Restaurantes

A incrível história do império de restaurantes que envolve batalhas legais (e a máfia)

O negócio nasceu há um século em Veneza, onde Giuseppe Cipriani aperfeiçoou a arte de cativar os famosos.
Um dos espaços em Las Vegas

De Miami a Ibiza, de Monte Carlo ao Dubai, o nome Cipriani é sinónimo de luxo. A marca italiana é dona de mais de 30 negócios, que começaram na restauração e hoje incluem residências e até negócios online. Mas é preciso recuar à década de 1920 para encontrar a origem desta história, mais precisamente ao bar do Hotel Europa, em Veneza.

Atrás do balcão trabalhava o italiano Giuseppe Cipriani que conhecia cada um dos seus clientes. Harry Pickering, um jovem britânico com uma queda para o álcool, era um deles. Pelo menos até ao dia em que deixou de aparecer. Cipriani reencontrou-o e procurou desfazer o mistério. Acontece que Pickering admitira o vício à família, que o deserdou. Com pena do antigo cliente, o italiano deu-lhe um cheque de dez mil liras. Dois anos mais tarde, Pickering regressou ao bar do hotel, sentou-se ao balcão e fez sinal a Cipriani. Nas mãos colocou-lhe um cheque de 50 mil liras, perto de dois mil euros.

O dinheiro tinha um destino: ajudar Cipriani a abrir o seu próprio bar. A dupla juntou-se e fez nascer a lenda do Harry’s Bar, o mítico espaço perto da Praça de São Marco, em Veneza, onde haveria de ser inventado o famoso cocktail Bellini.

Esta poderia ser uma história de sucesso, mérito, trabalho árduo e alguma sorte. Um italiano que começou quase do zero e, em três gerações, criou uma marca global. Mas é também uma história manchada por lutas de poder, escândalos, ligações à máfia e fuga ao fisco.

Um século depois e apesar das dívidas milionárias terem ameaçado o encerramento do bar em 2012, o negócio continua a funcionar e é, desde 2001, um marco nacional, segundo o Ministério da Cultura italiano. Por bons motivos. Ao seu balcão já beberam nomes como Ernest Hemingway, Alfred Hitchcock, Orson Welles, Truman Capote e Maria Callas, entre muitos outros. O cenário, sobretudo nos espaços norte-americanos da marca Cipriani, não é radicalmente diferente. As celebridades do momento são habitualmente vistas por lá e diz-se que é mesmo um dos restaurantes favoritos de Taylor Swift e Leonardo DiCaprio.

Giuseppe Cipriani era um homem com visão. Nos anos 50, o italiano cobiçava um espaço numa ilha privada em Veneza, que descobriu pertencer ao aristocrata britânico Ruper Guinness. Acordaram transformar a casa num hotel e o sucesso do Harry’s Bar repetiu-se. Uma década mais tarde, o hotel era vendido — e o uso do agora valioso nome de família deu origem a inúmeros processos que continuam acorrer nos tribunais.

O Harry’s Bar original

Seria preciso esperar até 1985 para uma nova e ambiciosa expansão, já comandada pela nova geração de Ciprianis. Arrigo e Giuseppe, filho e neto do fundador, viajaram até Nova Iorque para abrir uma réplica do Harry’s Bar. Mais uma vez, as estrelas faziam fila à porta para serem vistos no requintado bar italiano. “Eles eram obcecados com a fama. Queriam ser vistos. E não tratavam todos os clientes da mesma forma. Tratavam as celebridades como estrelas. O resto das pessoas eram dispensáveis”, revelou o mixologista e autor Dale DeGroff, em entrevista ao “New York Post”.

O sonho americano concretizava-se. A abertura do Harry’s Bar em Nova Iorque foi a descoberta do filão norte-americano que lhes faria fortuna — e ajudaria, sobretudo graças a Giuseppe Jr., a dar origem ao império de restaurantes da marca. Também nos EUA acolhiam celebridades da época, de Donald Trump a Kennedy Jr., de Robert De Niro a Calvin Klein.

“O Giuseppe é um homem de negócios muito inteligente. Foi ele que criou o império”, revela ao jornal americano Jason Kaplan, consultor de restauração. “A comida nunca foi grande coisa, mas ninguém ia lá por causa disso. Iam la para verem e serem vistos.”

Em 1998, já a empresa tinha mais de 1200 funcionários, comandados agora por Arrigo e Giuseppe Jr., depois da morte do patriarca em 1980. “Os Ciprianis parecem geneticamente programados para atrair os clientes certos, que depois se tornam amigos e parceiros de negócios. Foi assim que o Harry’s Bar ficou mundialmente famoso. E essa técnica continua a abrir-lhes portas — e contas bancárias”, notava o “The New York Times” numa reportagem publicada em 1998, que falava sobre a tomada da cidade por parte destes italianos, prestes a garantirem a concessão de uma das mais icónicas salas de jantar de Nova Iorque, a Rainbow Room, no 65.º piso do Rockefeller Center, onde exige a sua esplendorosa arquitetura art déco.

Dez anos depois, o cenário seria bem diferente. Em 2009, os Cipriani eram escorraçados da Rainbow Room devido a dívidas em rendas que se acumulavam. O caso acabou em tribunal, numa altura em que a crise financeira ameaçava o império, entre manchetes arrasadoras que acusavam Giuseppe de despedir 250 trabalhadores durante um conflito com o sindicato. Mas era um cenário que durava há uma década, como relatava o “The New York Times”.

A icónica Rainbow Room.

Em 1999, já se falava de um “império da restauração sob cerco”, sobretudo devido à rápida ascensão dos Cipriani, que “antagonizaram clientes, investidores e críticos gastronómicos”. Os choques com os sindicatos levaram à criação de piquetes à porta de alguns dos mais chiques espaços da cadeia, incluindo na Rainbow Room, que foi foco de outra polémica: Giuseppe decidiu fechar a sala ao público — ela que era considerada um monumento — e encerrar a pista de dança icónica. Os Cipriani acabaram por perder a guerra e tiveram que ceder em tudo.

“A forma como eles lidaram com o sindicato foi particularmente estúpida”, criticava Tim Zagat, então presidente do departamento de convenções e visitas da cidade. “Foi uma coisa terrível para a cidade e para o Rockefeller Center ver fechada uma das salas mais turísticas de Nova Iorque, onde as pessoas iam para se sentirem como se fossem o Fred e a Ginger.”

O sucesso, esse abrandou, mas não desapareceu. Mantinha-se viva a “magia Cipriani”, que consistia em garantir a capacidade de servir milhares, ao mesmo tempo que se “convence os clientes ricos a pagar 30 dólares por um prato de pasta”.

Em 2006, novo rombo na credibilidade dos “charmosos Cipriani”, quando Giuseppe foi implicado em dois mediáticos julgamentos que envolviam os mafiosos da família Gotti. Várias testemunhas confessaram que viram Cipriani a fazer pagamentos de mais de cem mil euros à associação criminosa, numa tentativa de que a família da máfia italo-americana pudesse travar os protestos dos sindicatos. “Tudo mentira”, clamou Giuseppe em tribunal.

Arrigo e o filho Giuseppe Jr

Os escândalos criminais não paravam de surgir. Um dos seus vice-presidentes, Dennis Papas, admitiria ter roubado mais de um milhão num esquema de fraude aos seguros. E em 2007, Giuseppe Jr. e o pai Arrigo admitiram em tribunal o crime de evasão fiscal no valor de mais de três milhões de euros. “Eles lixaram muita gente. O Giuseppe tentava fechar o máximo de negócios possível para tentar escapar à enorme dívida”, revelou uma fonte ao “The New York Post”. Escaparam para a Europa e deixaram os filhos de Giuseppe, Ignazio e Maggio, ao comando do ramo americano do negócio.

Mesmo com outros nomes, a família manteve as práticas pouco católicas. Destituídos das licenças de venda de álcool como pena pela dívida fiscal, terão feito pressões ilegítimas para que o castigo fosse revogado. E os problemas legais mantinham-se, sobretudo na velha luta sobre o uso do nome Cipriani nos hotéis, numa batalha legal que vinha desde os anos 70, sendo que do outro lado estava a LVMH, o grupo de marcas de luxo que acabaria por comprar a Villa Cipriani em Veneza.

Em 2008, os tribunais declararam que a LVMH tinha razão e o direito de uso do nome Cipriani havia sido alienado aquando a venda da Villa Cipriani em 1967. O pesadelo só terminaria em 2023, com um acordo entre as marcas. O império, esse, continua vivo e nas mãos de Giuseppe, Ignazio e Maggio.

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