Nasceu em Lisboa, mas sempre viveu em Bucelas. Cresceu entre vinhas, almoços de família e conversas sobre agricultura. Durante anos, viu o avô tratar a vinha com um cuidado que admirava, até que decidiu pegar naquele legado e transformá-lo num projeto próprio. Hoje, aos 35 anos, Tiago Candeias é o rosto da MICASTA, uma marca de vinhos que mistura tradição familiar e uma imagem muito mais irreverente do que aquilo a que o vinho português habituou os consumidores.
“O vinho nasceu à mesa da nossa casa”, lê-se na apresentação da marca. E essa frase resume praticamente toda a essência do projeto. Tiago estudou marketing e publicidade, mas acabou por aproximar-se cada vez mais da terra e das vinhas da família em Bucelas. “Sou filho do Arinto”, diz à NiT. “Cresci a ver vindimas, tratores, conversas sobre vinho e agricultura. Isto sempre fez parte da minha vida.” A ligação à região acabou por falar mais alto do que qualquer carreira tradicional na área da comunicação.
Durante muito tempo, a vinha do avô Manuel Marecos, de 82 anos, era apenas um espaço familiar. O bisavô tinha sido agricultor, o avô plantou as vinhas há quase cinco décadas e Tiago acabou por continuar esse percurso. Foi precisamente Manuel Marecos quem o incentivou a criar algo próprio.
“Ele sempre me disse para construir uma coisa minha e não ter medo de arriscar”, recorda. “O meu avô trabalhou muitos anos na TAP antes de se dedicar mais à agricultura, mas nunca perdeu a ligação à terra.”
Há cerca de três anos, Tiago decidiu plantar a sua primeira vinha. Entretanto, já avançou com mais duas novas plantações e começou a aprofundar conhecimentos sobre viticultura regenerativa, sustentabilidade e boas práticas agrícolas. “Só quis avançar quando tive a certeza de que conseguíamos trabalhar a vinha de uma forma sustentável”, explica. “Não queria fazer vinho só por fazer. Queria perceber realmente o impacto daquilo que estávamos a criar.
A MICASTA começou a comercializar vinhos em 2024. Os primeiros lotes nasceram graças às uvas das vinhas do avô, plantadas há 47 anos, enquanto as plantações mais recentes amadureciam. A marca surgiu através da VINYART, empresa criada por Tiago e que tenta aproximar vinho, arte e convívio. “É vinho e arte porque é a arte de saber viver”, refere a apresentação oficial da marca.

A identidade visual também foge bastante ao lado conservador associado ao vinho português. Os rótulos parecem quase ilustrações caóticas cheias de referências culturais, figuras históricas, amigos e familiares.
William Shakespeare, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, o Marquês de Pombal, Lord Byron ou o Duque de Wellington aparecem misturados no mesmo desenho. Tudo porque Tiago quis transformar cada garrafa numa espécie de homenagem à história de Bucelas e às pessoas que marcaram o seu percurso.
“O rótulo é quase a nossa Capela Sistina”, brinca. “Queríamos que as pessoas pegassem na garrafa e descobrissem detalhes novos sempre que olhassem para ela.”
A ligação histórica à região também faz parte do discurso da marca. Shakespeare mencionou os vinhos de Bucelas na sua obra “Henrique VI” e o Duque de Wellington chegou a levar garrafas para Inglaterra durante as invasões francesas, depois de ter vivido na localidade durante esse período.
Mas no centro do projeto continua sempre o Arinto — a grande casta de Bucelas. A região, aliás, é uma das poucas do mundo demarcadas exclusivamente para vinhos brancos e espumantes. “A capital do Arinto” é como Tiago descreve Bucelas. “Muita gente fora de Portugal ainda não percebe o potencial enorme que existe aqui.” E a verdade é que praticamente todos os vinhos da MICASTA giram à volta dessa casta.
Atualmente, a marca tem três referências principais. O MICASTA Bucelas DOC Arinto 2024 custa 14€ e aposta num perfil mais fresco, cítrico e leve.
Já o MICASTA Barricado 2024, vendido por 24€, apresenta um lado mais estruturado e gastronómico, com estágio de seis meses em barricas de carvalho francês. “O MICASTA Barricado mostra um lado mais complexo do Arinto”, explica Tiago. “Muita gente associa a casta apenas a vinhos leves e frescos, mas ela consegue ir muito além disso.” O produtor admite ainda que o objetivo passou por mostrar “um lado mais sério e gastronómico” dos vinhos de Bucelas.
A novidade mais recente é o Clarete MICASTA, lançado há apenas algumas semanas e vendido por 11€. O vinho nasce de uma fermentação conjunta de Trincadeira, Castelão e Arinto provenientes das vinhas antigas do avô. “A vinha do meu avô tinha muita Trincadeira e Castelão. O clarete acabou por nascer dessa vontade de respeitar aquilo que já existia”, conta. “É um tinto leve, muito ligado à partilha e aos momentos à mesa.”
Grande parte das vendas é feita através das redes sociais, plataformas online, parceiros e distribuição própria. Além disso, Tiago tem apostado em provas, eventos privados e colaborações com chefs. “O nosso projeto está muito ligado às degustações e a estes momentos de convívio”, explica. “Tenho feito muitas parcerias com chefs porque acabamos também por aprender muito sobre harmonizações e diferentes formas de servir o vinho.”
“O vinho continua a ser sobretudo um pretexto para juntar pessoas”, explica. “No fim do dia, o mais importante continua a ser aquilo que acontece à volta da mesa.” Tiago acredita que é precisamente essa vertente emocional que define a MICASTA. “Todos os projetos começam no coração e no seio da família. O MICASTA nasce muito disso: amigos, família e pessoas que se cruzaram comigo e ajudaram em vários momentos.”
Apesar do crescimento do projeto, Tiago garante que quer manter alguma irreverência e liberdade criativa. Nunca quis transformar a MICASTA num projeto demasiado técnico ou fechado. “Muita gente pergunta-me se vou tirar enologia. Mas eu gosto de continuar a ser a parte sonhadora do projeto”, admite. “Tenho pessoas muito fortes na parte técnica. Eu gosto mais de imaginar caminhos e contar histórias através do vinho.”
E talvez seja precisamente isso que distingue a MICASTA de muitos outros produtores: nasceu de uma vinha antiga, mas fala uma linguagem muito mais próxima da nova geração.
Carregue na galeria para conhecer com mais detalhe as vinhas da MICASTA e suas as garrafas.








