René Redzepi, o conceituado chef e cofundador do Noma, anunciou esta quarta-feira, 11 de março, que vai abandonar a liderança do conceito dinamarquês — antigo restaurante fine dining transformado em laboratório de inovação.
A decisão surge na sequência de uma vaga de denúncias que expuseram um ambiente de trabalho tóxico, marcado por agressões verbais, humilhações e abusos de poder que acompanharam a ascensão do espaço à categoria de “Melhor do Mundo”.
Redzepi reconheceu que os recentes debates sobre a cultura da indústria e a sua liderança passada foram decisivos para o seu afastamento, como partilhou no Instagram. “Decidi afastar-me e permitir que os nossos extraordinários líderes guiem agora o restaurante para o seu próximo capítulo”, afirmou o chef, que também renunciou ao cargo no conselho da MAD, a organização sem fins lucrativos que fundou em 2011.
Embora o Noma tenha sido frequentemente eleito o melhor restaurante do mundo pela “The World’s 50 Best Restaurants”, os bastidores eram, para muitos, um cenário de pesadelo. Uma investigação levada a cabo pelo “The New York Times” publicada a 7 de março inclui detalhes que descrevem Redzepi como um líder volátil e cruel.
De acordo com testemunhos de cerca de 35 antigos funcionários, o chef, apelidado por alguns como um “Deus” da Cozinha Nórdica, exercia um controlo psicológico absoluto. Os relatos incluem episódios em que Redzepi gritava a poucos centímetros do rosto dos estagiários, proferindo insultos humilhantes por erros mínimos, como o corte imperfeito de uma erva ou a disposição de um ingrediente no prato.
O escândalo ganhou dimensão global após Jason Ignacio White, antigo chefe do laboratório de fermentação do restaurante, ter começado a reunir e publicar denúncias anónimas de outros ex-funcionários nas redes sociais. Estas publicações, que somam mais de 17 milhões de visualizações, descrevem uma cultura de medo onde o prestígio de trabalhar no Noma servia de moeda de troca para aceitar abusos físicos e emocionais.
O anúncio da saída de Redzepi coincidiu com a abertura de um espaço pop-up com duração prevista de 16 semanas do Noma em Los Angeles. A inauguração contou com manifestantes que se reuniram à porta com cartazes e cânticos de protesto.
Num vídeo emocionado dirigido à sua equipa, Redzepi surge em lágrimas num ato de contrição, admitindo que “um pedido de desculpas não é suficiente” e que assume a responsabilidade total pelas suas ações. “Trabalhei para ser um melhor líder e o Noma deu grandes passos para transformar a sua cultura ao longo de muitos anos, mas reconheço que essas mudanças não reparam o passado”, declarou.
A saída de Redzepi marca o fim de uma era para a gastronomia escandinava e levanta questões profundas sobre a sustentabilidade e a ética dos restaurantes de alta cozinha, onde a procura pela perfeição artística foi, durante décadas, utilizada para justificar a exploração de jovens aspirantes a cozinheiros.
Leia também este artigo da NiT sobre o escândalo do “chef Deus” do Noma que humilhava e batia nos funcionários.

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