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Produtor de vinho de Leiria sobre os estragos: “A solidariedade é mais forte que o vendaval”

António Marques da Cruz, proprietário da Quinta da Serradinha, comenta os prejuízos causados pela depressão Kristin: "Há meio hectare de vinhas debaixo das árvores”.

A passagem da tempestade Kristin deixou um rasto de destruição em várias zonas do País, com particular impacto no distrito de Leiria. De acordo com um balanço preliminar da Associação Empresarial da Região Oeste, os prejuízos na região já ultrapassam os 20 milhões de euros.

Entre os muitos locais afetados está a Quinta da Serradinha, propriedade vinícola situada em Leiria. O estrago aconteceu na madrugada de quarta-feira, 28 de janeiro, quando foi atingida por ventos fortes. “Foi por volta das cinco e meia ou seis da manhã. Aqui na quinta, 95 por cento das árvores caíram ou ficaram partidas. Ficámos com cerca de 65 por cento dos caminhos completamente obstruídos e há meio hectare de vinhas debaixo das árvores”, conta o proprietário António Marques da Cruz, de 51 anos.

Produtora de vinho há cinco gerações, a quinta é um nome histórico da região de Encostas d’Aire, com vinhas plantadas desde 1952 e práticas de agricultura biológica certificadas desde 1994. Ali, são produzidos um rosé, dois brancos, um espumante e quatro tintos. Entre as especialidade da quinta, destaca-se o Castelão e o Baga, que podem ser adquiridos online.

Este último passa por um processo de envelhecimento prolongado de até sete anos antes de ser engarrafado e disponibilizado no mercado. A violência da tempestade Kristin, porém, colocou em risco o trabalho, mas não a determinação de António, que cuida da propriedade com apoio da esposa Joana Cartaxo.

Nas adegas e arrecadações, as telhas voaram, as estruturas de madeira correm o risco de cair e, por alguns momentos, estiveram sem água e eletricidade. A situação, segundo António, ainda exige prudência. “Nos trabalhos de recuperação ninguém vai arriscar. Pessoas já morreram assim. Temos de ter calma e cuidado com os acidentes”, sublinha.

O responsável, António Marques da Cruz.

“Os pinhais que sobreviveram ao incêndio de 2017 perderam-se agora. A minha previsão é que, para voltarmos à normalidade, vão passar muitos meses”, diz.

Com a noção de que a recuperação será longa e exigente, António ocupa-se agora a retirar as árvores caídas para conseguir salvar as vinhas. Nesta época do ano, habitualmente a equipa dedica-se à poda, para que as uvas possam crescer e desenvolver-se como planeado.

Sobre os prejuízos financeiros e a forma como a tempestade afetará a produção, o responsável diz que é cedo para avaliar, mas que os danos são significativos não só para ele, mas para muitas fábricas e negócios da região.

O impacto emocional da tragédia só é atenuado com a generosidade da comunidade, que tem sido um dos pilares neste momento difícil. “Felizmente, tem vindo muita gente ajudar de Sintra, de Lisboa. Já passaram por aqui cerca de 40 pessoas. Levam comida, ajudam a limpar. Vamos arranjando o que conseguimos. A solidariedade tem sido mais forte do que o próprio vendaval”, afirma.

O mau tempo causou, até ao momento, nove mortes em diferentes pontos do País. As vítimas morreram em circunstâncias distintas, incluindo a queda de árvores, de estruturas e acidentes durante reparações de telhados. Diante do contexto, o governo decidiu prolongar a situação de calamidade até 8 de fevereiro, visto que nos próximos dias ainda há previsão de chuva persistente, neve, vento e agitação marítima forte.

Carregue na galeria para ver as fotos da Quinta da Serradinha depois da passagem da tempestade Kristin.

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