Reza a lenda que, no Mundial de futebol de 1966 — aquele da campanha histórica de Eusébio em Inglaterra —, a Seleção Nacional comeu bacalhau antes de todos os jogos. Isso só não aconteceu uma vez: na meia-final, contra Inglaterra, e que terminou com a derrota de Portugal. Coincidência? Talvez. Mas basta lançar esta teoria numa mesa de café para alguém responder de imediato: “Pois, está explicado.”.
60 anos depois, Portugal prepara-se para participar noutra fase final do Campeonato do Mundo de futebol — e a superstição continua bem viva. O Mundial de 2026 joga-se entre 11 de junho e 19 de julho, numa edição inédita organizada pelos Estados Unidos, Canadá e México. Será o primeiro torneio com 48 seleções e o maior torneio de sempre. Uma operação logística gigantesca que promete mudar a forma como o futebol é vivido dentro e fora de campo. Ainda assim, há coisas que continuam exatamente iguais. Principalmente para Portugal.
A Seleção Nacional pode mudar de jogadores, de treinador ou de sistema tático, mas continua a existir uma coleção de tradições invisíveis que acompanham a equipa para todo o lado. Algumas começam no relvado. Outras começam muito antes, à mesa.
A verdade é que a relação entre Portugal e o bacalhau nunca foi apenas gastronómica. Durante séculos, este prato significou sobrevivência, tradição, conforto e identidade cultural. E isso ajuda a explicar porque é que também acabou por encontrar lugar nas rotinas da equipa portuguesa. Muito antes de existirem chefs privados, menus pensados ao detalhe ou nutricionistas rigorosos, já os jogadores nacionais viajavam para os jogos fora com sabores caseiros atrás.
A maioria dos jogadores da Seleção Nacional joga em clubes estrangeiros, por isso, espera durante todo o ano pelos estágios de Portugal e comer um bom bacalhau com os colegas. O chef Luís Lavrador, que acompanhou a equipa portuguesa durante 25 anos, já revelou publicamente que o único prato capaz de pôr Cristiano Ronaldo a correr para a mesa é mesmo o bacalhau à Brás.
Outro momento histórico que ajudou a alimentar o folclore nacional aconteceu durante o famoso Euro 2004, que se realizou precisamente no nosso País. Horas antes do jogo contra Inglaterra, novamente nas meias-finais da competição, dizem que Ricardo Pereira terá comido uma generosa dose de bacalhau ao almoço. Com o estômago cheio de bacalhau e as mãos sem as luvas, o guarda-redes entrou para a eternidade por defender o penálti e marcar golo logo de seguida.
Aliás, existem mesmo adeptos que continuam convencidos de que a derrota na final do Euro 2004, contra a Grécia, aconteceu por sabotagem gastronómica. Segundo a teoria popular — totalmente absurda, mas repetida vezes suficientes para ganhar vida própria — os gregos terão intercetado o abastecimento de bacalhau da comitiva portuguesa antes do jogo decisivo. Claro que nada disto alguma vez ficou provado.
Depois veio 2016 e a maior vitória da história do futebol português. A final contra França trouxe-nos um novo herói improvável: Éder. E como qualquer momento épico precisa de ganhar contornos míticos, rapidamente começou a circular outra teoria inusitada: a de que o avançado teria comido bacalhau antes do jogo em Paris. Alguns garantem até que repetiu o prato. Outros defendem que foi bacalhau à Brás. A única certeza é que, desde então, o jogador ganhou automaticamente lugar em qualquer conversa sobre sorte futebolística.
A própria Federação tem contribuído para alimentar estas lendas, mitos e histórias bizarras. No Euro 2021, por exemplo, Portugal levou cerca de 150 quilos de bacalhau e dezenas de garrafas de azeite para a competição.
Entretanto, o fenómeno passou dos jogadores para os adeptos. Há portugueses que já não marcam jantares durante jogos da Seleção sem incluir bacalhau no menu. Outros acreditam genuinamente que determinados pratos trazem mais sorte em fases a eliminar. E há até quem admita, em segredo, que evita mudar a receita quando Portugal está numa sequência de vitórias.
Por isso, se este verão vir alguém a insistir em servir bacalhau antes de um jogo da Seleção Nacional, talvez seja melhor não contrariar. Afinal, estamos a disputar um Campeonato do Mundo.








