Gourmet e Vinhos

Vitor Hugo, o sommelier de cerveja que foi considerado um dos melhores do mundo

Trabalha na Nortada, no Porto. Em 2013 a sua vida mudou por completo após beber uma cerveja belga.
Apaixonou-se por cerveja após beber uma proposta belga.

Durante os anos de universidade, a cerveja era uma bebida que tomava unicamente em convívios com amigos. Quando tinha 18 anos, Vítor Hugo Meirelles nunca pensou que seria considerado um dos melhores beer sommeliers do mundo. Ao início não era grande apreciador, mas com o passar do tempo foi-se acostumando ao travo amargo da bebida. “Nós gostamos imediatamente ou de coisas doces ou salgadas. Mas aprendemos a gostar do que é amargo e ácido”, conta à NiT. Agora com 33, ficou no top 8 da sétima edição do concurso mundial de sommeliers, que decorreu em Munique a 11 de setembro.

É um carioca de gema. Nasceu no Rio de Janeiro e cresceu na cidade de Nilópolis. Era técnico industrial, percurso profissional que mudou por completo em 2013, ano em que provou uma cerveja belga, a Duvel. “Era muito particular. Loira, cristalina, tinha 8,5 por cento de álcool e era super frutada. Muito diferente daquelas a que estava acostumado”, recorda.

Desde então que a paixão pela bebida fermentada só aumentou. Em 2016 fez um curso de sommelier no Rio, no Instituto da Cerveja Brasil (ICB) onde aprendeu principalmente teoria sobre os diferentes tipos de cerveja e a sua história. Dois anos depois tirou uma formação de tecnologia cervejeira, também no ICB. Este já era mais prático e voltado para as diferentes etapas da produção.

Veio para Portugal em 2019, onde começou a trabalhar no bar Gulden Graak Bierhuis Porto. Infelizmente, a pandemia do ano seguinte trouxe vários problemas. Com os confinamentos que se prolongaram por meses, viu-se forçado a abandonar o emprego no final de 2020, porque não conseguia ser incorporado no quadro de funcionários.

Em 2021 começou a trabalhar no Nortada. Ali, Vítor tem diferentes funções. “Faço provas, degustações, sou o responsável pelas visitas à fábrica e sou curador da loja online. Vou começar a criar alguns packs com cervejas da Nortada e não só”, explica. Também organiza eventos e dá formação aos novos funcionários.

Mas afinal, o que é um beer sommelier? É, no fundo, um especialista em cerveja. “É algo muito recente até em países onde há muito cultura cervejeira, como Bélgica e Alemanha. O primeiro curso foi inventado em 2004, em Munique”, conta. É muito parecido aos tradicionais sommeliers de vinho. Ajuda o consumidor a entender melhor as cervejas e os diferentes estilos, que são cerca de 140. O seu objetivo é só um: “Fazer com que as pessoas comecem a perceber que a cerveja também é gastronomia e pode estar à mesa, tal como o vinho”.

Ao longo dos anos foi adquirindo algumas favoritas. Destaca o Belgian Dubbel, o Belgian Dark Strong Ale, Barley Wine e Imperial Stout e a Weizenbock. Apesar de serem produzidas em países diferentes, partilham algumas características: têm um maior teor alcoólico (entre 7,5 a 12 por cento), são mais escuros, com notas tostadas a caramelo, chocolate e café e notas frutadas.

O seu talento e experiência foram postos à prova no Campeonato Mundial de Beer Sommeliers, organizado pela Doemens, uma espécie de escola de cervejeiros. Vítor Hugo Meirelles representou Portugal na competição juntamente com Teresa Sampaio, da Sagres, mas apenas ele chegou à final. O concurso é bastante rigoroso e exige mesmo muito conhecimento.

Tem quatro fases diferentes. “A primeira prova é um exame de identificação de estilos de cervejas. Todos os competidores recebem dez amostras e cada copo tem uma cerveja diferente”, aponta. Depois, recebem uma folha com 30 possibilidades de tipos diferentes à qual têm de associar cada copo — tudo isto em apenas 45 minutos.

Segue-se um teste de escolha múltipla com 20 questões e uma particularidade que poderia ter sido uma grande ajuda nos nossos tempos de escola: “por vezes, existe mais do que uma alternativa correta”, refere Vítor. “Por último, tivemos uma prova em que tínhamos de identificar os defeitos de uma cerveja que provávamos.” Os sommeliers que dominam aquela arte conseguem perceber quando uma certa nota ou aroma não deve estar presente na proposta apresentada.

As provas começaram com 82 concorrentes de 18 países, mas apenas oito chegaram à fase final, após contarem todos os pontos obtidos. O sommelier que agora vive no Porto foi um dos selecionados, e o teste que o esperava não era, de todo, fácil. “Recebemos uma cerveja quando subimos ao palco e tivemos cinco minutos para falar sobre a sua história para uma plateia de 200 a 300 pessoas que também tinha meios de comunicação social, canais de televisão e um júri de seis mestres cervejeiros.”

A ele calhou-lhe a Fuller’s ESB, de Londres. Além de contar a história da bebida, fez uma análise sensorial, explicou os aromas e sabores, sugeriu combinações com comida, tudo de forma descontraída e cativante, de modo a criar um momento de storytelling. “Harmonizei aquela cerveja com bifanas e essa escolha foi muito elogiada”, revela.

A sua posição exata não foi revelada, apenas sabemos que ficou no top 8 do mundo. Em primeiro lugar ficou o suíço Giuliano Genoni, seguido de Felix Schiffner (Áustria), em segundo, e Léon Rodenburg (Países Baixos), em terceiro.

Carregue na galeria para conhecer alguns spots de Lisboa onde pode provar cerveja artesanal.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT