Há um restaurante em Lisboa onde só chega quem já conhece bem o caminho ou quem tem a sorte de ter caído na onda do passa-a-palavra de bons sítios para almoçar na cidade. Chama-se A Cozinha do Miguel e fica dentro do Clube São João, com campos de ténis e padel, na zona das Laranjeiras. Com pratos tradicionais e menus escritos à mão, “se não marcar, é quase impossível arranjar mesa”.
O aviso é de Filipa Marques, mulher de Miguel Fernandes, de 53 e 56 anos, casal que fundou o espaço em 2019. Ele na cozinha, ela na sala, hoje são as caras e a alma do negócio, que conseguiu ganhar clientes fiéis que enchem a sala diariamente. “Isto é um restaurante familiar. Conhecemos quase toda a gente que vem cá”, conta Miguel à NiT.
Discreto por fora, mas acolhedor por dentro, tornou-se uma espécie de segredo aberto entre clientes habituais. Quem não conhece, passa ao lado, sem saber que junto aos campos desportivos — e após subir umas escadas que, à primeira vista, parecem não levar a lugar nenhum —, encontra um dos melhores restaurantes da zona.
O percurso de Miguel, porém, não começou na restauração. Trabalhou vários anos na área da gestão, mas a paixão pela cozinha falou mais alto. “As almoçaradas e jantaradas eram sempre por minha conta. Os amigos diziam-me que tinha de abrir um restaurante”. O facto de gostar de conviver, conhecer novas pessoas e conversar à volta da mesa valeu-lhe boas histórias.
Uma delas envolve duas das maiores figuras do rock e do grunge dos anos 90. Sempre acompanhado pela mulher. “Em 1992, estávamos num bar na Avenida 24 de Julho quando entraram dois tipos. Eu nem reparei, foi a Filipa que me disse quem eram: Kurt Cobain e Dave Grohl”. A noite acabou em festa. “Ficámos ali seis ou sete pessoas. O Kurt passou a noite a meter música atrás do balcão. Foi um momento único.” Em 1994, o vocalista dos Nirvana morreria e a banda terminava.
Antes de abrir este restaurante, Miguel teve um espaço na zona do Rato, depois uma loja em Campo de Ourique onde vendia a famosa bola de cozido. Em 2019, decidiu avançar com o atual projeto, pouco antes da pandemia. “Durante a época de Covid-19 continuei aberto em take-away. Não podia parar”, confessa.
Filipa, por outro lado, vinha de uma carreira na comunicação e chegou a ser diretora de marketing de um banco. Acabou por juntar-se ao marido no negócio. “Eu estou mais na parte das relações públicas”, explica.

N´A Cozinha do Miguel, a ementa muda todos os dias e é sempre escrita à mão — uma marca da casa que chegou a desaparecer e voltou por pressão dos clientes. “Tentámos deixar de ter a ementa manuscrita, mas houve quem reclamasse. Tivemos de voltar”, conta Filipa.
E há pratos que se repetem por uma razão. O pica-pau de lombelo (15,50€) é um dos mais pedidos, tal como o naco de alcatra com molho verde (15,50€) ou as bochechas assadas (14,50€). Também há opções como arroz de lingueirão (15,50€), açorda de sapateira (14,50€), gambas à Brás (14,50€) ou rabo de boi com puré (14,50€).
Mas há um que define o restaurante: a bola de cozido (15,50€). “É quase como uma empada, com muita carne e pouca massa. É a forma mais prática de comer cozido à portuguesa”, explica Filipa.
Os pratos de peixe também estão presentes, com especialidades como filetes de peixe-aranha (14,50€) ou polvo com arroz do mesmo (14,50€), sempre dependendo do que chega fresco ao mercado. “Vou lá todos os dias de manhã”, diz o chef.
Para terminar, há sobremesas clássicas e bem feitas: bolo de bolacha (4€), tarde de chocolate (4,50€), tarte de coco (4€) ou o inevitável pudim caseiro. “É comida de conforto, sem complicações”, resume Filipa.
O sucesso construiu-se devagar, mas de forma sólida. Hoje, a clientela é variada: “Temos de tudo — médicos, juízes, comentadores, jogadores de padel. Os atletas dizem até que depois dos jogos, vêm aqui ‘estragar-se’. Há quem nem saiba que isto existe e depois não larga.”
O espaço funciona somente à hora de almoço, com exceção de sexta-feira à noite. Há hipótese de haver jantares de grupos, mediante marcação. Mas a regra mantém-se: reservar é quase obrigatório.
Num canto discreto de Lisboa, A Cozinha do Miguel continua a fazer o que sempre fez: comida tradicional, sem truques, com histórias pelo meio. E, às vezes, até com ecos de uma noite improvável com os Nirvana.
Carregue na galeria para conhecer os pratos e o espaço deste restaurante lisboeta.









