No Bicaense, situado na zona da Bica, o prato chega à mesa ao mesmo tempo que surgem perguntas desconfortáveis. A certa altura já não é claro quem está a assistir e quem faz parte do espetáculo. O projeto arrancou a 10 de abril e não é bem um restaurante, nem um teatro. É uma experiência imersiva que cruza gastronomia, teatro e o universo de Fernando Pessoa, num espaço com apenas 30 lugares onde tudo acontece ao mesmo tempo: comida, luz, som e interpretação.
Por detrás da ideia está o neerlandês Jochem Janssen, de 58 anos. Veio de Amesterdão, onde tem um clube de teatro imersivo e acabou por se apaixonar por Lisboa. Mas foi Fernando Pessoa que deu o ponto de partida para tudo.
“Quando fui ao museu dele, sentia que havia várias pessoas na mesma sala. Adorei essa ideia de podermos ser diferentes pessoas, ter várias consciências”, conta. Foi daí que nasceu o conceito: juntar comida, filosofia e um jantar que funciona quase como uma viagem interior.
O objetivo não é apenas entreter. É provocar. “Queremos que as pessoas saiam daqui a questionar-se: ‘Quem sou eu?’ ‘Porque espero certas coisas?’ ‘Quantas personagens tenho dentro de mim?’”, explica.
A experiência foi pensada ao detalhe, desde o espaço, desenhado pelo próprio Janssen, que também é designer de interiores, até à cozinha, onde entra o chef João Sá do Sála, que ganhou a estrela Michelin em 2024, responsável por criar um menu que acompanha a narrativa. Aqui, nada é isolado: “A história lidera a experiência, mas a comida e o espaço acompanham e prolongam tudo o que está a acontecer.”, esclarece o criador do projeto.

Essa mistura não é comum em Portugal. “Aqui é mais difícil vender teatro, por isso vendemos comida incrível com um espetáculo”, admite, acrescentando que o público acaba por entrar no jogo de forma mais intensa. “Quem está a assistir também é o espetáculo.”
A encenação ficou a cargo de Sónia Aragão, também com 58 anos, que teve de encontrar um fio condutor dentro de um universo complexo. “O Fernando Pessoa é muito diverso. Decidimos focar-nos nos heterónimos, na relação com a morte e na loucura: temas que são universais”, explica a encenadora.
Ao longo do jantar, esses temas aparecem de várias formas. Não há palco definido nem momentos claros de início ou fim. Os atores misturam-se com os convidados, há interação constante e até algum desconforto. “Queríamos que o público se sentisse parte daquilo que está a acontecer. Que também se questione.”
A própria Sónia resume a ideia de forma simples: “A associação entre jantar e espetáculo pode ser entendida como a união entre corpo e espírito.”
E a comida acompanha esse percurso. O menu chama-se “A Very Original Dinner” — inspirado num texto de um dos heterónimos de Pessoa — e custa 202€ por pessoa, com harmonização incluída. Ao longo de cerca de uma hora e meia, vão chegando vários momentos pensados para dialogar com a narrativa.
Começa com uma espécie de “Calçada Portuguesa”, com queijo da Serra da Estrela, amêndoa do Algarve e brioche. Depois, surgem pratos como o “Ovo Dourado”, com cogumelos selvagens e trufa, ou o “Lost Brain”, que junta lula dos Açores, salva e paprica.
Há também combinações mais inesperadas, como o “Lick Me Now” (bacalhau, grão-de-bico e salsa) ou o “Onda Batida”, com gamba da costa, ouriço-do-mar e ervilhas frescas. Um dos momentos mais marcantes é o “Martini de Lavagante”, que recria uma caldeirada de peixe com lavagante azul.
Mais à frente, aparece o “Party Lisbon”, com cabrito de Trás-os-Montes, milho e batata-doce, antes de terminar com sobremesas como ginjinha, arroz doce e pâté de fruit.
Nada disto surge por acaso. A gastronomia desenrola-se como uma experiência encenada, onde os pratos fazem parte de uma narrativa maior. A ideia é desafiar o conceito tradicional de fine dining e transformá-lo numa experiência sensorial completa.
No fundo, o Bicaense não quer ser fácil de explicar. É um jantar, mas também um espetáculo. É uma homenagem a Pessoa, mas também um exercício de autoanálise. E, tal como nos textos do escritor, talvez não tenha respostas, apenas perguntas. Ou, como diria o próprio: “Não sei quantas almas tenho.”
Carregue na galeria para conhecer o espaço, pratos e a experiência com maior detalhe.

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