Gourmet e Vinhos

Os três amigos que se dedicaram a fazer “vinhos à parte” com um “espírito punk”

Desde 2017 que apostam nos vinhos naturais de pouca intervenção. Agora querem dar o salto e criaram um crowdfunding, o Pimp My Winery.
Eles prometem vinhos "fora da caixa"

Um enfermeiro, um sommelier e um agrónomo entram numa adega. A punchline desta história ainda não está escrita, mas sairá certamente do projeto de crowdfunding a que chamaram Pimp My Winery.

Os três jovens apaixonados por vinho conheceram-se durante um curso de enologia e encontraram uma filosofia comum que esbarrou numa barrica de vinho colocada à parte.

“O Luís [Mendes] fez o estágio de vindima na adega Horácio Gomes, em Palmela, e fez um vinho especial, um moscatel cor de laranja que fermentou com a própria casca da uva”, conta Diogo Yebra, 28, sommelier do lisboeta JNcQUOI.

Ao fim de um par de meses, o enfermeiro de 39 anos regressou à adega e perguntou pelo seu vinho. “Disseram-lhe que a barrica estava colocada de lado, que era um vinho esquisito mas que quando era dado a provar à malta do vinho, a sommeliers, eles adoravam. Só que não tinham mercado para um vinho daqueles”, nota Diogo.

Chamaram o terceiro elemento, Guilherme Maia, e juntos foram a Palmela provar o tal vinho laranja. “Decidimos logo que íamos ficar com a barrica e não se mexia mais no vinho. Guardamo-lo na adega do Guilherme, na Bairrada e começou aí o projeto.”

Sem vinha própria, tiveram que encontrar uma alternativa para poderem concretizar as ideias que borbulhavam desde o final do curso. Foram à procura de pequenas vinhas em diferentes regiões, faziam a vindima e depois carregavam as uvas até onde estava a sua base — já fizeram vinhos em Alenquer, em Torres Vedras e agora aterraram definitivamente em Setúbal.

Fazem, sobretudo, aquilo a que se chamam vinhos naturais, de pouca intervenção. “Queremos vinhos sem maquilhagem. Queremos vinhos que, se são do Dão, saibam ao Dão. Se vêm de Trás-os-Montes, que saibam a Trás-os-Montes”, explica Diogo. “A única coisa que usamos na adega são uvas e sulfitos.”

O final do curso coincidiu com o crescimento do mercado deste tipo de vinhos. Foi o momento perfeito. No ano zero fizeram três mil garrafas e todo o lucro foi reinvestido na empresa. Cinco anos depois, cada um mantém ainda o seu emprego, até porque continuam a reinvestir todo o dinheiro gerado por estes vinhos APARTE.

Neste último ano fizeram 24 mil garrafas e 80 por cento da produção já é exportada para todos os cantos do mundo, da Austrália à Coreia do Sul. É um estilo de vinho irreverente, tal como se apresenta a marca, que arrancou “com um estilo mais punk”, até para marcar a presença.

“Acabamos por perceber que estes vinhos têm uma estética própria. Queremos que a empresa seja sustentável, amiga do ambiente, que seja uma resposta à nossa geração”, conta Diogo. Os vinhos também se destacam pelos seus rótulos originais, em colaboração com diversos artistas, uns mais minimalistas,outros mais explícitos — mas sempre para deixarem o seu statement bem vincado.

De 2017 até 2022, fizeram-se muitas viagens à caça das melhores uvas. Agora, chegados aqui, os vinhos APARTE conseguiram finalmente encontrar uma casa, uma adega abandonada em Setúbal com uma vinha própria. Foi também o momento certo para organizar um crowdfunding que permita à empresa “dar o salto”.

Definiram como meta os 25 mil euros, mas não para comprar a adega ou melhorá-la. Isso já está a ser feito. “Somos muito honestos e transparentes. A adega já foi comprada, as obras começaram agora, isto vai acontecer”, garante Diogo.

“Foi um esforço muito grande para que tudo acontecesse e precisamos do apoio para conseguir produzir mais garrafas e continuarmos a trazer um produto inovador para o mercado”, explica. “Todos os brindes que queremos dar a quem nos apoia estão já disponíveis. As garrafas, as t-shirts.”

Os três fundadores

Sonham ainda com o dia em que possam deixar as respetivas profissões para se dedicarem a 100 por cento ao projeto. No entanto, esse dia ainda não chegou. “Continuamos a reinvestir todo o dinheiro na empresa.”

E que vinhos trazem até nos estes três jovens enólogos? “Todos os anos fazemos vinhos de parcelas de regiões específicas, com uma só casta; mas fazemos também vinhos que são um best of do que aconteceu nessa vindima”, diz.

Todos os anos é lançada uma nova versão do Superavit e do Monda, precisamente esses best of que são também um blend de várias regiões. Há também o Zorro, feito apenas com uvas da casta Bastardo, colhidas em Miranda do Douro, ou o Mike Tazem, de Vila Nova de Tazem.

Além do perfil “fora da caixa”, também não é fácil deitar a mão a estas garrafas, vendidas apenas num par de lojas de Porto, Lisboa e Algarve e online no Real Portuguese Wine e no Wineclick.

“Depois fazemos também algumas edições limitadas, pequenas experiências de 200 e 300 garrafas de uma casta que tenhamos gostado de vindimar nesse ano, com um outro tipo de vinificação.” Mas o vinho bandeira chama-se Ambar e remete para precisamente aquela barrica que deu origem a todo o projeto.

“As uvas brancas são tratadas como se fossem tintas, a fermentação é feita com o cacho inteiro, em vez de ser apenas com o sumo. Chamamos-lhe Ambar por causa da cor”, explica. Dizem que é o seu vinho “mais fora da caixa” mas, ao mesmo tempo, “o mais clássico”. Isto porque é uma espécie de armadilha para quem gosta de Moscatel.

“Tem a cor do Moscatel, o aroma, mas depois brinca com o cérebro porque não é doce. Ao contrário do Moscatel tradicional, cuja fermentação é parada com a introdução da aguardente, aqui não usamos aguardente, o vinho não tem doçura, é um vinho fresco, ótimo para o verão.”

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