Gourmet e Vinhos

Os vinhos algarvios servidos em restaurantes Michelin nos EUA

O Morgado do Quintão é um projeto que já vai na quinta geração. As garrafas têm rótulos originais com pinturas da mãe do responsável.
São organizados eventos na propriedade.

Uma boa história vende garrafas. A premissa é simples e todas a conhecem. Poucos, porém, conseguem cumpri-la. O Morgado do Quintão é um deles — e parece que tem todos os ingredientes necessários para fazê-lo. Sem truques, mentiras ou falsas promessas. A narrativa é simples.

Lá no barlavento algarvio, onde a serra de Monchique encontra o oceano Atlântico, entre os laranjais e as oliveiras antigas do Algarve, há um projeto familiar com ambição. A de levar para mais longe o vinho algarvio, enquanto promove a arte e a educação para a cultura.

O Morgado do Quintão é um projeto que já vai na quinta geração dentro da família de Filipe Caldas de Vasconcellos, que é quem define a sua rota, desde 2017. Para facilitar as contas, dizemos já que foi fundado no início da década de 1810 pelo 1.º Conde de Silves, Francisco Manuel Pereira Caldas.

“É uma propriedade que está na família há mais ou menos 300 anos, e que, em 2016/17, relançou-se com o lançamento de vinhos no mercado. Até lá, fazíamos vinho só para o consumo da família. Com a vindima de 2016 decidimos apresentá-los”, começa por dizer à NiT Filipe.

Começaram por lançar 3000 garrafas. Este ano, já vão nas 80000. “Foi um crescimento muito grande, que só vem corroborar a ideia de que há um potencial para os vinhos algarvios. Sim, porque o Algarve é um bocadinho a região que o vinho esqueceu durante muito tempo. Isto porque a maioria dos projetos de vinhas foram substituídos por esquemas de turismo. Só há 20 anos é que voltaram a reaparecer, e há dez começaram a juntar-se os dois.”

Ao pensar no que faria sentido fazer, Filipe decidiu avançar com “o que já se fazia”. “Aproveitar a propriedade com 21 hectares, com vinhas antigas de castas indígenas do Algarve para fazer vinhos que pudessem estar em qualquer lado do mundo. A missão do Quintão tem sido mesmo essa: mostrar o potencial dos produtos algarvios, através do respeito que temos pelas castas e pelos estilos de vinificação que, no fundo, relembram aquilo que o vinho deve ser: com menor intervenção na adega e uma maior aposta do trabalho na vinha.”

“Como temos um histórico de há muitos anos da família na região, permitiu-nos fazer uma ligação entre o passado e o futuro.” O mesmo acontece com os rótulos das garrafas. A mãe de Filipe tem ainda um grande peso no que acontece por ali. Teresa Pereira Caldas de Vasconcellos (1941-2017), foi uma artista contemporânea e professora universitária que, através da sua exploração criativa, aperfeiçoou uma profunda ligação à terra. Os rótulos, preparados em jeito de homenagem, são a face mais visível deste cuidado com os valores da arte plástica.

“Crescemos num ambiente em que a cultura e a arte faziam parte do nosso dia a dia. Quando começamos a pensar em como poderiam ser os rótulos, ou que história é que poderíamos contar, esta era intrínseca.”

Todos os anos, a quinta recebe artistas em residências artísticas, para recuperar os trabalhos feitos por Teresa nos anos 80 e  90. “Depois há rótulos criados por nós, sempre numa perspetiva de uma grande simplicidade. São ligados às cores do Algarve — o azul, o branco da cal. Criámos quase um sistema iconográfico que mostra que o importante é o que está dentro da garrafa, sem grandes ornamentos e com pouca decoração. Algo até puristas, diria. No fundo, é isso que o projeto é: recuperar vinhas autóctones, que muitos já tinham substituído por internacionais e recuperá-las para as colocar em garrafas bonitas e simples.”

Hoje já têm oito referências à venda. “Passámos de vender só em Lisboa, para chegar aos EUA, Inglaterra, França, Bélgica, Suíça, Suécia. Vendemos sempre para distribuidores ou projetos de pequena dimensão, mas que gostam de dar aos seus clientes esta maneira de fazer. Há aqui uma vontade de fazer bem, com amor, cuidado, sabedoria, sem escalar muito e sem perder mão do que é algarvio. Queremos respeitar e contar a história das castas importantes para a região. E claro, colocá-las em garrafas que estão a ser bebidas em duas estrelas Michelin em Nova Iorque.

Além dos vinhos, o Morgado do Quintão tem dois ou três projetos. Ali existem três “casinhas” hoteleiras, cada uma com piscina. “São bastante simples, muito bonitas. Até foram votadas pela Condé Nast Traveller como um dos 20 melhores hotéis do Algarve.”

Têm também um olival muito antigo, que querem recuperar. “Estou com muita vontade de lançar uma marca de azeite. Temos uma oliveira com dois mil anos. A última plantada foi há 50 anos. A pare deste, temos um projeto que me é muito importante. Um festival de música que acontece em outubro durante três dias e que junta a cultura à gastronomia. Achamos que estas casas grandes são feitas para receber muitas pessoas. Portanto, abrimos as portas para criar este momento de partilha e de proximidade.”

Por fim — mas só por enquanto, organizam provas todos os dias. As marcações são feitas online, segundo a disponibilidade. “Preparamos um almoço simples, de quinta, servido por baixo de uma oliveira milenar muito bonita.” A prova acontece depois, por volta das 16 horas.

Pode encontrá-la à venda na WOME.

Ali vai puder conhecer o Castelão 2019. “Esta é uma das castas portuguesas mais difundidas. Os vinhos Castelão que têm mais fama são da Península de Setúbal. O que poucos sabem é que,no Algarve, o Castelão foi plantado com muito vigor nos anos 60, 70, porque é uma casta muito produtiva. Aquilo que era feito antigamente, era fazer vinhos muito extrativos, vinhos pesados, que ficavam em barrica durante algum tempo. Eram vinhos com uma fruta persistente, mas que tinham um estágio em madeira que das duas uma: ou não existia de todo e acabavam desinteressantes, ou então existiam em demasia e só sabiam a madeira, sem elegância.”

“Aquilo que estamos a fazer é, com vinhas de 50, 60 anos, vindimamos mais cedo e ficamos com o que dizemos que é um Castelão um bocadinho em frescura, no sentido em que não vamos buscar estas notas de fruta madura, mas de fruta mais fresca. Depois estagia em barrigas de carvalho da Borgonha antigas, mais subtis. Nota-se que há um estágio, sim, mas o sabor da madeira não está à frente de tudo. Gostamos deste perfil mais leve, mas gastronómico de um Castelão e que, na verdade, é feito destas uvas de vinha velha que conseguem dar uma complexidade aos vinhos que as mais novas não conseguem”, explica.

Este trabalho que resulta numa referência que liga bem com pratos de carnes não tão pesados, como grelhados de carnes magras, queijos e frutos secos. “Tem uma capacidade de ser um vinho tinto mais de verão, que pode ser bebido a 14 graus em vez de 18”, assegura. Pode encontrá-lo à venda, por exemplo, na Wome, por 26.56€.

A seguir, carregue na galeria para conhecer outros vinhos que pode encontrar à venda no mesmo site. Aproveite para ler o artigo e descobrir mais sobre o projeto criado por um farmacêutico.

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