Gourmet e Vinhos

De um restaurante em Linda-a-Velha para uma estrela Michelin na Noruega

Falámos com o chef Carlos de Medeiros, atual responsável pelo Bar Amour, em Oslo, cujo menu só vai descobrir quando se sentar à mesa.
O chef.

Quando perguntámos do que sente mais saudades quando pensa no seu País, Carlos de Medeiros não hesitou em apontar a gastronomia portuguesa, que considera “fantástica e muito acessível”, principalmente as “tascas onde se come bem e barato”. É que na Noruega, onde vive há três anos, “uma refeição normal chega aos 60€” e, segundo o chef, “eles não têm uma cultura de bons produtos”. Pelo contrário, no Bar Amour, trabalha-se com matéria-prima de qualidade, paixão e muita criatividade, características que valeram ao espaço do português uma estrela Michelin.

A novidade foi anunciada esta segunda-feira, 27 de maio, na gala que celebra os melhores restaurantes dos Países Nórdicos. O Bar Amour, situado em Oslo, está aberto há cerca de um ano e meio. Mas até lá chegar, Carlos percorreu um longo caminho, com diferentes cozinhas e países pelo meio.

O chef de 30 anos, vive fora de Portugal desde os 21, quando sentiu que era difícil evoluir e destacar-se “num País que não cuida dos seus jovens, não dá oportunidades, vive da exploração dos seus trabalhadores”. Depois de se licenciar na Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril, e antes de emigrar, ainda chegou a abrir um restaurante em Linda-a-Velha, local onde cresceu, chamado Metáfora. O conceito, aberto em 2014, apostava na cozinha de autor.

No entanto, Carlos sentia que era difícil progredir nesta área, pela falta de apoios. Acabou por ir morar para Inglaterra onde trabalhou num restaurante de estrela Michelin, o Drake and The Clock House. Passou também pelos Países Baixos, antes de se estabelecer na Noruega, onde, depois de passar pelo restaurante Maaemo, “uma verdadeira escola”, recebeu uma proposta irrecusável: tomar conta do Bar Amour.

Assumiu a cozinha do espaço há cerca de um ano e meio e, mesmo longe de Portugal, as raízes estão bem presentes. Ingredientes como alfarroba (para sobremesas), limões e carne de raças nativas portuguesas, fazem parte do menu. “Temos, por exemplo, um petit four que tem queijo norueguês, mas é acompanhado por uma redução de vinho da Madeira”, refere. “Quando vamos a Portugal, regressamos sempre carregados de coisas, mas também recebemos muitas encomendas das nossas famílias”, conta à NiT.

No entanto, os produtos portugueses fazem parte apenas de 20 a 30 por cento da carta. E há uma explicação lógica: “Estamos na Noruega, por isso achámos que tem sentido usar o que é local”, sublinha. A apresentação, por seu lado, tem um toque que não esconde as origens. “Apresentamos muitos dos pratos em azulejos ou bases de cortiça”, diz Carlos.

Então, o que se come no Bar Amour? Na realidade, é um mistério que só vai descobrir quando se sentar à mesa. O mesmo se pode dizer da história do espaço, um antigo bordel, que não aposta em grande marketing e comunicação, para manter a mística que o envolve.

“Temos um menu que vai rodando consoante as estações. Mas é surpresa para o cliente. Vêm com grande expectativa, porque não partilhamos muitas fotografias dos pratos nas redes sociais. Queremos que haja o fator ‘uau’, que não seja só mais uma noite em que saem para comer fora”, conta Carlos. Para que a experiência seja ainda mais memorável, o restaurante incentiva os clientes a colocarem os telemóveis em caixas que se encontram debaixo de cada mesa. “Desta forma, focam-se na refeição e na companhia”, defende.

Com o desejo de ser disruptivo e contra o modelo instalado em tantos outros restaurantes, o chef quer também explorar ingredientes que não se encontram noutros espaços. “Queremos usar produtos menos conhecidos como, por exemplo, os rabos do caranguejo real, que são muito mais que as pernas gordas. O atum é muito mais do que só a barriga. Não queremos ter aquilo que toda a gente come. Queremos mostrar que os ingredientes são mais do que aquilo que as pessoas conhecem”, aponta.

A qualidade e apresentação da comida foram mesmo um dos pontos mais destacados pelos inspetores do Guia Michelin, que afirmam que ali se encontra “um menu de degustação que combina soberbos e reconhecíveis produtos noruegueses como skrei ou rena, com as influências do país de origem do chef Carlos de Medeiros”. Os preços para as cartas de degustação começam nos 78,90€ e chegam aos 144,65€.

Este é um reconhecimento que Carlos de Medeiros acredita ser um incentivo para outros jovens cozinheiros. “É uma vitória. Mostra que conseguimos atingir os objetivos, mesmo que todos à volta nos digam que não. As pessoas deixam-se influenciar pelos outros, mas o meu percurso mostra que ter uma missão e segui-la, quando queremos, conseguimos”.

Carlos de Medeiros não pensa voltar para Portugal, mas não deixa de lado a hipótese de abrir um restaurante por cá. Por outro lado, está disponível para vir cá fazer palestras ou participar em eventos para contar o seu percurso, mas também “quebrar o molde” e mostrar que “há muito a aprender com os jovens e com os trabalhadores que devem ser cuidados e bem tratados”.

Por enquanto, volta a Portugal apenas em períodos curtos para visitar a família. É nestes momentos que mata saudades de tudo aquilo que mais gosta. “Às vezes, os portugueses não dão valor à grande sorte de ter praia por perto e bom tempo”, diz.

Entre as idas à praia, não faltam as visitas aos restaurantes favoritos e as refeições com alguns dos seus pratos de eleição, típicos de quem cresceu perto do mar. “Adoro marisco, então vou sempre a marisqueiras como, por exemplo, O Relento, em Algés. Também gosto muito de peixe fresco grelhado, caldeiradas e feijoada”, conclui.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT