Gourmet e Vinhos

Se a carne à base de plantas é o futuro, preparem-se — vêm aí tempos difíceis

Provámos a nova carne feita com plantas e só comemos com os olhos. Foi um teste difícil, mas alguém tinha que o fazer.
É a nova marca no mercado

Dizem que é o futuro. Carne que não é carne, feita apenas com vegetais. Nenhum animal sofreu ou morreu para termos este hambúrguer no prato. O ambiente também terá, supostamente, agradecido. Se só há pontos positivos, como é que se pode dizer que não ao futuro?

É sob toda esta pressão que, às estantes do supermercado, vai chegando uma nova escolha para o consumidor: a da carne feita à base de plantas. Chegou como um conceito revolucionário, uma forma de animar a ementa de veganos e vegetarianos e de tentar ajudar a converter outros tantos carnívoros esmagados pelo peso da culpa e pela renitência em dizerem de vez adeus à carne.

A mais recente a chegar aos supermercados nacionais é a Future Farm, uma empresa brasileira que procura desbravar o caminho já trilhado por outras companhias como a Impossible Foods e a Beyond Burger. A promessa é semelhante: usar “tecnologia de ponta para criar carne de origem vegetal com o mesmo sabor, textura e suculência da carne de origem animal”.

Convenhamos: é uma promessa ambiciosa, mas se a ciência é capaz de travar uma pandemia com uma vacina em tempo recorde, quem somos nós para duvidar que é também capaz de substituir a carne por plantas, sem que nós demos por ela?
A marca, que começou a ser desenvolvida em 2019, demorou quase três anos a chegar até nós. Vende hambúrgueres mas também carne picada, almôndegas, salsichas frescas e até pedaços de frango (que, adivinhou bem, não é frango), todos apelativamente congelados e embalados.

Cada um desses produtos tem uma composição diferente, mas essencialmente assente em proteína de ervilha e de grão de bico, soja e, no caso da falsa carne de vaca, um toque de beterraba no lugar do sangue, para ludibriar os carnívoros arrependidos. “Sem aromas artificiais, sem glúten e sem organismos geneticamente modificados”, asseguram.

Pois bem, para casa trouxemos duas versões: os hambúrgueres ou Future Burger; e o frango ou Future Cick’n. O primeiro chega em embalagens de duas unidades com um peso de 230 gramas, sensivelmente, 115 gramas por hambúrguer. O segundo é uma espécie de peito de frango despedaçado em pedaços, também congelados, com um total de 160 gramas.

Se os olhos comem, eles devem estar devidamente vendados para esta primeira fase do processo. O tom acinzentado e pouco apetitoso desta “carne de vaca” não augura nada de bom e o mesmo pode ser dito do frango, que aparenta ser o resultado de um desastre espacial com comida pré-embalada para os habitantes da estação espacial internacional.

Poderíamos arriscar a cozinhá-los sem sequer espreitar as instruções, mas deixamos a arrogância de lado e colocámos toda a nossa confiança na tecnologia, nos chefs e nas escolas de cozinha que a marca garante terem desenvolvido e testado a receita. Tudo muito simples: é só temperar os hambúrgueres com os nossos “temperos preferidos”, pré-aquecer em lume médio uma frigideira e, com um pouco de azeite, cozinhar entre quatro a cinco minutos de cada lado.

Eis que no momento da revelação, isto é, da viragem do hambúrguer, o ceticismo começa a esmorecer assim que, daquele contacto miraculoso entre a “carne” e a gordura do azeite, surge uma aparente caramelização. O tom cinzento e adoentado deu lugar a um tom avermelhado e acastanhado, pontilhado com pequenos pontos de chamuscado e uma caramelização de fazer sorrir Louis-Camille Maillard.

A reação da proteína aconteceu e esse momento tão distintivo e revelador prometia um acontecimento épico. Será que sabe mesmo a carne? Mais cinco minutos do outro lado e segue para o prato, antes de dar a vez ao frango.

Se a “carne” havia sido temperada apenas com sal e pimenta, como ditam as regras, o frango teve direito a um pequeno extra: ao sal e pimenta juntou-se um pouco de curcuma e de pimentão. Vertido o azeite, aquecida a frigideira, saltearam-se os pequenos pedaços entre cinco a seis minutos. Tudo acompanhado de uma saudável dose de arroz, ovo estrelado e um par de cebolas novas no forno.

Até aqui, tudo bem.

A primeira questão: tal como os hambúrgueres de carne, será possível passar mais ou menos esta carne falsa? O teste do dedo e da resistência, o velho truque sem termómetros para aferir o ponto, não pareceu ser muito fiável. O primeiro corte revelou alguma resistência à faca e o interior assemelhava-se a um hambúrguer bem passado.

É um facto: no jogo das semelhanças, quem não souber de que se trata do último grito na gama das carnes falsas, poderá muito bem ser enganado. Só que a capacidade de camuflagem termina quando entram em ação as papilas gustativas — um problema, digamos, particularmente grave, quando o tema é comida que deve, para todos os efeitos, ser digerida.

O sabor acartonado é, infelizmente, o cumprir de todos os preconceitos que qualquer carnívoro reúne à partida quando é confrontado com este tipo de produtos. Cinzentão, banal, de textura seca que talvez só agrade aos hereges que preferem “a carne muito bem passada”.

Talvez haja uma forma de disfarçar este problema: devidamente embrulhado em picles, queijo, ketchup e pão. Pode ser que essa seja a única forma de esconder o pobre sabor desta carne. Visualmente? Impecável. A nível de sabor? Um desastre.

Era, então, a vez do frango. Se ignorarmos o facto de parecer um peito desmanchado à partida, o toque promete. A carne ganhou uma cor e uma aparente crocância no exterior. E efetivamente, o sabor parece ser superior ao do hambúrguer. Mas, calma.

Há um momento fatídico que nos trai e tudo acontece muito rapidamente no momento da primeira trinca. Sem nunca o ter experimentado, diria que a forma mais fácil de descrever a experiência, é o de mastigar uma pastilha elástica com o exterior crocante. O interior deste frango é borrachudo, menos resistente do que seria de esperar. Uma análise mais aproximada explica tudo: ao invés das fibras, o interior de cada pedaço é uma espécie de folhado ondulado de uma camada aparentemente elástica. Tudo o que não queremos encontrar no prato.

Se é verdade que os olhos comeram bem antes de dar lugar à ação das papilas, é também inegável que a promessa de replicar o “sabor e textura da carne” é claramente enganadora. Ou melhor: só não será enganadora para quem mantenha uma dieta à base de produtos congelados vendidos nas grandes superfícies.

Estes produtos podem muito bem ser uma alternativa mais saudável para quem consome esses ultracongelados que sacrificam o sabor e a saúde em prol da economia do tempo. Contudo, nenhum apreciador no seu perfeito juízo ponderará algum dia participar ativamente nesta troca.

É igualmente bizarro que nesta luta pela saúde e pelo ambiente, se continue a teimar apostar em replicar os sabores dos alimentos que, todos sabemos, temos que consumir cada vez em menor quantidade. Por que motivo precisam veganos e vegetarianos de substitutos de algo que escolheram não comer?

Mais: são cada vez em maior número os chefs que praticam uma cozinha assente em vegetais, que procuram as melhores formas de os cozinhar, de servir, de lhes potenciar o sabor que tantas vezes é ignorado. No prato em que servi estes hambúrgueres, estavam duas singelas e aparentemente simples cebolas novas.

Foram cultivadas e colhidas, vendidas a um preço relativamente barato. Um fio de azeite, uma pitada de sal e meia hora no forno foi tudo o que bastou para as tornar num petisco absolutamente delicioso. Ao seu lado, um par de hambúrgueres vendidos a mais de 20 euros por quilo (a embalagem de 230 gramas custa 4,99€) com um sabor high tech absolutamente desapontante. Acho que quanto ao futuro, estamos conversados.

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