Tudo começou com o desafio de um amigo. Quando foi anunciada uma nova edição do concurso de Melhor Escultura em Chocolate, no Festival Internacional de Chocolate de Óbidos deste ano, Daniel Ferreira só contava com uma estátua feita a partir de cacau no seu portefólio. Decidiu então que este seria o palco ideal para a segunda.
O risco não poderia ter corrido melhor. O chocolatier português, de 34 anos, foi distinguido com o primeiro lugar na competição do evento, que regressou à vila entre os dias 6 e 22 de março para a 22.ª edição. Destacou-se com uma obra que contava com movimento real graças a vários mecanismos, todos eles 100 por cento comestíveis.
A obra, que “pretende mostrar a convergência entre a máquina e o ser humano”, representa um busto com dois lados — um deles mostra o lado humano, o outro um lado mais mecânico. “A ideia era mudar o paradigma daquilo que é fazer arte com chocolate”, explica à NiT o fundador da marca de chocolate artesanal Chuate.
Além disso, a escultura diferenciou-se por incluir uma componente sensorial. Ao toque, a figura reage e ativa uma luz no seu interior, criando uma experiência interativa com o público. Tudo era feito com uma alavanca que, ao ser puxada, acionava um mecanismo que alerta o movimento dos olhos.
O mais impressionante é o “tempo recorde” em que a obra foi feita. Daniel começou a trabalhar neste projeto no dia 16 de março, segunda-feira, e apresentou-se em prova no domingo seguinte, dia 22. Em apenas uma semana, dedicou-se “de corpo e alma” a um trabalho que exigiu muitas horas diárias.
O segredo do chocolatier está na sua formação variada, que lhe permitiu juntar áreas tão diferentes como as artes plásticas, a engenharia mecânica e chocolataria. Soube, desde o início, que o seu objetivo com a sua participação seria misturar todas as valências para dar resposta ao tema da edição: a arte.
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O processo, explica-nos, envolveu o desenho e a produção de moldes em impressão 3D. “Desenhei as peças dos mecanismos porque, para que fosse funcional e 100 por cento em chocolate, tinha de ter a certeza que as peças tinham uma dimensão e formato exatos, ou não daria certo”.
A principal dificuldade estava na resistência da matéria-prima. “É um material que parte. Quando entra num ponto de rutura, destrói-se logo. Tinha que ter aqui algo que fosse minimamente robusto”, acrescenta o criativo, que compara o mecanismo ao dos carrinhos com que brincava em miúdo.
A solução foi-se desenhando aos poucos, muito graças aos seus conhecimentos em engenharia mecânica. “Fiz os moldes em primeiro lugar, injetei o chocolate e concretizei as peças para poder concretizar o tal mecanismo”, conta. Tudo o resto foi esculpido à mão e olho foi pintado com manteiga de cacau, geralmente usada para colorir bonbons.
A criação da Chuate
Apesar da aptidão pelas artes, quando Daniel termina a licenciatura, surge a oportunidade de fazer um mestrado em engenharia mecânica na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Foi logo no primeiro ano, quando deu por si com mais tempo livre, que voltou a olhar para um gosto antigo.
“Quando era mais novo, gostava muito de cozinhar”, recorda. “Como estávamos na altura do Natal, e queria fazer algum dinheiro, lembrei-me de criar chocolates para vender a alguns familiares e amigos.”
E assim foi. Apenas com bonbons, conseguiu dinheiro para os presentes que ofereceu na Consoada de 2016. O projeto ficou em pausa no ano seguinte, desta vez focado na tese de mestrado, mas em 2018 voltou para Oliveira de Azeméis e surge novamente a ideia de ativar esse negócio.
Desde então, começou a fazê-lo todos os anos. Do Natal passou à Páscoa, alargou a oferta a outras datas especiais e, em 2022, desiste da engenharia mecânica para se dedicar apenas à chocolataria. Nessa altura, já tinha registado oficialmente a marca de fabrico 100 por cento português.

“Acima de tudo, havia uma demanda cada vez maior. As pessoas começaram a querer mais produtos e em alturas diferentes. Para aquelas épocas específicas em que as pessoas gostam de oferecer coisas diferenciadas, fui trazendo sempre novidades”, diz.
Ainda que nunca tenha imaginado viver apenas desta área, percebeu que, para continuar a crescer, precisava de maior dedicação. Quando sai da empresa onde trabalhava, ruma até à Bélgica para fazer uma formação na Belgian Chocolate School. “Tinha de ter a certeza do produto que estava a apresentar.”
O mundo das esculturas
Antes do chocolate, Daniel já tinha o gosto pela escultura, que começou a explorar ainda na altura da licenciatura. Mas foi em 2023, quando visitou pela primeira vez o Festival de Óbidos, que se deparou com o universo das esculturas feitas a partir de chocolate. “Percebi, pela primeira vez, que conseguia juntar a chocolataria e a arte.”
Esta epifania deu-se na mesma altura em que surgiu um convite do WOW Porto para participar num concurso de esculturas, onde acabou por ficar em primeiro lugar. Foi a sua primeira experiência e, até ao momento, não tinha voltado a fazer nenhuma.
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“Gosto de ter um conceito. Como o tema era Páscoa, inspirei-me no tema desse ano em óbidos, cartoons”, conta-nos. A peça chamava-se Society e incluía um coelho agarrado a um ovo, com um ar desconfiado, mas que estava sentado por cima de uma caixa de dinamite. O objetivo foi representar a sociedade avarenta dos dias de hoje.
Atualmente, o chocolatier tem as duas vertentes do seu trabalho bem separadas: a Chuate continua ligada aos produtos artesanais, enquanto o seu nome está cada vez mais associado à área da escultura. À NiT, garante que o objetivo passa precisamente por investir mais nesta segunda vocação.
“Já tenho algumas propostas em aberto e há uma série de portas em aberto. Quero fazer novos projetos, como workshops nesta área da escultura, e fazer com que as pessoas também me associem a este trabalho”, conclui.
Para ver mais do trabalho de Daniel Ferreira, pode visitar a sua página de Instagram e encontrar os produtos da Chuate online. O preço dos doces começa a partir dos 9,50€.
Carregue na galeria para conhecer alguns dos produtos.

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