“Eu nunca fui grande fã de peixe”, começa por contar Rafael Paulo. Quem o ouve, não imagina que hoje tem um projeto dedicado a provar peixes, mas em conserva. Em casa tem mais de uma centena de latas, que vai provando, analisando e avaliando nas redes sociais. Criou até um site onde lhes dá classificações, tal como quem prova vinhos.
Rafael, de 29 anos, nasceu em Portugal, mas cresceu no interior do estado de São Paulo, no Brasil, para onde foi com apenas 12 dias de vida. Estudou Marketing na UNESP, em Rio Claro, e acabou por regressar ao país natal em 2021, depois da pandemia, fixando-se em Lisboa. Pelo meio, fez voluntariado, abriu a própria agência de publicidade e começou também a dar formações no IEFP. Atualmente, trabalha em marketing na área desportiva, numa empresa de equipamentos de recuperação muscular.
O gosto por conservas começou de forma despretensiosa, por influência da namorada, Gabriella. “Ela começou a comer sardinhas em lata e eu não ligava muito. No interior do Brasil não havia grande variedade. Um dia fui ao supermercado e comprei todas as que encontrei”, conta.
Entre provas caseiras e alguma curiosidade, Rafael percebeu que havia ali um mundo inteiro por explorar. Rapidamente se transformou num ritual e também numa forma de se aproximar de Portugal, que visitava frequentemente. “Ia a Portugal de ano e meio em ano e meio”, conta. “Comecei por ver a sardinha como uma forma de ligar-me a Portugal, porque tinha sempre essa memória afetiva. Então, comecei a ligar a sardinha [peixe típico da gastronomia portuguesa] a esse sentimento, a essa saudade das minhas raízes”, diz Rafael.
Em janeiro deste ano, decidiu partilhar o gosto com o mundo, através da página de Instagram “Lata de Rafinhas”, onde avalia diferentes tipos de conservas. O que para muitos é apenas uma solução rápida de desenrasque na despensa, para ele tornou-se objeto de análise quase científica.
Atualmente, tem mais de 120 latas em casa, entre sardinha, atum, cavala e mexilhão, vindas de vários países. “Tenho marcas portuguesas, espanholas, italianas, algumas da Tailândia e até do Brasil. Há amigos que me trazem latas de viagens” como uma recordação, diz. Ao longo dos últimos meses, já provou (e avaliou) mais de 40 conservas diferentes.
Foi também nessa altura que decidiu começar a fazer vídeos para o TikTok e Instagram. “Pensei: vou testar o algoritmo. E resultou. As pessoas começaram a interagir, a dar sugestões, a enviar mensagens”, refere.
Apesar de ter começado com atum — “era uma comida de desenrasque” —, foi a sardinha que acabou por conquistá-lo. “A sardinha tem mais sabor. É um peixe mais gordo, mais interessante. O atum às vezes precisa de mais tempero”, diz.

O conceito foi ganhando identidade e Rafael decidiu até criar uma escala própria de avaliação. Assim nasceu o “sardinhómetro”, com uma pontuação de 0 a 5, que resume a sua opinião sobre cada conserva. “É totalmente subjetivo, mas tenho cinco critérios: preço, proteína, facilidade de abertura, estética e sabor”. Cada lata passa por esse filtro antes de receber a nota final.
Com o crescimento do projeto, surgiu também o site sardinhometro.pt, onde reúne todas as análises. Funciona como um registo e uma base de dados para quem o segue. “É uma forma de organizar tudo e de as pessoas acompanharem as avaliações”.
E há uma mudança que Rafael tem notado: a forma como as conservas são vistas. “Em Portugal ainda há muito a ideia de que é comida de desenrasque. Mas lá fora começa a ser diferente. Já é encarada como uma entrada, como um queijo ou enchidos. Uma coisa para partilhar. Para estares com amigos, enquanto bebes um copo”.
As conservas favoritas
Entre as marcas, há algumas que destaca. “A José Gourmet tem muita qualidade e variedade. Tudo o que provei até hoje é muito bom”. Também elogia a Santa Catarina, sobretudo nos atuns, e marcas mais recentes como a Fausto. “Gosto da forma como trabalham o peixe e da estética.”
Quanto às conservas preferidas, a lista é longa. Destaca as sardinhas com molho teriyaki da Porthos, as petingas da Fausto em azeite virgem extra e a cavala em molho de caril da José Gourmet. Mas há uma que guarda com especial entusiasmo: “A sardinha em manteiga dos Açores da José Gourmet é incrível. Metes a lata em banho-maria, fazes uma torrada, deixas a manteiga cair e depois colocas a sardinha por cima”.
Também não esquece as opções mais acessíveis. “As sardinhas sem espinhas da Ramirez surpreenderam-me bastante e, em termos de custo-benefício, as sardinhas em azeite do Mercadona são muito boas”.
O projeto continua a crescer, embora num ritmo mais controlado. “No início fazia um vídeo por dia, mas tornou-se insustentável. Agora quero continuar, mas de forma mais equilibrada.” O objetivo mantém-se: experimentar, comparar e partilhar.
No fundo, tudo começou com uma lata aberta por curiosidade. Hoje, já é um pequeno arquivo pessoal de sabores e um projeto que transforma um produto simples numa experiência com muito mais para explorar.
Para saber mais informações sobre as conservas provadas consulte o site do sardinhométro e a página oficial do projeto Lata de Rafinhas.
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