Gourmet e Vinhos

Já fomos ao Centro Interpretativo do Bacalhau — e apanhámos frio como os pescadores

A NiT foi descobrir este espaço original e imperdível que abriu recentemente no Terreiro do Paço.

Mortes, guerras, piratas e até uma frota branca que atravessava os mares intocada em plena Segunda Guerra Mundial. Há de tudo na história do bacalhau e agora Lisboa tem um novo espaço para descobrir todo o mundo do prato favorito dos portugueses.

Foi na quarta-feira, 22 de julho, que abriu no Torreão Nascente do Terreiro do Paço o Centro Interpretativo da História do Bacalhau. A imponente praça, com a Rua dos Bacalhoeiros ali por perto, é um espaço privilegiado para desvendar este pedaço épico da nossa história.

O espaço nasceu de um projeto da Câmara Municipal de Lisboa e da Associação de Turismo de Lisboa, contou com o apoio e material do Museu Marítimo de Ílhavo, com a parte de exposição a ficar a cargo do NewsMuseum, cujo diretor, Rodrigo Moita de Deus, nos serviu de guia nesta visita. “Ao estilo do José Hermano Saraiva”, brincou o próprio.

O peixe favorito de muitos portugueses conta com mil receitas e cada um de nós terá as suas preferências. Mas nisto todos concordamos: se algum estrangeiro nos perguntar pelos pratos típicos dos portugueses, a resposta obrigatória é bacalhau. Cedo na visita, descobrimos obras de arte bem conhecidas aqui reinventadas com a carantonha do peixe que adoramos. Há um toque de humor e cuidado aqui. Sim, o assunto até pode parecer brincadeira visto de fora mas, para nós, portugueses, o bacalhau é assunto sério. E com muita história.

A história do bacalhau remonta ainda ao século XV, com João Vaz Corte-Real, explorador português que em 1472 se aventurou até aos mares do norte e mesmo à chamada Terra Nova. Os mares por onde o bacalhau circulava ficaram intimamente ligados à família Corte-Real. Gaspar, um dos filhos, tornar-se-ia descobridor da Gronelândia mas desapareceu em 1501. O irmão Miguel Corte-Real seguiu-o à procura de o encontrar, mas desapareceria também um ano depois. Vasco Anes, o último dos três irmãos, também quis partir à procura dos irmãos mas desta vez o rei já não o autorizou. É uma tragédia épica que merecia a sua própria epopeia.

Um livro de histórias

Estas histórias surgem-nos ainda à entrada, num livro interativo gigante, onde se mostra como o nosso períodos dos Descobrimentos foi também um tempo de bacalhau. Os portugueses aventuraram-se até aos mares do norte, enfrentaram embarcações piratas e travaram batalhas naquelas gélidas águas, tudo à conta do peixe que então se conservava com carradas de sal.

A indústria, no entanto, foi perdendo espaço e seria só recuperada no tempo do Estado Novo, altura em que Salazar a cartelizou e aproveitou para fazer dela bandeira dos portugueses, como Fátima ou o Fado, uma onde o caráter e os limites físicos dos portugueses seriam bem testados.

É cedo que encontramos uma das experiências mais invulgares: numa sala que é uma autêntica arca frigorífica, os visitantes podem sentar-se numa embarcação que simula as ondulação. Ali, no escuro, com frio (que o dia era de calor e andávamos de manga curta), e com o som do mar a ecoar no pequeno espaço, perguntamos onde estamos. É uma dóri. Conta-nos Rodrigo Moita de Deus que, nos anos de 1930, quando Portugal se voltou a aventurar na pesca em grande escala do bacalhau, o método era tudo menos prático.

Cada embarcação contava com pequenos barcos, as tais dóri, que eram lançados ao mar. A bordo estava apenas um pescador que, durante 10 a 12 horas por dia, se sentava solitário no frio e ameaçador mar fazendo pesca de linha. O plano era que as dezenas de embarcações da frota viessem com carregamento para longos períodos. E o centro conta até com o testemunho de alguns destes bravos homens que desafiaram a lógica do nosso tempo para trazerem bacalhau aos nossos avós e bisavós. Temos ainda oportunidade de ver algum material resistente (e nada confortável) que aqueles pescadores usavam, graças ao espólio do Museu Marítimo de Ílhavo.

A vida dura a bordo de uma dóri.

Estamos ainda no piso 0 do centro, dedicado ao Mar, quando vamos desvendado mais um de muitos pedaços invulgares da história do bacalhau. Nos anos de 1940, estava a Europa toda em Guerra, Portugal perdeu homens e embarcações torpedeados por engano.

A solução do regime foi pintar a frota toda de branco e lançá-los de novo ao mar. Chamaram-lhe “white fleet” e, liderada pela mítica Creoula, ficou bem conhecida no cenário de guerra que eram os mares da Europa. Dá para imaginar navios e submarinos de guerra, aliados e nazis, prontos para o combate a qualquer altura. E uma frota de portugueses a navegar mar fora, desviando-se da guerra a caminho dos mares onde se pescava o bacalhau.

Sim, é absurda e cómica e trágica e invulgar a nossa relação com o bacalhau e o centro interpretativo faz questão de conjugar todos esses sentimentos num espaço altamente interativo — e que só não o é mais já nesta altura porque são tempos de pandemia aqueles em que vivemos.

Ainda no piso de baixo, temos oportunidade de descobrir o espaço Propaganda, onde se mostra como o regime de Salazar explorava orgulhoso esta indústria, que empregava milhares de portugueses. A bênção dos bacalhoeiros era um ritual de propaganda da ditadura que antecedia a partida. Para trás, no cais, amontoavam-se as famílias na despedida enquanto se preparavam para uma espera que poderia durar longos meses.

Quando subimos as escadas a caminho do piso 1, intitulado À Mesa, vemos como as paredes se decoram com frases de nomes maiores da literatura portuguesas — e como o bacalhau sempre foi assunto. De Agustina Bessa-Luís a Gil Vicente, passando pelas históricas “As Farpas”, há muito bacalhau nas letras nacionais.

Lá em cima, descobrimos receitas e uma espécie de presente e futuro do mundo do bacalhau. Há um spot que convida à fotografia, com roupas de pescador, e uma decoração muito apropriada em postas de bacalhau, com receitas e mais história — o centro orgulha-se de ser o sítio ideal para descobrir quem eram o Brás e o Gomes Sá e cumpre a promessa.

Há ainda uma cozinha onde o futuro do Bacalhau, na gastronomia mas também como indústria sustentável, é abordado. Mas é entre duas filas de postas que nos contam histórias que descobrimos um dos painéis interativos mais interessantes. Passamos a explicar.

Se tiver por casa nalguma qualquer gaveta a receita especial de bacalhau da sua avó, pode levá-la e partilhá-la naquele painel. A receita vai ser analisada pelos especialistas no assunto, a Confraria do Bacalhau, que se vai certificar da qualidade e originalidade da receita — nós avisámos que o bacalhau é assunto sério. Cada receita aprovada vai integrar uma biblioteca digital, para garantir que nenhuma delas se perde para as gerações futuras.

À saída, passamos pelo espaço Mercearia, um misto de loja de souvenir e espaço para petiscar, e logo ali ao lado encontramos o antigo Populi, que agora é o restaurante Terra Nova e que integra o centro, com o bacalhau em destaque. Como a nossa visita terminou pela hora de almoço é fácil de imaginar onde fomos experimentar umas pataniscas e pastéis. Mas sobre isso falamos noutro dia, que o bacalhau, sempre e cada vez mais, é assunto na ordem do dia.

O Centro Interpretativo da História do Bacalhau está aberto todos os dias, das 10h às 20h. A entrada é gratuita para crianças com menos de seis anos de idade.

Conheça os vários preços das entradas.

— Adulto: 4€
— Sénior (+65 anos) / Estudante (+16 anos): 3€
— Criança (6 aos 15 anos): 2€

Combinados

— História do Bacalhau + Lisboa Story Centre – 15% desconto: 9€
— História do Bacalhau + Arco da Rua Augusta – 15% desconto: 9€
— História do Bacalhau + Lisboa Story Centre + Arco da Rua Augusta – 15% desconto: 11,50€

Carregue na galeria para conhecer melhor o Centro Interpretativo da História do Bacalhau.

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