Comida
ROCKWATTLET'S ROCK

Gourmet e Vinhos

Em Águeda, há um vinho produzido em potes de barro como no tempo dos romanos

Romeu Martins é o responsável pelo Malápio, feito na Bairrada, e que dá vida a esta tradição.

Um vinho feito como antigamente: uvas esmagadas e colocadas em potes de barro — as talhas — onde fermentam num processo ancestral com mais de dois mil anos. Difundida pelos romanos, a técnica atravessou gerações e é uma herança que o produtor Romeu Martins faz questão de manter. É ele o responsável pelo vinho Malápio, feito na Bairrada, concelho de Águeda, e que dá vida a esta rara tradição.

Romeu nasceu há 51 anos na África do Sul. Filho de um mecânico e de uma costureira, ambos portugueses, cresceu numa família humilde que, como tantas outras, se viu forçada a emigrar. Regressou à Bairrada ainda miúdo e foi criado com o avô Aristides, que lhe ensinou os segredos das vinhas, das talhas e da terra. Recuperar a adega feita por ele foi mais do que um investimento: foi uma homenagem.

Já adulto e a viver na Dinamarca, onde geria três lojas de pastéis de nata, começou a sentir falta de casa. Com um filho pequeno e o desejo de voltar a Portugal, mas ainda sem rumo profissional definido, decidiu olhar para trás para poder avançar. Pensou, assim, em retomar o negócio familiar.

O nome Malápio faz referência às maçãs da região, presença constante na quinta. Eram cortadas fininhas com a navalha para acompanhar uma boa “pinga”. Em tempos, o próprio Aristides adicionava o coração destas frutas à fermentação das uvas brancas, para dar um perfume sutil ao vinho.

“Preservei as talhas de barro do meu avô e acrescentei mais 10 talhas igualmente centenárias. No total, a adega tem 16. O Malápio diferencia-se pela ausência quase total de aditivos e segue a 100 por cento os métodos ancestrais para produzir como se fazia no tempo dos romanos”, explica Romeu.

O vinho de talha é uma herança que o produtor Romeu Martins faz questão de manter.

Hoje, as talhas são cuidadosamente preparadas, aquecidas por dentro e impermeabilizadas com uma mistura de resina de pinheiro e cera de abelha. O trabalho continua artesanal e a vindima é toda manual, feita em cestos de vime. A garrafa de 750 mililitros está a ser vendida na loja online a 33,90€ e a de um litro e meio a 67,80€.

A fermentação espontânea, graças às leveduras naturais da própria uva, dispensa processos químicos. Durante dias, as massas sobem à superfície e são mergulhadas novamente com um rodo de madeira. O resultado é um vinho vivo, com acidez e outras características difíceis de replicar num contexto industrial.

“Quando liguei pela primeira vez ao professor Virgílio Loureiro, enólogo e defensor da história do vinho em Portugal, comecei a falar sobre o projeto da Adega Malápio. Ele prontamente se disponibilizou a visitar. No dia a seguir, veio de Lisboa. Estava na vinha, meteu as mãos na cabeça e diz-me: ´estamos perante uma vinha ao estilo medieval, isso é muito raro de se encontrar”, recorda.

Depois do tinto, a grande novidade a que se tem dedicado agora é o vinho branco de talha, que será lançado em março numa edição limitada, com cerca de 1.800 garrafas numeradas. Sardinhas assadas, bacalhau com grão, rojões, cozido à portuguesa ou uma tábua de queijos curados são alguns dos pratos que combinam com o produto à perfeição.

Produções pequenas, intervenção mínima, respeito pelas técnicas ancestrais. “É um vinho que espelha a nossa identidade e tradição”, sublinha Romeu. E talvez seja isso que torna cada garrafa tão especial: dentro dela não está apenas uva fermentada em barro, mas um legado familiar inteiro, cuidadosamente preservado.

Carregue na galeria para conhecer melhor o vinho Malápio.

ARTIGOS RECOMENDADOS