de 8,2 milhões de euros. Há quem diga que montou um esquema Ponzi, ao estilo do malogrado Bernie Madoff, com quem tinha algo em comum: a passagem por Wall Street.

Khan tinha por hábito angariar clientela no setor financeiro, para quem organizava jantares com chefs de renome e vinhos vintage raros. A lista dos 13 lesados que avançaram com uma ação judicial inclui nomes sonantes da alta finança nova-iorquina como Krešimir Penavić, do fundo de capital de risco Renaissance Capital; Robert Van Brugge, CEO e presidente da Sanford C. Bernstein; Peter Slagowitz, CEO da Spurs Capital; Lorine Schaefer, vice-presidente do Morgan Stanley ou Robert Gelfond, diretor do Cato Institute, um think tank conservador.

O empreendedor caído em desgraça fundou a International Business & Wine Society em 2013 com o intuito de promover eventos com “bons vinhos, escassos em jantares de negócios e boas conversas, raras em degustações”.

A adesão custava 4.500 euros por ano e o modelo de negócio não era propriamente complexo, aliás, era tão simples que parecia não ter qualquer segredo. Khan pedia adiantamentos aos membros do clube para desencadear o processo de organização dos jantares, que depois seriam abatidos ao valor final a pagar. Os primeiros encontros correram tão bem que depressa ganharam a reputação de serem “as degustações mais extraordinárias de Nova Iorque”.

Com a “máquina em andamento”, Khan só precisava continuar a alimentá-la angariando novos associados. Se no início terá apenas embolsado uma parcela dos adiantamentos, a dado momento passou a embolsá-los na totalidade — adiando continuamente os prometidos jantares.

A pergunta que todos se colocavam na altura valia um milhão de dólares (e neste caso até mais): como conseguia Khan aceder a alguns dos vinhos mais exclusivos do mundo? Penavić, um dos principais lesados — perdeu uns impressionantes 4,6 milhões de euros —, continua sem conseguir responder de forma taxativa.

Milionário e enófilo assumido, admite não fazer contas sempre que tem oportunidade de provar uma colheita especial. “Para mim, o vinho é o produto mais fascinante que obtemos da natureza”, revelou à “New York Magazine”. “Extrair algo assim de uma fruta é um processo lindo.”

O sérvio, radicado nos EUA desde 1990, conheceu Kahn em fevereiro de 2015. A noite continua bem gravada na sua memória. Foram servidas quatro garrafas raras do Domaine de la Romanée-Conti, “com um património genético incomparável cuja delicadeza e diversidade determinam a pureza, leveza e precisão dos vinhos produzidos”, lê-se no site da empresa vinícola da região francesa da Borgonha.

O tinto Romanée-Conti de 1945, considerado o mais caro do mundo, foi produzido na propriedade situada na região francesa da Borgonha. Num leilão realizado na Suíça, em dezembro de 2023, uma única garrafa foi vendida por meio milhão de euros. O valor é justificado não apenas pela longevidade do vinho, mas também pela quantidade limitada produzida no ano em terminou a Segunda Guerra Mundial.

vinho Romanée-Conti
Alguns dos vinhos Romanée-Conti abertos numa das degustações.

Penavić concluiu que a presença de Kahn no evento significava que conhecia os meandros daquele mundo, onde um lugar à mesa facilmente custava mais de 20 mil euros. Um ano depois, quando o consultor lhe sugeriu que investisse na sociedade que havia criado, o antigo estudante de matemática não hesitou.

O negócio parecia promissor. Organizar um jantar custava, em média, 95 mil euros. Era preciso reservar uma sala privada num restaurante de fine dining, comprar entre seis a dez garrafas raras, contratar um chef e um sommelier. Se Penavić lhe adiantasse 55 mil, Khan entraria com o resto e o lucro obtido seria dividido a meio. O sérvio entrou no esquema, mas o primeiro jantar onde investiu, que seria em Nova Iorque, nunca aconteceu.

Após este primeiro pedido, Khan voltou à carga: precisava de mais 120 mil para avançar com encontros em Londres e noutra cidade “algures no mundo”. Estranhamente, Penavić acedeu. O desejo de ter mais experiências inesquecíveis como as que o paquistanês já lhe havia proporcionado sobrepôs-se aos conselhos dos seus banqueiros privados, que o aconselharam a não investir.

Num dos inúmeros eventos em que participou antes de ter sido “convidado” a entrar no esquema, Khan apresentou-o a Pierre Lurton, famoso gestor das propriedades da LVMH — conglomerado especializado em marcas de luxo e detentor de insígnias como a Louis Vuitton e a Christian Dior, entre muitas outras. O encontro deu-se em Bordéus e, no seu vasto portefólio, Lurton tinha outros ícones do vinho como o Château d’Yquem e o Cheval Blanc.

O francês acabou por convidar ambos a irem conhecer as duas quintas. As visitas aconteceram meses depois, sempre organizadas por Khan. Durante a estadia na região francesa, o consultor sugeriu fazerem também uma passagem por Pomerol, à propriedade onde é produzido o célebre (e caro) Château Petrus, outros dos tintos mais exclusivos do mundo, como já lhe contámos neste artigo.

Petrus
Khan gostava de partilhar as garrafas das provas nas redes sociais.

Como tinha o paquistanês atualmente com 57 anos, conseguido aceder a uma das casas vitivinícolas mais discretas de sempre era um agradável mistério para Penavić. Teve oportunidade de conhecer o gestor, Olivier Berrouet, e conhecer o próprio enólogo do Petrus. “Estava ansioso. Aquelas pessoas não recebem, não fazem degustações”, explicou o sérvio à “New York Magazine”, ainda incrédulo, volvida quase uma década. Continua sem fazer a mínima ideia de como Kahn — originalmente sem qualquer ligação ao mundo dos vinhos — conseguiu estabelecer tais contactos.

Talvez tivesse recorrido à arte de bem-falar e persuadir que aprendeu a dominar era ainda estudante em Oxford. Filho de um diplomata paquistanês, Najmul Saqib Khan, Omar sempre frequentou os círculos das elites. Quando estudava na universidade no Reino Unido, tornou-se uma celebridade no campus.

Gostava de convidar os colegas para almoços em restaurantes das redondezas, onde fazia longas exposições sobre várias matérias, intermeadas com manifestações de desapreço dos professores. Muitos acreditavam que era um aluno excelente. Na realidade, era tudo menos isso. O ranking das notas indicava que tinha sido o pior aluno da turma — um choque para quem havia de perto com Khan.

O currículo académico medíocre não o impediu de prosseguir os estudos nos EUA. Os registos indicam que se matriculou na prestigiada faculdade de direito de Stanford. Nninguém sabe se chegou a frequentar (ou a concluir) o curso.

Em 1993 entra no mundo dos negócios, numa nova geografia. Fundou a Training 2000 em Karachi, no Paquistão, com dois sócios. A empresa fornecia serviços de coaching e programação neurolinguística (que combina técnicas de comunicação e desenvolvimento pessoal para alterar comportamentos) — e talvez tenha sido a partir desta altura que passou a usar as suas capacidades de persuasão para fazer dinheiro. E, ao que parece, precisava de muito para manter o seu estilo de vida extravagante, que incluía um motorista privado, muitas viagens e, claro, vinhos caros.

A história de vida de Kahn apresenta vários períodos “desconhecidos”. A linha do tempo cheia de saltos inclui o casamento (sem data exata) com a texana Leslie e a mudança definitiva de ambos para Nova Iorque, algures na década de 2010. Sabe-se que criou outra empresa de serviços de programação neurolinguística, a Sensei International, e tornou-se frequentador assíduo das degustações de vinhos.

Quando entrou nos circuitos enófilos mais restritos da cidade — graças aos contactos do pai, que morreu em 2012 —, voltou à estratégia que tinha usado com sucesso em Oxford. Começou a fazer convites para o acompanharem a vários eventos e promovia degustações gratuitas de garrafas raras que alguns se questionavam como teria conseguido comprar.

Estabeleceu uma reputação de bon vivant com mãos largas e daí à criação do tal clube de milionários foi um pequeno passo. Quando caiu em si e percebeu que havia sido vítima de fraude, ainda em 2019, Penavić contratou Rob Seiden — antigo procurador de Nova Iorque conhecido como “caçador de recompensas de Wall Street” — para investigar Kahn.

Omar Khan
Omar Khan (à esquerda) com o chef Travis Sowards.

Seiden conseguiu recolher provas suficientes para sustentar uma ação judicial contra o consultor de vinhos e a mulher, Leslie, que depois forneceu ao FBI. Quando a justiça federal norte-americana procurou Khan com uma ordem de detenção, em fevereiro de 2020, já havia fugido para o Sri Lanka.

Estávamos em plena pandemia de Covid-19, mas isso não impediu o Departamento de Justiça de avançar com o pedido de extradição. Contudo, Khan só foi deportado há um mês, em fevereiro de 2024, dois anos depois da solicitação e porque o visto com que havia entrado no país tinha acabado de expirar.

Quando aterrou nos EUA foi detido, mas declarou-se imediatamente inocente das acusações de fraude e roubo de identidade. A primeira audiência no tribunal aconteceu no início de março, onde Kahn foi acusado de ter lesado uma dúzia de vítimas em 8,2 milhões de euros.

A próxima audição, onde será estabelecida a fiança, está marcada para o início de abril. Até lá, Khan irá permanecer detido num centro de reabilitação e enfermagem em Queens, devido “às lesões que sofreu quando estava detido injustamente no Sri Lanka, em condições perigosas e insalubres”, argumentou o seu advogado.

Penavić e os outros nomes sonantes de Wall Street que avançaram com a queixa não foram as únicas vítimas de Khan. Em 2022, o tribunal cível que fez uma primeira avaliação do caso condenou o antigo consultor de vinhos a pagar várias dívidas que contraiu junto de proprietários de hotéis e produtores de vinhos nos EUA, em França ou na Suíça. Até hoje, Khan nunca pagou um tostão.  

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