Gourmet e Vinhos

Sara Neto: a “tasco-dependente” com uma vida dupla dedicada à comida

Durante o dia trabalha como fotógrafa para uma retalhista multinacional. À noite, avalia restaurantes e partilha tudo com os seguidores.

Sara Neto tem 25 anos e já mudou de casa cerca de 18 vezes. Em todas as localizações, acabou por criar amizades e acrescentar uns quantos restaurantes ao portfólio. A fotógrafa de comida acabou por utilizar a experiência para criar uma página de Instagram, onde partilha sugestões de restaurantes e acumula muitos, muitos pratos provados.

A videógrafa tem mais de 40 mil seguidores no Instagram e quase 14 mil no TikTok. É nestas plataformas que publica sugestões de restaurantes, tascas e receitas, que deixam qualquer um a salivar. A ideia de criar o Tasco Dependente, nome dado ao projeto, nasceu da vontade “de estar em contacto com proprietários de restaurantes e chefs”, para conseguir visitar restaurantes e partilhar as suas paixões: fotografia e comida.

O conceito esteve guardado na gaveta durante cinco anos. Durante esse período, Sara recolheu diferentes conteúdos de espaços que visitava, com o seu dinheiro. Com um portfólio já composto, passou mais uns meses a decidir o nome e outros tantos “a ganhar coragem para avançar”. A página foi para o ar apenas a 21 de outubro de 2024, altura em que lançou o primeiro vídeo.

“Quando comecei a fotografar pratos, não sabia bem para que é que ia usar aquilo, mas sabia que um dia iria utilizar. Na altura que criei a página já tinha cerca de 50 restaurantes gravados, pagos com o meu dinheiro, para conseguir sustentar o projeto durante os primeiros meses. E depois, naturalmente, vão surgindo convites e as pessoas vão me conhecendo”, explica a fundadora de 25 anos à NiT.

Sara não quer ser conhecida como a “miúda das crónicas”. A direção tem mudado desde que começou e agora está focada em “construir uma comunidade”, onde pode ser honesta e ouvir as histórias das pessoas. “Estudei guionismo durante a licenciatura em Multimédia e Audiovisual e gosto imenso de ler, então acho que tenho juntado esse meu lado, ao vídeo, que é o meu veículo criativo e consigo criar conteúdos sinceros, que o meu público aprecia”, diz.

Destes dois anos de Tasco Dependente, a videógrafa, que trabalha a full time numa empresa de retalho alimentar, leva histórias e conhecimento. Sara confessa que tem aprendido muito sobre cozinha e restauração, uma área em que está envolvida desde os 15 anos, quando começou a servir às mesas.

O gosto pela comida

Sara Neto é natural de Lesmahagow, na Escócia. Mudou-se para Portugal, com os pais, quando tinha 10 anos. Embora no Reino Unido não existisse muito a “cultura da comida à mesa”, a jovem garante que o pai, português, e a mãe, escocesa, fizeram um ótimo trabalhar com ela e com as irmãs.

“Os meus amigos passavam a vida a comer chicken nuggets, batatas fritas e processados. Os meus pais tinham o trabalho de fazer coisas de raiz, tanto para as marmitas, como para os jantares. E isso é algo incomum na Escócia. Às 18 horas reuníamo-nos à mesa para jantar, um hábito que não existia por lá. Isto levou-me a perceber também que, por mais dificuldades que tivessem, a comida nunca faltava. E isso fez-me dar muito valor às refeições”, revela.

Na altura não existia também muito dinheiro para jantares fora. Ainda assim, Sara recorda-se de uma pequena tasca à beira mar, onde vendiam “marisco estupidamente barato” e dos poucos locais que tem saudades.

A videógrafa adora Portugal. Já viveu em São Martinho do Porto, na Praia de Mira e Porto Covo, antes se mudar para Lisboa. Atualmente divide-se entre o emprego a full time como fotógrafa numa retalhista multinacional e a criação de conteúdos para o Tasco Dependente. A logística é, no mínimo, cansativa.

“Entre os dois trabalhos, decido cerca de 15 horas diárias. No entanto, não chega aos calcanhares das horas que trabalhava como bartender, quando tinha 18 anos”, realça. Na altura, a jovem passava cerca de 20 horas de pé, a servir bebidas, para ganhar menos de três euros, por hora.

Embora se recorde dessa altura com alguma mágoa, para Sara foi essencial ter passado por algo do género. “Além do dinheiro, que queria juntar para as minhas coisas e consegui, este emprego preparou-me para o mundo do trabalho. Costumo dizer que toda a gente deve ter uma fase e trabalhar nem que seja uma semana em restauração. Só para saberem as coisas que as pessoas passam e começarem a valorizar mais as pessoas que lá trabalham. Porque é muito, muito, muito cansativo”, remata.

 

 

 
 
 
 
 
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Atualmente, o seu tempo já não é passado a servir às mesas, mas a fotografá-las,ou a saboreá-las. Dada a experiência já reúne um portfólio de favoritos, onde se destaca a Casa Expresso, no Porto, a Rampa em Lisboa, que encerrou este ano e a Penalva, na zona da Graça.

Em casa, adora fazer uma açorda de camarão, embora as redes sociais lhe tenham retirado algum do tempo para se dedicar às panelas e receitas.

Pelas escolhas conseguimos perceber o nome que deu à página de Instagram, onde se dedica a dar a conhecer muitas tascas. Porém, a curiosidade estende-se também às cozinhas de autor, fine dining e internacionais. “Escolhi Tasco Dependente, porque se tiver de escolher, gosto de visitar tascas, mas o meu conteúdo não é apenas sobre elas”, diz.

Em breve, os seguidores podem contar com visitas a “pérolas escondidas”, onde se “come bem e barato” e, talvez, uma visita ao restaurante Ofício, de Maurício Varela, que está na lista “há muito tempo”.

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