As avaliações no Google começaram a multiplicar-se. Pouco depois, apareceram clientes vindos de vários pontos de Lisboa e até turistas guiados pelo Google Maps. O Zé da Tasca, restaurante instalado no Boa-Hora Futebol Clube, na zona da Ajuda, é uma simples tasca de bairro que, de repente, se transformou num dos spots mais falados da cidade para comer bifanas.
À entrada, há um aviso que resume bem o espírito da casa: “Don’t worry, eat bifanas” [Não te preocupes, come bifanas]. E resulta. O restaurante soma atualmente milhares de avaliações no Google, praticamente todas com classificação máxima, algo raro num espaço tão pequeno e informal. Neste momento, o Zé da Tasca tem 5 estrelas na plataforma especializada para avaliação de restaurantes do motor de buscas e já ultrapassou as 1.975 reviews.
Por detrás do balcão está José Marques, de 53 anos, conhecido por toda a gente como Zé da Tasca. Natural da Ajuda, em Lisboa, trabalha na restauração desde os 16 anos e passou por cafés no Saldanha, no Mercado Abastecedor da Região de Lisboa (MARL), no Lumiar e em Odivelas antes de chegar ao Boa-Hora, em dezembro de 2017.
A alcunha apareceu ainda nos anos 2000, quando geria uma antiga tasca junto ao Colégio São João de Brito, no Lumiar. Os clientes começaram a dizer “vamos ali ao Zé da Tasca” e o nome acabou por ficar até hoje.

No Boa-Hora, o conceito manteve-se simples. Zé prefere fazer poucas coisas, mas fazê-las bem. “A nossa gastronomia é a nossa cultura”, resume. A especialidade absoluta da casa continua a ser a bifana, servida em pão de Mafra e mergulhada num molho secreto que o proprietário não revela nem à família.
A receita foi sendo afinada durante décadas. A carne passou a ser cortada mais fina, deixou de levar marinadas pesadas e começou a cozinhar apenas alguns minutos no molho quente. O resultado são bifanas mais leves, muito tenras e bastante diferentes das versões mais tradicionais encontradas noutras tascas lisboetas.
A bifana custa 4,50€. Mas a carta inclui também prego no pão feito com vazia da anca (10€), hambúrguer (8,50€), tosta de atum (6€) e tosta mista (5€). A imperial fica a 2€.
Parte importante do sucesso recente nasceu quase por acaso. Tudo começou quando uma amiga brasileira convenceu Zé a colocar o restaurante no Google. Pouco depois, Bernardo Almeida, um dos youtubers portugueses mais conhecidos da área da tecnologia, passou pela tasca e explicou-lhe como funcionavam as reviews. “Eu percebo é de bifanas, de tecnologia não percebo nada”, brinca à NiT.
“Ele disse-me: ‘Tens uma grande bifana, tens estacionamento, tens uma grande casa. Tens de pedir reviews às pessoas’. E eu nem sabia o que era isso”, recorda.
A partir daí, o crescimento disparou. Em poucos meses, o restaurante passou das primeiras avaliações para centenas de comentários. Zé começou até a fazer apostas com amigos sobre o número de reviews que conseguiria alcançar. Primeiro ganhou cinco pizzas ao ultrapassar as mil avaliações. Depois apostou uma mariscada na Ericeira que chegaria às duas mil reviews antes do verão.
O próprio chegou a brincar com José Ramos, presidente do Boa-Hora Futebol Clube, dizendo que “qualquer dia toda a gente vai conhecer o clube pelas bifanas”. Na altura, recorda, o dirigente respondeu-lhe: “És maluco”. Hoje, admite que a previsão está cada vez mais perto de se tornar realidade.
Mas Zé acredita que o sucesso não vem apenas da Internet. Grande parte da experiência continua a passar pelo ambiente familiar e pela forma como recebe quem entra. “Quando chegam à Tasca do Zé, eu cumprimento toda a gente com um aperto de mão. Gosto de conversar com os clientes”, explica.
Hoje, além da mulher Elisabete — conhecida como Xana — também a filha Daniela ajuda diariamente no restaurante. Aos fins de semana, o movimento já costuma ser intenso e começam a aparecer cada vez mais turistas curiosos para experimentar “a bifana como deve ser”, como muitos descrevem nas avaliações online.
Apesar da fama crescente, o espaço continua praticamente igual: ambiente de clube de bairro, televisão ligada ao futebol, mesas simples e um proprietário carismático que conhece metade dos clientes pelo nome.
E talvez seja precisamente isso que ajuda a explicar o fenómeno. Num momento em que Lisboa está cheia de conceitos modernos e restaurantes pensados para o Instagram, o Zé da Tasca continua a funcionar como uma tasca portuguesa tradicional — só que agora descoberta pelo algoritmo do Google.
Carregue na galeria para conhecer o Zé da Tasca, o seu espaço, alguns petiscos e os seus amigos.







