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Chakall viajou até à Polónia e preparou mais de 10 mil refeições para refugiados

Partiu de Lisboa numa carrinha cheia de comida. A viagem durou dois dias. No regresso trouxe uma família para Portugal.
O chef esteve na Polónia a ajudar refugiados.

“Pensei que tinha de fazer alguma coisa. Não posso fazer muito, mas um prato quente poderia fazer a diferença.” O chef Chakall saiu de Vila Nova de Gaia — onde inagurou um restaurante de empanadas argentinas — e na viagem de regressou a Lisboa que concluiu que tinha de ir para a Polónia. O objetivo era ajudar os refugiados que ali chegam vindos da Ucrânia devido ao conflito com a Rússia.

Em poucas horas organizou tudo o que precisava. “Liguei para várias marcas com quem costumo trabalhar e expliquei o que queria fazer. Todas aceitaram rapidamente e deram aquilo que conseguiram — sem qualquer intenção de fazerem publicidade, só mesmo serem solidárias”, explica o chef à NiT.

Com arroz, carne, enchidos, cafés, caixas térmicas, cobertores e material de cozinha, encheu uma carrinha de nove lugares. Partiu na terça-feira, 8 de março, rumo à fronteira da Polónia com a Ucrânia. “Fui com mais duas pessoas que trabalham comigo. Um deles já tinha trabalhado numa empresa de transporte de camiões e fez a maior parte do percurso. Também cheguei a conduzir algumas horas.”

De Lisboa seguiram durante 26 horas até Friburgo, na Alemanha. Aí pararam por umas horas, antes de iniciarem o resto do percurso. “Tinha o contacto de um chef na Polónia e liguei-lhe para perceber como podíamos fazer para ajudar assim que chegássemos.” Passaram ainda por Varsóvia (capital polaca), onde fizeram cozinharam refeições com os bombeiros para ajudar refugiados ucranianos que se encontravam na cidade.

Na quinta-feira, 10 de março, a carrinha que saiu de Portugal chegava a Chełm, a cerca de 25 quilómetros da fronteira com a Ucrânia. “Usamos a cozinha de uma igreja para conseguirmos preparar tudo antes de sairmos para outra localidade.” Ali voltou a encontrar uma realidade semelhante à que tinha visto em Varsóvia.

“A igreja recebe quase 400 refugiados todos os dias. Lá dentro estão 100 colchões no chão. É inacreditável, inesquecível. Não foi a União Europeia, foram as pessoas que fizeram tudo o que era preciso.”

Esteve praticamente dois dias no país e cozinhou mais de 10 mil refeições. Foram preparadas na igreja de Chełm e depois levadas num carro com matrícula polaca para a zona de fronteira com a Ucrânia, perto da cidade de Berdyszcze.

Chakall fez máscaras com fotos que alegraram os miúdos.

“Não há dinheiro que pague uma refeição grátis, um prato de comida quente faz a diferença. É uma alegria e uma tristeza ao mesmo tempo. Partiu-me o coração. Pensar naquelas pessoas com vidas destruídas só me dá-me vontade de chorar. Cada quilómetro valeu o sorriso de cada criança a quem dei uma refeição.”

Feijoada, goulash — uma sopa típica do leste europeu com carne e especiarias —, e arroz doce foram os pratos que preparou nesses dias em que esteve na Polónia. No terreno, sentiu que a ajuda é muita, mas fruto da vontade de pessoas como ele — e não de uma organização maior.

Ainda bem que existe o povo, foram as pessoas que fizeram tudo, não a União Europeia.” Lá, percebeu que chegam muitos alimentos a esta a outras zonas de fronteira, mas que depois ninguém faz nada com esses mantimentos.

“Estou a pensar voltar e montar um restaurante perto da fronteira com os alimentos que chegam e muitos não sabem o que fazer com eles. Montei um restaurante no Dubai em 20 dias. Agora também já conheço pessoas na Polónia.”

Por enquanto é só uma ideia, mas Chakall poderá mesmo vir a concretizá-la. No regresso a Portugal, que aconteceu este domingo, 12 de março, trouxe uma família de refugiados. “Quando pensei na carrinha que ia levar já tinha a ideia de, eventualmente, trazer alguém.”

Quando partilhou nas redes sociais que ia para a Polónia, recebeu uma mensagem de uma pessoa cujos amigos tinham intenção de vir para Lisboa, só precisavam da boleia. Fez a viagem de volta com os dois colaboradores, mais uma mãe e três crianças.

“Ela só me dizia que o medo que tinha era que daqui a algumas semanas todos já se esquecessem da guerra, que a guerra se tornasse algo normal. Esse era o medo.”

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