Restaurantes

Entre receitas caseiras e discussões, neste restaurante as avós é que mandam

O Enoteca Maria é uma celebração da tradição e do saber fazer. As reservas têm de ser feitas com meses de antecedência.
Há uma avó italiana que até se tornou numa estrela nas redes sociais.

Sejam chefs premiados ou simples cozinheiros amadores, todos citam a comida da avó como a sua grande inspiração. Afinal, não há prato especial nem gourmet que superem os dotes culinários das matriarcas.

Muitos restaurantes têm mesmo opções no menu que nos recordam os almoços em família, com receitas que passam de geração em geração. Mas o Enoteca Maria, em Nova Iorque, eleva a fasquia a outro patamar. Ali servem-se pratos feitos por avós — literalmente.

Da mesma forma, quando vamos comer à casa delas, nunca nos dizem o que é a ementa, também neste restaurante nunca sabe o que será servido. Tudo depende da criatividade das nonnas — avós em italiano — e da sua nacionalidade. Mas isso não é impedimento para quem quer provar os sabores tradicionais, “que sabem a casa”. Aliás, neste momento só consegue mesa se marcar com seis meses de antecedência.

A ideia de meter várias avós ao comando de uma só cozinha foi de Jody Scaravella, um norte-americano, de 68 anos, filho de pais italianos. O empresário já tinha investido noutros negócios, mas sempre sem sucesso. Porém, quando a mãe morreu, em 2007, percebeu que aquilo que mais sentiria falta era dos seus cozinhados (com receitas que já pertenciam à avó).

“Ao crescer, apercebi-me de que a minha avó tinha sido o repositório da cultura e da identidade da nossa família. E descobri que, tal como ela, milhões de avós em todo o mundo transmitem o seu património aos netos”, explica na apresentação do restaurante.

Daí surgiu a ideia para o negócio: “Contratar avós italianas, de diferentes regiões, para cozinharem os seus próprios menus num horário rotativo”. Desta forma podia ajudá-las a voltar ao ativo e os clientes podiam provar comida verdadeiramente cozinhada por nonnas.

O Enoteca Maria abriu em 2007, só com mulheres italianas acima dos 50 anos na cozinha. A experiência e as receitas de família das idosas foram um sucesso. Pouco depois, começaram a receber avós doutras nacionalidades. Porém, a abertura de fronteiras não se deveu apenas ao êxito.

“Aprendi que não se pode pôr duas senhoras da mesma cultura na cozinha, ao mesmo tempo”, explicou Scaravella à revista “Travel + Leisure”. “Tenho a certeza de que é assim com todas as culturas — há concorrência e há questões de propriedade. Às vezes, é complicado.”

Os pratos são sempre uma surpresa.

A solução foi abrir a cozinha ao mundo. “Não há problema em colocar senhoras de culturas diferentes, porque não sabem realmente o que a outra está a fazer”, sublinhou o proprietário. “Há um interesse e aquele muro que constroem cai”. E isso tem sido benéfico para os clientes, que podem pedir uma variedade eclética de pratos com base em quem está na cozinha nessa noite.

O conceito é simples e assenta numa verdade que podemos considerar universal: a comida das avós é sempre a melhor. A maioria das “chefs” visitantes cozinha uma vez por mês, outras são assíduas. Neste momento há cerca de uma dúzia de mulheres cozinhar no Enoteca Maria. O menu é feito por um grupo rotativo de matriarcas, vindas dos mais diferentes locais do mundo.

Aliás, há uma que vem todos os anos de Taiwan para ser uma das cozinheiras residentes durante um mês. Nesse período, os dumplings dengaku (feito com legumes e miso) e inúmeras preparações de massa, desde salgadas a doces fazem parte do menu. Porém, independentemente da nacionalidade presente, há sempre pratos italianos.

O restaurante tornou-se tão popular que não se pode simplesmente entrar para jantar. Para conseguir uma mesa é preciso fazer uma reserva com várias semanas de antecedência, no site. Por isso, se estiver a pensar em viajar até Nova Iorque, já sabe, o melhor é marcar uma data. O espaço tem lugar para 30 pessoas em simultâneo e o ambiente foi pensado para que se sinta em casa.

Uma das nonnas — que em italiano significa avós — é Maria Gialanella de 90 anos. A italiana mudou-se para os Estados Unidos da América em 1961 e trabalhou sempre como costureira. Contudo, há 10 anos, após a filha ouvir falar da Enoteca, decidiu dedicar-se à cozinha. Os seus pratos já são tão populares que alguns clientes só lá vão jantar nas noites em que sabem que ela lá está. Até tem a sua própria página no Instagram, onde partilha selfies, vídeos e ensina a fazer raviollis à moda antiga.

“Toda a gente gosta dos nossos pratos, por isso, fico muito feliz”, disse Gialanella, que faz também vários pratos com ragu, sopas e outras receitas de família que aprendeu enquanto crescia perto de Nápoles.

A visão desta matriarca vai ao encontro do sonho do proprietário quando se lançou neste negócio. Scaravella queria recriar as memórias de infância quando via a mãe, a avó e as tias (todas Marias e italianas) na cozinha. Esta foi a forma que arranjou de as homenagear após as suas mortes.

A exigência das nonnas

Liderar um projeto pode ser desafiante. E basta pensarmos nas avós que conhecemos para perceber por quê. Quantas vezes já ouvi a sua a dizer que gosta de determinada faca, ou de comprar alguns dos ingredientes no mercado local e outros na mercearia da porta ao lado? É praticamente isto que acontece no Enoteca Maria.

Scaravella está constantemente à procura de ingredientes para diferentes chefs, que exigem produtos específicos — e muitas vezes difíceis de encontrar. Uma nonna do Sri Lanka, por exemplo, não gostava do caril em pó que havia no restaurante loja, por isso o proprietário (tal como se de um neto se tratasse) levou-a para comprar ervas frescas para que ela pudesse fazer a sua própria mistura. Uma grega não gostou muito do queijo feta que o jovem comprou e pediu para trazer o seu próprio queijo.

Têm todas entre 50 e 90 anos.

O que fazem com os ingredientes é sempre uma surpresa. “Sou italiano, por isso tenho os meus desejos de massa, mas adoro o facto de ser tudo diferente”, disse Scaravella. “Essa é a beleza da coisa.”

Outra vantagem é o facto do projeto aproximar culturas diferentes e ajudar a que estas mulheres continuem a sentir que são úteis e valiosas no que fazem. “A comida ajuda a unir as pessoas e a envolvermo-nos com outra cultura sem sequer nos apercebermos, de modo que os nossos preconceitos pessoais, sejam eles quais forem, deixem de estar em primeiro plano.”

E tinha razão. Scaravella não era o único que ansiava pela sensação nostálgica e acolhedora dos cozinhados de uma avó — e a prova está na fila que muitos fazem no número 27 da Hyatt Street, que atualmente abre três dias por semana, às sextas-feiras às 15 horas e aos sábados e domingos às 13 horas, com uma última sessão às 19h30 todas as noites, uma vez que as avós precisam de ir para casa cedo descansar. Os preços dos pratos variam entre os 16€ e os 30€.

Como lá chegar

O Enoteca Maria está localizado a apenas 38 minutos de carro do Aeroporto Internacional John F. Kennedy, em Nova Iorque. Com partida de Lisboa, encontra bilhetes de ida e volta desde 311€ para a cidade norte-americana. Se preferir fazer a viagem de transportes públicos, o percurso demora mais de duas horas. Isto porque terá de apanhar um comboio, depois o ferry para Staten Island e ainda caminhar mais de 20 minutos até ao restaurante.

Carregue na galeria para descobrir algumas das criações destas avós.

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