Apesar de passar horas a admirar — e a memorizar — os gestos da tia-avó Maria enquanto amassava o pão, eram raras as vezes que Elisabete Ferreira podia pôr a mão na massa. Com apenas oito anos, encontrou solução numa almofada lá de casa, onde replicava os movimentos que haveriam de a levar ao título de melhor padeira do mundo.
Aos 46 anos, a natural de Bragança recebeu, a 22 de outubro, a distinção de Melhor Padeira do Mundo pela União Internacional de Panificação e Pastelaria (UIBC), no concurso World Baker and Pastry of the Year, que se realizou em Veneza, Itália.
O que começou com uma pequena almofada deu caminho à mestria na arte da massa de fermentação lenta, método que distingue o pão feito na padaria da família, a Pão de Gimonde, negócio comprado pelos pais José António e Maria em 1987 e no qual Elisabete sempre gostou de ajudar.
“A minha tia era conhecida como Tia Padeira na nossa zona e eu sempre adorei apreciá-la a fazer o pão, a forma como o amassava e a técnica que utilizava. Eu insistia sempre em fazer com ela e depois treinava numa almofada a parte da forma. Quando os meus pais assumiram o negócio, passei a aprender sobre todas as áreas do processo. A minha mãe liderava a equipa e o meu pai fazia e ainda faz as massas”, conta à NiT.
O cumprimento da tradição foi um dos trunfos que levou consigo para a competição internacional. Na fábrica da aldeia nos arredores de Bragança, o pão faz-se sempre da mesma forma. “Trabalhamos com o saber do antigamente. Os nossos pães são feitos com massa mãe e passam por um processo de fermentação lenta antes de serem cozidos em forno a lenha”, explica Elisabete, que se consagrou assim como a primeira mulher a receber a distinção no Congresso Mundial de Padeiros e Chefs Pasteleiros.
Um prémio que, confessa, “não esperava receber”. O júri, por sua vez, considerou que a portuguesa se destacou pelo contributo dado ao setor, tanto “nos termos de inovação quanto de preservação dos processos e técnicas tradicionais”.

Aos 14 anos já tratava da contabilidade, fazia a distribuição e estava envolvida em toda a dinâmica. O percurso na padaria foi apenas interrompido para tirar a licenciatura em Gestão, no Porto, em 1995 e ainda houve tempo para completar uma pós-graduação em gestão internacional. “Sabia que iria assumir o negócio e queria tirar a padaria da paróquia. Queria mostrá-la ao mundo”, revela.
Fechados os livros, regressou a Trás-os-Montes disposta a tudo para fazer crescer o negócio da família. “Sei fazer de tudo aqui. Desde que a farinha e outras matérias-primas nos chegam, até que sai para o cliente, eu estou envolvida. Quando se está à frente de um negócio é preciso saber fazer tudo. É isso que faz diferença na liderança de uma empresa”, refere.
Contrariamente ao que seria de esperar, a padaria familiar nunca teve um espaço de porta aberta. Dependeu quase sempre da distribuição direta em hipermercados, hospitais e instituições. Isso mudou em 2023, também por causa da muita insistência dos clientes, e abriram a primeira loja em Gimonde onde se prova o pão da terra.
A procura é muita e isso obriga a que dali saiam entre 500 a 600 pães por dia. E embora a produção tenha de ser rápida para acompanhar os pedidos, Elisabete sublinha que o pão “tem o seu tempo”. O de multicereais, por exemplo, leva três dias até que o processo da fermentação esteja concluído.
No número 46 da Avenida das Forças Armadas, em Bragança, os clientes podem comprar o famoso pão de Gimonde, feito com farinha de trigo, ou outros dois que disputam o pódio de popularidade, o de sarraceno e o de figo e nozes. Os preços variam entre os 2€ e os 3€ por unidade.
Não espere, contudo, sentir o cheiro do pão quente à porta. “Esse conceito na padaria artesanal não existe”, alerta a padeira. “O pão de fermentação lenta sabe melhor frio, porque se ainda estiver quente, não se vai sentir o sabor e o travo ácido e sublime que este processo deixa nos produtos.”
Chegada a época natalícia, o leque de produtos alarga-se com o surgimento do panetone, do bolo-rei tradicional e do bolo-rei de chocolate. Na Páscoa nunca falta o clássico regional, o folar transmontano. E, durante essas épocas festivas, o trabalho de Elisabete aumenta exponencialmente. “Normalmente digo que tenho hora para entrar, por volta das seis horas da madrugada, mas não tenho hora para sair. Os meus filhos brincam comigo e dizem que quando estou na padaria me esqueço do mundo. Ao fim de semana, por exemplo, se não houver ninguém para fazer a distribuição, sou eu que vou. Aí entro pelas três da madrugada.”
E o futuro do Pão de Gimonde, está em boas mãos? Elisabete admite querer que a geração seguinte dê continuidade ao trabalho da “melhor padeira do mundo”. Por enquanto, a filha Leonor segue o mesmo caminho no curso de Gestão; já o filho “está mais virado para o desporto”.
Seja como for, orgulha-se da conquista por “todas as mulheres padeiras do mundo”. “Este é o resultado de anos de trabalho, dedicação e persistência. Foi uma mochila que carreguei para que pudesse acontecer. Ao logo da carreira tenho apostado em vários projetos com escolas e universidades para levar a Pão de Gimonde e os produtos nacionais além-fronteiras. Espero ver o trabalho de mais mulheres reconhecido.”


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