Há mudanças de vida cuidadosamente planeadas durante meses. E depois há as que acontecem de forma impulsiva, guiadas pelo sofrimento. Foi precisamente assim que Paul Lane, britânico de 33 anos, mais conhecido por The Great British Tuga, trocou Birmingham por Lisboa em 2021.
Na altura, tinha uma vida estável no Reino Unido. Trabalhava, estava noivo e preparava-se para dar o passo seguinte na relação. Até que tudo ruiu. “A minha noiva traiu-me e eu fiquei muito mal. Entrei em desespero. Comecei a beber para esquecer a dor. Numa noite de loucura, comprei um bilhete só de ida para Lisboa. E ainda cá estou”.
A escolha do destino não teve qualquer romantismo nem ponderação. Não havia uma paixão antiga por Portugal, familiares à espera ou sequer uma lista de locais para visitar. Foi uma decisão totalmente impulsiva. “Portugal foi literalmente o primeiro voo que encontrei. Não sabia nada do País, não tinha qualquer relação, a única coisa que sabia em relação a Portugal é que era o País de Cristiano Ronaldo, nada mais.”
Quando aterrou em Lisboa trazia apenas uma mala, uma dose de coragem e cerca de dois mil euros na conta. O plano era simples: tentar a sorte durante algumas semanas. “Pouco depois que cá estar decidi que se arranjasse emprego antes do dinheiro acabar, ficava por cá, caso contrário voltava para casa. Depois de um mês arranjei um emprego na minha área, IT e Tech, na Fujitsu”.
A aposta correu melhor do que imaginava. O que começou como uma fuga emocional transformou-se numa nova vida. “De início a minha mãe ficou zangada comigo, mas a partir do momento em que arranjei emprego ficou mais descansada e aceitou bem a minha mudança de país”.
Os primeiros tempos foram passados num quarto alugado na zona do Rato, em Lisboa. Mais tarde mudou-se para a Margem Sul, onde encontrou o lugar que hoje considera casa. “Moro num apartamento em Almada. Gosto muito deste lado do rio”.
Foi também em Portugal que encontrou uma forma inesperada de reinventar a sua vida profissional. Em setembro de 2024 ficou desempregado e voltou a atravessar um período complicado. Em vez de se deixar abater, decidiu criar conteúdos para as redes sociais.
“Enquanto procurava trabalho, no meio de muitas rejeições de emprego, decidi, inspirado num britânico que descrevia os seus dias na Tailândia, começar a contar como era a minha vida aqui em Portugal. Comecei pelo TikTok, com vídeos de comparação entre preços nos supermercados de cá e do Reino Unido, com explicações sobre as diferenças salariais”, conta à NiT.
“A seguir, passei o The Great British Tuga também para o Instagram, onde tem quase 50 mil seguidores. A minha conta cresceu depois do Luís Pedro Nunes, no seu programa da SIC Radical ‘Irritações’, ter mostrado um vídeo meu.”

O crescimento foi quase imediato. Os vídeos começaram a acumular visualizações e seguidores curiosos por conhecer o olhar de um britânico sobre o quotidiano português. “Foi depois disso que me foquei nos vídeos a experimentar comida típica portuguesa, que na minha opinião é uma das melhores do mundo.”
A gastronomia nacional tornou-se o tema central dos conteúdos publicados na página The Great British Tuga. E há dois pratos que ocupam um lugar especial no seu coração. “Francesinha e choco frito são para mim os melhores petiscos portugueses”.
Entre restaurantes, mercados e tascas, Paul acabou por descobrir muito mais do que boa comida. Encontrou uma qualidade de vida que não estava à espera. “Adoro morar em Portugal, sei que são clichés, mas o que mais gosto é do tempo e da comida. E das pessoas, muito acolhedoras”.
Cinco anos depois daquela decisão tomada numa noite de desespero, o britânico garante que a ferida emocional ficou para trás. “Curei o meu coração partido. Já tive algumas namoradas, mas de momento estou solteiro.”
E não pensa regressar ao Reino Unido. “Planeio ficar cá a viver. A minha mãe vem visitar-me com alguma frequência e adora, afinal são férias grátis para ela”, brinca.
Hoje, olha para trás e vê Portugal como muito mais do que um destino escolhido ao acaso. Foi o país que lhe permitiu recomeçar quando sentia que tinha perdido tudo. “Costumo dizer que vir para Portugal me salvou, quando apanhei aquele avião em 2021 e o The Great British Tuga também, pois ajudou-me a não entrar em depressão quando fiquei desempregado.”








