Restaurantes

A história triste e deprimente da morte do Pistola Y Corazón

Em duas semanas, a taqueria mais concorrida da capital passou do sonho à falência. Agora, os tacos vão ter que esperar.
Vamos ter saudades

O ritual era quase sempre o mesmo. Ziguezaguear pela muralha de gente à porta, escrever o nome na (longa) lista e esperar pacientemente com as mãos ocupadas: cerveja na esquerda, uma cesta de totopos na direita.

Foi quase sempre assim desde a inauguração em 2014. Era a taqueria de eleição de Lisboa. Lá dentro, mesas comunitárias, música, cocktails bem regados e uma rotatividade altíssima. Um cenário impensável depois da devastação provocada pela pandemia. Não só por causa do distanciamento a que o vírus obriga, mas também porque o projeto paixão de Damian Irizarry e Marta Fea nunca mais voltou a abrir as portas.

O Pistola Y Corazón foi uma das vítimas provocadas pelo abalo da pandemia na restauração. “Foi um trauma para nós. Ainda hoje, ao fim de seis meses, ainda sentimos a dor”, confessa à NiT o proprietário. A certa altura, durante a conversa, pára durante uns segundos. “Estar a falar sobre isto, estou a reviver tudo, é duro.”

Durante cerca de cinco anos, a taqueria manteve o espírito que Irizarry e Fea sempre lhe quiseram incutir: uma “mom and pops shop”, segundo o próprio, que é como quem diz um negócio pequeno, familiar, simples. A vida corria-lhes bem.

Casa cheia era um cenário comum no Pistola y Corazón

“Todos os dias pensávamos que podia chegar o momento em que as pessoas deixassem de aparecer. Ficávamos genuinamente curiosos como isso nunca acontecia”, explica, antes de frisar que eram felizes assim, apenas com um pequeno restaurante. “Mas isso só nos servia a nós, os donos”.

Lá dentro trabalhava um grupo com ligações fortes, de tal forma que decidiram expandir para poder “oferecer uma carreira” aos funcionários. Queriam que eles fossem capazes de evoluir, de subir para novos patamares com mais responsabilidade e salários melhores. Mas para isso acontecer, era necessário expandir.

Abriram uma pequena loja de produtos importados do México, uma pequena taqueria junto ao Tejo e trabalhavam num novo espaço que deveria abrir no Beato. Estavam até a investir numa linha própria de molhos. Antes da pandemia aterrar em Portugal, eram mais de 40 funcionários.

“Investimos quase tudo o que tínhamos. O plano era sólido e tinha até em conta a possibilidade de sofrermos uma quebra de 50 por cento nas receitas. Se isso acontecesse, estaríamos bem. Nunca ninguém previu foi que pudesse ficar reduzido a zero”, diz.

O dia que ninguém previu

O aviso chegou de uns amigos que viviam na China e que sofreram os efeitos da pandemia dois meses antes de eles serem sentidos em Portugal. Tinham alguma ideia do que aí vinha.

“Percebemos a 12 de março, o dia em que fechámos, que estaríamos perante um grave problema financeiro se fôssemos obrigados a fechar por mais de duas semanas. Mas não podíamos colocar o staff nessa situação perigosa. Também não queríamos estar ali”, recorda.

Duas semanas antes, Damian e Marta comentavam à porta do restaurante como teriam sobrevivido à justa ao inverno. Época de menor faturação, as reservas que ficaram depois do investimento na expansão por pouco não chegaram ao zero. Estavam seguros: sabiam que o verão trazia sempre uma multidão desejosa de tacos.

De um dia para o outro, as filas à porta eram apenas uma recordação. Em duas semanas, o projeto de vida podia ficar arruinado. Tentaram quase tudo, embora soubessem que haveria poucas formas de conseguir um alívio financeiro que lhes permitisse sobreviver à travessia da pandemia.

Os empréstimos nunca foram uma hipótese real. “Nunca percebi como é que poderíamos pagá-lo e seria apenas um adiar de um problema”, explica. Chegou mesmo a escrever uma carta aberta ao governo a pedir auxílio, um apelo que foi assinado por baixo por dezenas de empresários da indústria. Pedia “ajuda imediata”. Ela chegou, mas não foi suficientemente rápida. 

Tentaram aderir às medidas especiais de lay-off avançadas pelo governo. “Ainda hoje não sei se fomos aceites. Precisávamos de liquidez naquela altura — ou de uma suspensão das rendas ou do IVA —, não ao fim de seis meses”, recorda. Ao telefone, o stress dos contabilistas era palpável. Não havia solução.

Acabaram por ir em frente “à espera de um milagre”. “Era surreal, como se um OVNI tivesse descido e decidido atacar os restaurantes. Eu sei que todos sofreram, não só os restaurantes, mas na altura era isso que sentia.”

A expansão foi o golpe fatal

Terá sido apenas um mau timing? Um tremendo azar? Damian não rejeita a tese, embora aponte o atual modelo do setor como um problema. “O nosso modelo era, para a indústria da restauração, um bom modelo. Tivemos filas à porta durante quatro anos. Deve um restaurante fechar por não ter receitas durante dois meses? Na verdade, é um mau modelo de negócio. As margens são muito mais baixas do que as pessoas imaginam. E nós geríamos o espaço com amor, não estávamos a espremer os lucros ao máximo.”

O cenário seria outro caso não tivessem avançado para a expansão que todos pediam? “Talvez, quem sabe.”

Uma das possíveis saídas para a sobrevivência passou pela chegada de investidores. As exigências feitas não agradaram. “Se aceitares o dinheiro de outros, eles vão querer que mudes as coisas, que cries uma cadeia, abras seis novos espaços e isso nunca foi muito interessante para nós”, recorda.

Sem dinheiro nas contas pessoais e com as reservas do negócio a zero, não havia outra solução que não declarar falência. Foi a única hipótese para “garantir que os funcionários ficariam bem”.

“Assim, sei que um dia no futuro, pelo menos eles irão receber algum dinheiro que ficou por pagar. Talvez não seja no momento em que eles mais precisam dele, mas irão recebê-lo”.

Repensar o futuro — sem tacos à vista

O núcleo duro do Pistola y Corazón sobreviveu por pouco. Rapidamente se reuniram para tentar encontrar soluções e criaram o Las Gringas, um serviço de entrega ao domicílio, que trocou os tacos pelas gringas. Esse foi o primeiro passo para aquilo que Irizarry está a preparar.

Sem avançar com muitos pormenores, explica que é uma espécie de conceito à prova de pandemias e outros desastres. “Queremos criar algo que seja capaz de ser facilmente escalado para cima ou para baixo. Algo que reúna também distribuidores e produtores. Um sistema que consiga encontrar uma forma de sobreviver no meio disto tudo”, explica.

Ao grupo, começaram a juntar-se vários colegas de outros restaurantes que esbarraram nos problemas da pandemia. Um projeto quase sem dinheiro, sem ordenados, mas que pretende ser fiel a uma máxima: “Criar um restaurante de pandemia, capaz de sobreviver com uma operação debaixo custo, sem deixar para trás nenhum funcionário ou distribuidor. Que em cenário de crise, seja capaz de fazer como a tartaruga e recolher para dentro da sua carapaça.”

E a pergunta que todos fazem: quando e como é que os famosos tacos vão voltar? Para já, o regresso é improvável, pelo menos a curto prazo.

“Isto magoou-nos muito. Eles irão voltar mas não para já. Precisamos de um momento de descanso. Nunca imaginámos que o Pistola chegaria ao fim numa decisão que não fosse a nossa. Nunca achámos que iríamos deixar toda a gente mal”, confessa, e sublinha que mantêm “a alma mexicana”, mas que para já pretendem trabalhar com produtos e coisas locais.

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