Frederico Pombares cresceu a braços com uma enorme frustração olfativa. Enquanto os colegas de escola regressavam das férias com os carros carregados de sacos, malas e, sobretudo, aquele cheiro inconfundível a fumeiro, o comediante resignava-se à vida na capital, sem avós, com lareiras e alheiras avulso penduradas na despensa.
“Era um dos meus sonhos, poder vir com eles, com o carro com cheiro a fumo”, recorda.
Lisboeta de gema, sem aldeia de refúgio nem casa de família no interior, cresceu com essa inveja que mais tarde se transformaria numa obsessão assumida. Hoje, descreve-se sem rodeios como alguém “viciado em fumo”.
“É um dos cheiros que me faz parar em qualquer parte”, afirma. “Se já tiver almoçado e mesmo que esteja cheíssimo, se passar por um sítio com cheiro a fumeiro, paro e nem que meta os dedos à boca para poder ir comer o que cheirei.”
Foi dessa relação visceral com o fumeiro que nasceu a Pombares Fumeiro, a nova marca de enchidos tradicionais portugueses, com loja online, criada à imagem do paladar e das manias do humorista de 43 anos. Quando não está a escrever guiões, está a comer. Não há meio termo. Este destino era, relembra o próprio, inevitável. Cresceu numa casa onde cozinhar era coisa séria e abundante, com pratos pesados, ricos e demorados.
“A minha mãe cozinhava muito bem, mas o meu pai também. Quando a minha mãe não queria cozinhar, entrava o meu pai e fazia coisas ainda mais pesadas”, conta. Aos fins de semana, acordava com o cheiro do cozido à portuguesa a invadir a casa, sem hipótese de escapar: “Nunca poderia sair uma pessoa normal”.
A paixão intensificou-se com a idade, com a possibilidade de viajar e de comer fora. Frederico tanto se entusiasma com uma tasca perdida no Alentejo como com um restaurante com estrela Michelin. Essa curiosidade constante levou-o a criar uma relação de confiança com os quase 50 mil seguidores, que passaram a recorrer às suas recomendações gastronómicas. Mas a ideia de criar uma marca de fumeiro já o atormentava há muito mais tempo. O problema era logístico.
“Sempre foi o sonho da minha vida mas para isso precisaria ter uma salsicharia que alinhasse comigo.”
O momento decisivo surgiu de forma inesperada, através do Instagram. Num daqueles desafios lançados aos seguidores, perguntou o que achavam que poderia ser a profissão dele, caso nunca tivesse seguido o ramo da comédia. Entre as muitas respostas, houve uma que lhe prendeu a atenção: alguém dizia que o imaginava a criar uma linha de enchidos. Frederico respondeu de forma honesta. “Esse sempre foi o meu sonho”, atirou.
Minutos depois, surgiu outra resposta, desta vez de Luís Garcia, dono da salsicharia que hoje produz os produtos da marca. “Podemos pensar nisso.” A reação foi imediata: “Só não chorei porque tinha pessoas à minha volta.”

O projeto começou a ganhar forma há menos de um ano. A estrutura produtiva já existia, o que acelerou o processo, mas a burocracia acabou por atrasar o lançamento da loja online, inaugurada apenas em novembro. Antes, chegaram a vender por email, tal a curiosidade e a insistência dos seguidores.
A Pombares Fumeiro procura reunir numa só marca os melhores enchidos portugueses, afinados ao paladar do humorista, numa lógica de evitar ter que andar a comprar uma morcela aqui, uma alheira acolá. Uma experiência que trouxe diretamente dos tempos de pandemia.
“Esse foi o lado bom da Covid”, explica antes de pausar. “Bem, o meu pai morreu com Covid, por isso não é uma frase que possa dizer com muita ligeireza”, acrescenta, numa explicação sobre como é que o fecho das lojas potenciou a venda online e trouxe até nossa casa verdadeiras joias escondidas da produção artesanal.
Em casa, mantinha sempre duas arcas verticais cheias de enchidos. “Começou a ser uma doença”, nota. Mandava vir fumeiro de todo o País, comparava, experimentava, afinava gostos. Foi aí que percebeu que podia transformar essa obsessão num negócio. .
A verdade é que a pandemia foi também uma espécie de fatalidade para o anterior projeto gastronómico de Pombares, o Lés a Lés, restaurante que abriu e encerrou em Lisboa, no Campo Pequeno. Nasceu com um conceito ambicioso de um menu de degustação com 15 a 17 pequenos pratos, cada um em representação de uma região do País, pensado sobretudo para turistas.
A ideia era mostrar que a gastronomia portuguesa não se resume ao que se come em Lisboa. Com as fronteiras praticamente encerradas e uma queda abrupta no número de visitantes, o projeto fracassou. Mas como não é homem de desistir, contra-ataca com outra das suas paixões.
Na Pombares Fumeiro, toda a produção é artesanal, feita por Luís Garcia e pela mãe, a dona Fátima, numa salsicharia certificada de Montemor-o-Novo. Frederico só não faz os chouriços, mas está envolvido em praticamente tudo o resto. “Isto dá-me mais trabalho do que o meu trabalho”, confessa.
Na loja online encontram-se produtos como o chouriço de carne (4,75€), a farinheira (2,20€), a morcela alentejana (3,90€), o painho (8,35€) ou o lombo fumado fatiado (3,90€), além das versões de porco preto, como o chouriço de vinho (6,80€) ou a morcela alentejana (4,50€). Para quem quer começar pelo essencial, existe a Box de Experimentação (42,15€).
O produto de que mais se orgulha, porém, está prestes a chegar: a barriga de porco perfumada, curada com alho, louro e pimentão. “É uma coisa mesmo artesanal, mas com muito sabor.”
Em paralelo, Pombares tornou-se também uma referência informal na recomendação gastronómica. Entre a hashtag #dizquevaisdapartedopombares, a rubrica Pombarejar e o serviço que descreve como o seu “OnlyFans da comida”, por estes dias assume que é mais vezes reconhecido por isso do que pela comédia. “Há pessoas que nem sequer sabem a minha profissão, que sou o gajo da comida”, brinca.
O futuro passa por crescer sem perder autenticidade e por ideias que só alguém com esta obsessão poderia ter. O próximo passo? Criar um ambientador para carro com cheiro a fumeiro, para que nenhuma criança passe pelo trauma de não ter um refúgio natalício nas Beiras e não poder passar três horas no banco de trás, entre o quente e pungente aroma de um saco de alheiras.
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