Gourmet e Vinhos

Tereza Paim, a chef baiana veio a Portugal fazer uma festa de sabores

Aos 61 anos, a brasileira traz a Lisboa e Cascais o Tempero Brasil, festival gastronómico que imaginou há 21 anos.
Tereza Paim conhece os sabores melhor do que ninguém

Tereza Paim é uma das grandes embaixadoras da comida baiana e brasileira. A chef de 61 anos remete, contudo, para o início de toda esta aventura a chegada dos portugueses ao Brasil, precisamente naquele que é hoje o estado da Bahia.

“A cozinha baiana é a primeira cozinha do Brasil. O povo brasileiro formou-se da fusão do português que se juntou com os índios e com os africanos”, conta a NiT, antes de explorar o evento que, por esta altura, a levou a deixar a sua cidade de Salvador e a viajar para Lisboa e Cascais. É essa fusão que está, inevitavelmente, também na origem do Tempero Brasil, a festa gastronómica-cultural que ajudou a fundar há 21 anos.

“O festival nasceu quando eu comecei a cozinhar. Sobretudo porque sentia que as pessoas não davam valor à cozinha regional. Só davam valor ao que era de fora”. Pelas suas mãos, desenhou um festival que ajudasse a virar o foco para os produtos e ingredientes locais, para a valorização das receitas clássicas. Começou por destacar os produtos, juntou-lhe a música, a cultura baiana. Dinamizou a Praia do Forte e, quando mudou o seu restaurante para a capital Salvador, o Tempero Brasil foi atrás.

“O propósito foi sempre o de edificar e valorizar a comida típica. Sentimos o efeito do evento, uma valorização muito forte do que chegava à mesa do cliente. Os profissionais também passaram a ser vistos. Trouxe uma melhoria incrível.”

Ao fim de 21 edições, Tereza Paim vê claras diferenças. “Vejo casas com 40 anos de cozinha regional que mudaram a sua apresentação, têm uma maior ligação à cultura. Trabalhou-se muito e sinto que houve uma grande influência desse meu posicionamento”, confirma. “Acredito muito nisso, acho que fiz escola.”

Agora, ao fim de mais de duas décadas, o Tempero Brasil viaja até Portugal, mais concretamente até Lisboa e Cascais. O festival arranca a 11 de novembro e dura até ao dia 20 deste mês. Às mesas de seis restaurantes — escolhidos numa curadoria partilhada entre Tereza e o seu velho amigo e ícone da cozinha portuguesa, o chef Vítor Sobral —, vão chegar seis pratos criados sob o tema “Brasil e Portugal — Uma Mistura de Sabores”.

Os chefs de cada um dos restaurantes foram desafiados a imaginar criações que, durante dez dias, estarão disponíveis na carta. Entre os convidados está O Boteco, do chef Kiko, o Lota da Esquina, o Tasca da Esquina, o Palaphita, o Quiçá! e o Dali Cozinha Surreal.

A moqueca de camarão e bacalhau criada por Vítor Sobral para o festival

A ideia de fazer viajar o festival até Portugal foi, para Tereza Paim, perfeitamente natural. “Temos uma ligação cada vez maior entre Brasil e Portugal. Quase que somos uma coisa só, a irmandade afirma-se cada vez mais”, explica. “Todo o mundo se sente em casa e, então, este é um palco maravilhoso para falar de gastronomia, dessa fusão, porque a cozinha brasileira de raiz nada mais é do que uma fusão do português com o índio e o negro.”

Aos que quiserem experimentar o Tempero Brasil, podem esperar “um mergulho na cultura brasileira” que, refira-se, não assenta apenas na gastronomia. “Temos a cultura, a música, que é um vetor muito importante, sobretudo na Bahia. E, claro, teremos os sabores da Bahia. Quem é do Brasil e está cá, vai matar saudades. Quem é daqui e nunca foi ao Brasil, vai conhecer um pouco dessa fusão.”

Sobre os pratos criados pelos chefs portugueses, assegura que “estão bem ligados com a cozinha baiana e brasileira”. “A comida tem disso, leva-te para um lugar que não conhece”. E acrescenta: “É uma oportunidade para o Brasil se mostrar. E os portugueses, quando chegam a nós, é sempre uma festa.”

A festa não se faz apenas à mesa dos restaurantes. Vítor Sobral e Tereza Paim serão os anfitriões de um show cooking que irá decorrer na Casa Brasil Centenário — no número 12 da Avenida da Liberdade, em Lisboa —, a 12 de novembro, pelas 16h30. Apesar de gratuita, a participação exige inscrição prévia.

No dia anterior, sexta-feira, 11, haverá ainda oportunidade para assistir a um show cooking só com Tereza Paim, que irá falar sobre a herança africana da Bahia e, claro, cozinhar um bobó de camarão.

“Lá na Casa Brasil vamos fazer uma grande demonstração de produtos brasileiros e, além das duas aulas, uma dada por mim e outra em conjunto com o Vítor Sobral, também está planeada uma degustação de farofas”, explica. “E vamos ter música, design e artesanato. Visitar o local é visitar o Brasil.”

O objetivo, esse, mantém-se o mesmo que motivou a criação do Tempero Brasil há 21 anos: o de enaltecer e fazer perdurar os sabores únicos da fusão que teve início há mais de 500 anos. “Eu digo sempre que vou morrer um dia, mas a moqueca não, o bobó de camarão também não. Vamos eternizar esses sabores.”

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