Gourmet e Vinhos

Jamon: o chef português que avalia produtos de supermercado sem papas na língua

Tiago Amorim já trabalhou no melhor restaurante do mundo. Atualmente, partilha as suas opiniões no Twitter — com muito humor.
É um sucesso nas redes sociais.

“10/10, mamava outra vez”. Se passa horas a fio no Twitter, provavelmente já se cruzou com uma publicação que incluía estas palavras. A expressão presta-se a outro tipo de interpretações, mas não se trata de conteúdo para adultos. É apenas uma review muito positiva de Tiago Amorim.

O chefe Jamon, como é conhecido na rede social, já conta com mais de 37 mil seguidores, um sucesso que surgiu inesperadamente. Diariamente, faz críticas a diferentes produtos de supermercado (e não só).

Tal como o nome de utilizador dá a entender, não é apenas crítico gastronómico. “O gosto pela culinária foi-me passado pela minha mãe quando era pequeno”, conta à NiT. “Na altura, eu e o meu irmão gémeo éramos os provadores e rapadores oficiais de tudo o que se fazia lá em casa“, acrescenta.

A mãe adorava cozinhar e fazia bolos todas as semanas, embora não os comesse — os filhos é que os devoravam, portanto. Quando Tiago, agora com 39 anos, acabou o nono ano, recomendou -lhe que fosse para a Escola de Hotelaria e Turismo de Santa Maria da Feira. O natural de Gondomar achava que a escola ficava longe demais e não estaria perto dos amigos. Optou por continuar no ensino secundário.

Quando o concluiu, inscreveu-se na licenciatura em marketing no Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto (ISCAP). Não terminou o curso porque, conta à NiT, aquela era a sua última opção. O que queria mesmo era fazer algo relacionado com áudio e vídeo e foi assim que, entre 2005 e 2006, frequentou um curso de multimédia.

Quando este chegou ao fim, andou um pouco sem rumo. Chegou a trabalhar na zona de carga do aeroporto e foi professor de informática em escolas primárias — profissão que, curiosamente, adorou. “Os miúdos gostavam muito de mim”. Era o “professor fixe” que punha os alunos em primeiro lugar. Lembra-se que durante as férias da Páscoa, muitos continuavam a ir para a escola porque os pais estavam a trabalhar e não tinham ninguém que tomasse conta deles. “Cozinhava com eles. Chegávamos a fazer bolachas e pipocas e depois víamos o ‘Shrek'”, recorda.

Em 2010, depois da experiência como professor, começou o curso de gestão e produção de pastelaria na Escola de Hotelaria e Turismo do Porto, que terminou 2012. Ali surgiu uma oportunidade que muitos cozinheiros cobiçam: um estágio curricular no Noma, um dos melhores restaurantes do mundo. “Tínhamos a opção de aceitar um estágio que a escola nos propunha ou de procurarmos nós mesmo por alguma coisa”, explica.

Jamon decidiu arriscar e enviou um email para o Noma. Para sua sorte, o restaurante dinamarquês estava à procura de empregados. Viajou para a Dinamarca com dois colegas, e lá ficou durante três meses. Ficou responsável pelo mise en place, ou seja, preparava tudo para que depois os chefs pudessem cozinhar.

As suas tarefas incluíam limpar vieiras, tirar as folhas do tomilho, fazer pétalas de rosa em papel vegetal, limpar sapateiras com pinças, entre outras. “Chegava a uma altura em que era aborrecido, mas quando recebíamos trabalhos novos ficávamos todos contentes.” Naquela altura colaborava com cerca de 50 outros estagiários de diversas partes do mundo. “Os espanhóis eram os mais fixes. Tínhamos uma ligação maior porque vivíamos em países vizinhos”, recorda.

Já os americanos “eram os mais manhosos”, descreve. “Não eram tão camaradas. Apesar de serem estagiários como os outros, faziam coisas para nos sabotar e também eram um pouco egocêntricos”, refere. Já tinham alguns anos de experiência e, por isso, olhavam com desdém para os novatos.

Quando o estágio terminou, regressou a Portugal. Seguiram-se trabalhos em pastelarias portuenses e num hotel, sendo este o último emprego que teve na área da restauração. Em 2018 trabalhou numa empresa de informática, onde estava encarregue de fazer upgrades às placas de memória RAM dos computadores. Ali esteve durante cerca de três meses.

Sensivelmente na mesma altura, começou a fazer publicações online, especificamente no Instagram. “Um dia que tinha voltado para casa mais cedo do trabalho, tirei fotografias à comida e partilhei”, recorda. Antes disso, porém, já tinha alguns fãs no Reddit, onde começou a fazer posts há cerca de dez anos.

O sucesso nas redes sociais

O username que usa atualmente, Jamon, é uma derivação daquele com que se apresentava nessa rede social — Forever Jamon. “Comecei por fazer publicações de receitas acompanhadas por imagens e com um título humorístico. Atraíam muitas pessoas. Quem frequenta o Reddit português sabe que quando um post tinha entre 100 e 300 upvotes já era um sucesso.” Por ali, ganhou alguns prémios: foi considerado o melhor utilizador português em três anos consecutivos. “Era uma distinção votada pelos outros utilizadores”, aponta.

Apesar de ter alguns seguidores, sabia que o alcance ali era limitado. Afinal, não é como um Facebook ou Instagram onde as publicações de terceiros podem ser partilhadas nos nossos perfis. E como a edição de vídeo é outra das suas paixões (é essa a sua profissão atualmente), decidiu arriscar também no YouTube.

No canal que já conta com quase 20 mil seguidores, partilha as suas receitas em vídeos curtos e com muito humor — bem como um tipo de edição que raramente se vê nos vídeos de culinária. Daquela plataforma seguiu para o Instagram, e, há cerca de uns meses, apostou no Twitter, onde tem mais de 20 mil seguidores — é a rede social onde faz mais sucesso.

“Estava no Twitter desde 2017, mas só usava a minha conta para seguir outras pessoas. Há uns meses comecei a apostar mais nisto”, revela. Por ali faz críticas a produtos de supermercado e a pratos de restaurantes, mas tudo começou por mero acaso. Estava em casa com a companheira (Angélica) e com o filho de três anos (João) quando mandou vir uma francesinha através de uma plataforma de delivery. Quando a refeição chegou, viu que o molho vinha numa garrafa de Água das Pedras. “Publiquei uma crítica com a fotografia no Twitter e tive muitos gostos. Os números começaram a crescer e percebi que aquele era o tipo de conteúdo que devia fazer.”

Os pratos que avalia variam consoante o que come no dia a dia. Enquanto falávamos, disse-nos que ainda não tinha almoçado e que estava a pensar ir ao Burger King experimentar o novo hambúrguer com Doritos. “É tudo um bocado aleatório”, realça. Também é comum provar produtos de supermercado que, por vezes, as pessoas têm medo de comprar (podem não gostar e, depois, gastaram dinheiro em vão).

As suas reviews contam sempre com um lado sério, onde apresenta os seus argumentos num estilo profissional e, no fim, acrescenta um ângulo cómico. Quem conhece a sua conta já percebeu que “mamar” é um dos seus verbos favoritos, e aparece em todas as suas críticas. “Uso muito a palavra no meu dia a dia. Foi algo natural.”

A expressão rapidamente foi adotada por muitos outros utilizadores do Twitter. “Ainda hoje vi um post da PSP onde tinham uma daquelas mesas com as notas e as drogas que confiscaram. Nos comentários estava um tipo a dizer ‘8/10, guardava o guito e mamava tudo’. Achei aquilo muito engraçado.” É como Oscar Wilde disse: ‘A imitação é a forma mais sincera de elogio’.”

Os três supermercados que frequenta habitualmente pertencem às cadeias Lidl, Aldi e Mercadona. São os que estão mais perto da sua casa, mas não recusa a ir a todos os outros. Das muitas coisas que já provou, há algumas que se destacam. “Os croquetes de carne do Lidl nunca falham”, aponta. Uma preferência que partilha com o filho. “Ainda esta semana o Joãozinho jantou croquetes e sopa.”

O pequeno de três anos também já mostra queda para a cozinha (tal pai, tal filho, portanto). “Hoje de manhã chegou atrasado à creche porque quis espremer a própria laranja para fazer o sumo. E há uns tempos fomos a casa dos meus pais e ele queria fazer tudo quando eu estava a preparar uma torta de laranja”, recorda.

Também é comum vermos o João, ou Jamonzinho — como Tiago carinhosamente o trata —, nos vídeos que partilha no Instagram. Daqui a uns anos, o pai espera que ele possa realmente ajudar mas, por enquanto, ainda está a aprender os básicos. “Quando parte ovos atira-os para dentro da taça e depois é que tira as cascas. Não é o mais prático, mas funciona”, brinca.

Um dos sonhos de Tiago é ter um programa de televisão: gostaria de andar por Portugal a provar diferentes pratos e, tal como faz nas redes sociais, criticá-los de forma humorística. Graças ao YouTube, já está acostumado às câmaras. E também participou em “Faz-te Chefe”, um concurso do 24 Kitchen, de onde saiu vitorioso.

Há cerca de um ano, o canal de televisão fez um post no Instagram onde anunciavam um passatempo que estava aberto a todos. Os participantes tinham de preparar um prato e enviar o link de um vídeo no YouTube onde o confecionavam. Entre 150 candidatos, foram escolhidos cinco. “Fui um deles”, diz orgulhoso. “Tive de ir a Lisboa para participar na segunda fase.”

Nesta, o Chefe Jamon teve de preparar uma refeição utilizando os produtos de um cabaz surpresa. “Fiz um risotto de cogumelos com peitinho de frango recheado com alheira. Depois o público votou no favorito e acabei por ganhar.” O prémio? A possibilidade de criar mais conteúdo para o canal online do 24 Kitchen.

Tiago acredita que Portugal precisa de alguém como ele: uma pessoa que apresenta receitas fáceis de recriar, com uma dose de humor pelo meio. “Gosto de ver o Sá Pessoa a cozinhar, e ele fá-lo muito bem, mas não há muita ligação com o público. Se houvesse alguém como eu na televisão, a cozinhar e ensinar, era capaz de cativar as pessoas a experimentarem diferentes pratos mesmo que não gostem de cozinhar”, aponta. “Se algum canal de televisão estiver interessado, estou disponível para receber uma chamadinha”, conclui o Chefe Jamon entre risos.

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