Restaurantes

Bifanas do Afonso. Nesta tasca de Lisboa, os portugueses passam à frente dos turistas

A casa lisboeta acumula filas gigantes de clientes esfomeados. Mas nesta casa, o freguês do costume continua a ser especial.

Rua da Madalena, Lisboa. Oito horas da manhã, num qualquer dia da semana. Há um cheiro no ar que não condiz com a azáfama da corrida para o escritório. Seguindo o rasto, chega-se à pequena janela verde. No toldo, anuncia-se tudo o que é preciso saber: ali vendem-se as bifanas do Afonso.

Por estes dias, ninguém tem dúvidas de que são as mais concorridas da cidade. Dia após dia, é normal ver longas filas de gente esfomeada, a contar os minutos para a sua vez — e é raro a espera durar menos de meia hora. O que nem todos sabem é que há um truque para escapar às filas recheadas de turistas: basta entrar pela porta do lado, onde a prioridade é dada aos clientes habituais.

As Bifanas do Afonso moram por ali há já mais de 50 anos. José Torres Afonso abriu o negócio no pós-25 de Abril, em maio de 1975, sob o nome de Bar Covense, em homenagem à terra onde nasceu, Covas, em Vila Nova de Cerveira. Ali serviam-se, tal como hoje, bifanas fritas em banha, louro e alho, já famosas na altura.

Além do nome, pouco mudou desde então. José Afonso reformou-se e elegeu José Rodrigues, um conterrâneo, como novo gerente do espaço. “Vim de Covas com 13 anos, para trabalhar na restauração. A maioria dos homens da terra tinham restaurantes em Lisboa e eu vim com um deles trabalhar na área”, conta o responsável de 48 anos à NiT.

José começou por lavar loiça e dar uma mão no armazém. Fazia o que fosse preciso. Quando, há oito anos, José Afonso fez o convite para que assumisse o negócio, José estava a trabalhar noutro espaço da Baixa. “Ele queria alguém de confiança, da terra e com experiência e eu acabei por aceitar.”

A tal janela onde se fazem os pedidos.

Desde então que o gerente chega à pequena tasca antes das oito horas, altura em que se começa a preparação para cozinhar as primeiras bifanas. A essa hora a fila ainda é pequena e é possível provar o pão ensopado com carne de porco com calma, no espaço com um balcão onde cabem cerca de quatro pessoas. Mais perto da hora de almoço as filas avolumam-se, desta vez à janela que dá para o Largo das Caldas, com turistas à caça da especialidade da casa. A outra porta está reservada apenas para portugueses e clientes habituais.

A opção, aparentemente discriminatória, poderia despertar a ira de alguns clientes, mas gerente o explica que só assim consegue alimentar os clientes habituais que têm pouco tempo para almoçar. “Quem cá vem e é habitual, já sabe que pode pedir neste espaço. Esses são só os que não têm tempo de esperar nas filas cheias de turistas.”

Afinal, o que têm de especial as bifanas do Afonso?

“Nada”, é a resposta inesperada de José. “A receita é a mesma de sempre, leva pão, que preferimos que seja de água, boa carne de porco, cortada fininha e temperada em vinho branco e outros condimentos, feita com tempo.” Depois vai à frigideira, untada com banha, louro e alho. “Não tem grande segredo.Há uma coisa ou outra no tempero, mas a bifana é boa pela atenção que damos ao pão e à carne”, admite.

Por dia, servem mais de 400 sandes a 3€ cada, o que significa que precisam mais de 30 quilos de carne e outras centenas de litros de cerveja. A combinação é óbvia e faz escola entre os turistas, que seguem o exemplo dos clientes habituais. Os bancos espalhados pela zona não chegam para sentar todos os que querem fazer da bifana e imperial (1,50€) um almoço rápido e reconfortante.

José Rodrigues está muitas vezes a tratar das bifanas.

Quem preferir pode pedir uma sopa para acompanhar a sandes. Mas também não há muita escolha. A ementa diária fixa dita que à segunda-feira é dia de sopa de feijão com hortaliça, à terça de espinafres, à quarta servem a sopa Juliana, à quinta canja e à sexta e ao sábado o famoso caldo verde.

Quem não se der por satisfeito, pode provar um dos salgados: há filetes, panados, rissóis e sandes de ovo. O preço é sempre o mesmo: 1,50€.

“Fazemos o mesmo de sempre e mantemo-nos restritos ao típico. Não gosto de sair desse registo, até porque é das poucas casas do género que se mantém há tantos anos”, diz. E é isso que também tem ajudado a manter a essência do espaço que já ganhou fama além-fronteiras, no “Financial Times”, à boleia do chef Nuno Mendes.

“Temos vários chefs portugueses e estrangeiros que passam cá para mostrar o que é a comida típica portuguesa e foi nesse sentido que também o chef Nuno Mendes passou cá e depois surgimos na revista norte-americana”, diz com orgulho.

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