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Restaurantes

Da cozinha de autor do Eskina não saem doses minimalistas. Há peixe e marisco bem servidos

O chef Carlos Grangeia é um homem do norte, que aposta em sabores do sul. Não quer ter grande rotação de mesas, apenas que os clientes se sintam em casa.

Lisboa e o Porto continuam a concentrar as atenções quando se fala em restaurantes de autor, mas há projetos mais discretos a nascer fora dos circuitos óbvios. É o caso do Eskina, em Angeiras, no concelho de Matosinhos, uma aldeia piscatória no concelho de Matosinhos, onde o chef Carlos Grangeia, de 37 anos, quis abrir uma casa mais sofisticada numa zona tradicionalmente ligada ao peixe grelhado e às fórmulas mais clássicas.

O espaço inaugurou a 16 de maio de 2025. O nome já estava pensado há muito, mas o percurso até aqui foi feito com calma. Natural do Porto, Carlos começou por estudar gestão de empresas: um curso que não terminou, mas que diz continuar a ajudá-lo no dia a dia do restaurante. Antes disso, tinha outro sonho. “Desde muito cedo queria ter um hotel. Depois percebi que já um restaurante dá um trabalho enorme”, conta à NiT.

Foi a partir de 2009 e 2010, com formações e workshops na Escola de Hotelaria e Turismo do Porto, que começou a aproximar-se mais a sério da cozinha. Seguiram-se estágios, uma passagem pela Associação de Cozinheiros Profissionais em Lisboa e vários anos a trabalhar em cozinhas de norte a sul do País.

Essa viagem acabou por marcar o que hoje se pode provar no Eskina. “Sou um homem do norte, mas a minha cozinha está muito virada para os sabores do sul de Portugal”, resume. O Algarve, o Alentejo e até os Açores foram deixando marcas no seu trabalho e continuam presentes na forma como constrói os pratos e escolhe os produtos.

É precisamente aí que começa a identidade do restaurante. O chef fala várias vezes em sazonalidade e trabalho de base. “A aposta está mesmo na qualidade do produto. Dou muito valor à escolha da matéria-prima e levanto-me cedo para a ir procurar”, explica, referindo as idas ao mercados de peixe e de frescos.

No restaurante, trabalha com peixe, legumes e fruta locais, mas também com vários ingredientes que chegam dos Açores, onde encontrou espécies e sabores menos comuns. O lírio dos Açores, por exemplo, tornou-se um dos peixes de referência da casa.

Chef Carlos Grangeia do Restaurante “Eskina”.

A escolha de Angeiras também não foi aleatória. Numa localidade onde o peixe na brasa e os grelhadores à porta fazem parte da paisagem, Carlos quis seguir outro caminho. “Queria trazer para Angeiras um conceito mais trabalhado, mais focado no produto, sem perder a ligação ao que a zona é”, diz. O resultado é uma cozinha mais contemporânea, mas que não tenta cortar com as tradições. Pelo contrário: parte delas. “Quero inovar, mas respeitando sempre as bases da cozinha portuguesa”, explica.

Essa preocupação vê-se também na forma como trabalha o peixe. No Eskina, a ideia não é impressionar com técnicas excessivas ou porções minimalistas. O objetivo é outro. “O peixe vai inteiro para a mesa, mas sem espinhas e sem cabeça. É um trabalho exigente, com muita preparação antes do serviço”, sublinha. Há aqui uma cozinha de autor, sim, mas mais preocupada em tratar bem o produto do que em transformá-lo em espetáculo.

O espaço acompanha essa lógica. Carlos faz questão de dizer que não quis criar um restaurante fechado sobre si próprio, feito apenas para um certo tipo de cliente. “Quero que a comunidade local olhe para o Eskina como um restaurante para todos”, diz. Também por isso, a experiência foi pensada para ser vivida sem pressa. “Não estou ali para fazer rotação de mesas. Quero que as pessoas sintam que podem estar ali com calma, quase como se estivessem em casa”.

Essa ideia de refeição demorada, com serviço atento e tempo para aproveitar, é uma das bases da casa. O chef fala até num certo “rigor excessivo” no serviço de sala, desde a forma como se limpam e trocam os elementos da mesa entre momentos da refeição até ao cuidado em não misturar ritmos. Quem for ao Eskina não vai encontrar uma casa feita para jantar depressa e sair logo a seguir.

Há jantares vínicos às cegas

Além da carta regular, o restaurante também organiza jantares vínicos de degustação às cegas, um dos formatos em que Carlos mais gosta de trabalhar. Nestes jantares, o conceito passa por não revelar aos clientes, até à chegada, o que vão comer. Depois do welcome drink, o menu vai sendo apresentado pelo chef ao longo do jantar, com sete, nove ou até onze momentos, sempre acompanhados por vinhos selecionados, muitos deles de produtores menos conhecidos.

Cada prato surge como uma surpresa e cada vinho representa um momento da experiência, pensada ao detalhe do início ao fim. “Nunca se sabe o que se vai jantar. Só depois é que apresentamos o menu. É uma experiência mais detalhada, mais pensada”, explica.

Na carta atual, há várias sugestões que ajudam a perceber melhor esta abordagem. Para começar, surgem opções pensadas para partilhar, como amêijoas à Bulhão Pato (17€), camarão ao alho (15€), polvo com molho verde (9€) ou ostras ao natural (14€), além de preguinhos com queijo amanteigado em bolo lêvedo (13€).

Nos pratos principais, o mar continua a ser protagonista, com propostas como açorda de espargos e camarão (25€), bacalhau com broa de milho doce (26€) ou arroz de lírio dos Açores e camarão (50€), um dos pratos mais emblemáticos da casa. Há ainda robalo à Bulhão Pato (55€) e camarão tigre com batata palha (50€). Para quem prefere carne, destacam-se o bife à portuguesa (25€) e o naco do lombo (45€).

O Eskina aproxima-se agora do primeiro aniversário e prepara-se para mudar a carta nas próximas semanas, com a entrada da primavera e do verão. Faltam ainda os detalhes finais dos novos pratos e respetivos preços, mas a base já está definida: uma cozinha de autor assente em produto de qualidade, raízes portuguesas e um lado mais sofisticado sem cair em formalismos excessivos.

No fundo, é isso que Carlos Grangeia quer construir em Angeiras: um restaurante onde o mar continua a mandar, mas onde chega à mesa com outro tipo de trabalho, outro tempo e outra ambição.

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FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua Angeiras 59
    4455-189 Matosinhos
  • HORÁRIO
  • De quinta a domingo do meio-dia às 15 horas e das 19h30 às 23 horas
PREÇO MÉDIO
Entre 30€ e 50€
TIPO DE COMIDA
Mediterrânea, Peixe

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