Em abril de 2006, Camilo Jaña aterrou no Porto para visitar a irmã, que já vivia na cidade há vários anos. Nesse mesmo dia, foi almoçar ao Cafeína. Na mesa ao lado estava Vasco Mourão, fundador do grupo. Os dois começaram a conversar e o chef chileno pediu para experimentar trabalhar na cozinha do restaurante. Duas décadas depois, continua na mesma zona da cidade, mas agora com um projeto inteiramente seu.
O novo restaurante chama-se Camilo — Cozinha Brava, abriu a 30 de abril no espaço onde funcionava o antigo Lucrécia, na Foz, e representa a saída oficial de Jaña do grupo Cafeína, onde liderou durante quase 20 anos as cozinhas do Cafeína, Terra, PortaRossa e Casa Vasco.
“Quando decidi sair, falei com o Vasco e disse-lhe que queria continuar a viver no mesmo bairro, onde está o meu património emocional e territorial”, contou o chef à NiP.
Natural de Santiago do Chile, o chef de 47 anos vive obcecado com este mundo desde a adolescência. “A minha paixão pela cozinha começou muito cedo, mais ou menos aos 15 anos e tornou-se mais evidente quando tive de começar a cozinhar para mim enquanto estudava”, recorda. Antes de chegar a Portugal, estudava Direito, mas acabou por abandonar o curso para seguir gastronomia. Em 2006, veio passar uma temporada ao Porto, sem planos muito concretos. O encontro inesperado no Cafeína acabou por mudar tudo.
Duas semanas depois desse almoço entrou para a cozinha do restaurante. A adaptação não foi imediata. “Tive muitas dificuldades no início”, admite.
Ainda assim, cerca de um ano depois, assumiu a chefia da cozinha do Cafeína e começou a crescer dentro do grupo, acompanhando também o desenvolvimento do Terra, da Casa Vasco e mais tarde do Portarrosa.
Em setembro de 2025 decidiu sair e coincidiu com uma fase de reestruturação do grupo, mas também com uma necessidade pessoal de voltar a cozinhar de forma mais próxima e menos corporativa. “Eu sentia uma carência de cozinha. Aqui eu cozinho”.
O antigo Lucrécia, que pertencia ao grupo de Vasco Mourão, acabou por ser o espaço escolhido para essa nova fase. O chef queria um restaurante mais pequeno, mais humano e sem barreiras entre cozinha e sala. Um lugar onde pudesse cozinhar, falar com clientes, observar o serviço e recuperar uma relação mais direta com o ato de receber. “Quero dar uma experiência mais personalizada, mais transparente e mais honesta”, defende.
O conceito foge às etiquetas tradicionais. Não é italiano, não é fine dining, nem uma churrasqueira clássica. Camilo define-o simplesmente como “uma casa de comida brava feita na brasa”.
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A base da carta é precisamente o fogo, os produtos frescos e uma cozinha mais intuitiva, influenciada pelas suas raízes sul-americanas, mas sem se prender a um país ou género específico. Há ceviches, peixe grelhado, arrozes, carnes na brasa e pratos para partilhar. “O conceito respeita o produto”, diz o chef.
Entre os pratos que mais têm marcado os primeiros dias do restaurante estão os ovos rotos de carabineiro com molho da cabeça do crustáceo (€14,20), o ceviche mar adentro com pesca do dia (€16,20) e o polvo na brasa com arroz de forno (€26,60). Também há picanha com feijão preto, pickle de ananás e hortelã (€24,20), entrecôte vazia para duas pessoas (€38) e carabineiro na brasa servido com arroz estilo paella (€38,20).
Uma das áreas mais importantes do restaurante é o rotisseur, onde são preparados os frangos no espeto. O clássico franguinho piri-piri custa €14,60 e existe também uma versão infantil com batatas fritas e ketchup caseiro (€12,20).
Nas sobremesas aparecem propostas menos tradicionais, como os churros com dulce de leche caseiro e sorvete de limão (€6,40), mousse de chocolate com petazetas (€6,20) ou o “bolo escangalhado” de merengue, frutos vermelhos e lemon curd (€5,80).
A carta continua em construção. Camilo não quer um menu fixo nem demasiado fechado. “É uma cozinha livre”, explica. Muitas das escolhas dependem dos produtos encontrados no mercado naquele dia. “Eu escolho o pescado, escolho as peças de carne, escolho os tomates”, conta.
O espaço também mudou bastante em relação ao antigo Lucrécia. O restaurante passou por obras profundas para aproximar cozinha e sala. O antigo bar foi transformado num balcão corrido onde os clientes podem comer enquanto observam diretamente o trabalho da equipa.
“O restaurante é muito mais próximo. Eu não sou formal, sou irreverente, inquieto. O restaurante é inquieto”, descreve Camilo.
Ao todo existem 56 lugares, entre sala e balcão. A decoração mistura madeiras escuras, luz quente, mármore, sofás corridos em tons terracota e uma atmosfera mais viva e informal do que os projetos anteriores do chef. O objetivo era criar um restaurante confortável, mas sem formalismos. “O serviço tem de ser próximo, não cerimonioso”, resume.
Além dos jantares, o restaurante passou recentemente a servir almoços de quarta a sexta-feira. Existem dois menus: um de €18, com prato principal e entrada ou sobremesa, e outro de €20, que inclui entrada, prato e sobremesa. Ambos incluem água, cerveja de pressão, café e couvert.
Carregue na galeria para conhecer a nova fase do Camilo e o que tem para provar.








