Restaurantes

Fomos conhecer o novo restaurante dos concorrentes de “Hell’s Kitchen”

Lucas, António e Diogo mudaram-se para a mesma casa para lançarem o Hell's Table, uma mesa onde espalham a sua criatividade.
As caras já conhecemos. Só falta provar os pratos

Silêncio, muito silêncio. Na cozinha ouvia-se, ao fundo, o som ambiente da pequena sala com uma mesa preparada para receber os clientes que só chegariam mais de uma hora depois.

Atrás dos balcões, de jaleca impecavelmente branca e avental, passeavam duas caras conhecidas. António Pedro e Diogo Filipe, concorrentes de “Hell’s Kitchen”, pareciam habitar uma cozinha a milhares de quilómetros de distância daquela que chegava às nossas televisões ao domingo à noite.

Ao contrário das caras fechadas e ar apreensivo que mostravam na televisão, aqui os dois pareciam em paz. Ao primeiro encontro, Diogo levou as mãos à cara e simulou o choro. Sabia que todos o conheciam pela sua propensão para as lágrimas.

Aos dois haveria de se juntar Lucas Fernandes, o elemento que faltava deste trio forjado nas camaratas de “Hell’s Kitchen”. Foi no programa que criaram os laços fortes que os continuam a unir e que os levaram até Vila Verde, nos arredores de Braga, onde mantêm acesa a memória do programa.

Apesar de ser a origem deste novo projeto que os apaixona, o trio está determinado a deixar para trás os vendavais de emoções patrocinados pela raiva de Ljubomir Stanisic. Sabem, contudo, que sem a participação no programa, tudo isto dificilmente se teria concretizado.

A palavra espalhou-se e a reação tem surpreendido os três cozinheiros. Dias antes da visita da NiT, um casal percorreu mais de 300 quilómetros de propósito para um almoço no Hell’s Table, apenas para bater com o nariz na porta: é que ali só se servem jantares à sexta-feira e sábado, sempre sob reserva.

A mesa única da pequena sala

Quatro meses depois do final das filmagens e ainda antes da transmissão dos últimos episódios, já Diogo, Lucas e António trabalhavam para tornar o conceito uma realidade. No espaço de venda de carne maturada de Lucas, nasceu uma pequena área de degustação onde os três comandam jantares exclusivos e podem usar toda a sua criatividade.

Com um limite de oito convidados por refeição, os jantares podem até ter lugar excecionalmente à quinta-feira, uma vez que o conceito está a ser um sucesso: já está tudo reservado até ao final do ano.

Uma mesa para três

A nova vida de Lucas, Diogo e António é feita em conjunto. A camaradagem que nasceu no programa mantém-se: continuam a viver juntos, longe das famílias, para manterem vivo o projeto que nasceu no espaço da Finesseleague, o negócio de carnes maturadas do primeiro.

“É natural que se tenha formado uma ligação, estávamos juntos 24 horas por dia, sete dias por semana”, recorda António Pedro sobre os dias loucos de “Hell’s Kitchen”. “Cada concorrente tem a sua personalidade, há pessoas que se afeiçoam mais umas às outras, depois há outras que se distanciam. Nós formámos um grupo mais unido e nessa altura começámos logo a falar sobre potenciais ideias.”

Entre elas estava precisamente a da Hell’s Table, uma ideia que foi sendo montada mas que, perante a azáfama da competição, ficou temporariamente num segundo plano. “Quando o programa acabou, combinámos vir cá cima passar uns dias e tudo aconteceu naturalmente.”

“Isto aqui é tudo muito simples, ninguém faz cambalhotas em cima dos pratos”

A Finesseleague, negócio de carne maturada que Lucas criou há cerca de dois anos, foi o ponto de partida. Do lado de fora, é uma insuspeita loja com um pormenor curioso: dois cutelos no lugar dos puxadores. Assim que as portas se abrem, somos recebidos por uma enorme arca frigorífica onde estão em exposição as carnes maturadas.

À vista salta uma peça de carne que nos acompanha dos pés à cabeça, ainda tingida com um vermelho vivo. Era a mais recente peça a chegar ao espaço, acabada de abater. Ao seu lado, dezenas de peças já num elevado estado de maturação, prontas para irem para os pratos, servidos na mesa instalada a poucos metros.

Foi essa a mesa tão comentada pelos clientes que deu origem à ideia do Hell’s Table, que nasce num talho que tem ar de tudo, menos disso mesmo. Decoração cuidadosa, música ambiente, velas acesas e outro pormenor: uma televisão que transmite imagens em direto de tudo o que acontece na cozinha.

A interação total entre clientes e cozinheiros faz parte das linhas mestras do projeto, que se foca num ambiente intimista, numa cozinha criativa e, claro, no estatuto de estrelas que a televisão deu a Lucas, Diogo e António. É na comida em si que se preferem focar e menos em questões laterais.

“Isto aqui é tudo muito simples, ninguém faz cambalhotas em cima dos pratos”, explica Lucas. “Queremos ter bons produtos e em conjunto, julgo que temos um bom palato. Mas as coisas em si são muito simples, fora uma ou outra mais requintada.”

A ementa é sempre surpresa, apesar de alguns elementos comuns. O jantar envolve, por norma, um menu de degustação com 11 a 12 momentos e com preços que variam entre os 60€ e os 90€ por pessoa. A partir daí, tudo é flexível.

Um dos pratos servidos: um carpaccio

“Se percebermos que o grupo já está mais satisfeito, reduzimos os pratos. Pelo contrário, se sentimos que há necessidade de os satisfazer mais, acrescentamos”, frisa Lucas, que recorda a cumplicidade e a boa disposição que têm marcado os jantares feitos até hoje.

Num espaço tão pequeno, é natural que a interação seja grande entre cozinheiros e clientes, que se visitam mutuamente. Quando António e Diogo não vão à mesa, são os próprios clientes que se levantam e dão uma espreitadela à cozinha. “Só nos falta ter uma cadeira para jantar ao lado deles e até isso já aconteceu”, brinca Lucas.

Numa casa de carnes maturadas, seria fácil supor-se que elas seriam as estrelas de muitos dos pratos da ementa. Puro engano.

“Acho que tendo em conta que estamos neste sítio, os pratos que nós servimos nem assentam assim tanto na carne”, explica Lucas, sem desvendar a fórmula dos pratos que servem aos clientes. A surpresa faz parte da magia que querem emprestar ao local e os pratos, claro, espelham as influências do trio.

“Nunca quisemos que o menu fosse assim tão vincado, mas somos três pessoas, cada um com a sua filosofia e o menu reflete isso. O Lucas pende mais para as carnes, o Diogo para a cozinha portuguesa e eu para a parte mais vegetariana”, explica António Pedro.

Só com uma mesa, oito lugares e pouco espaço de manobra, Lucas garante que todo o esforço se foca em proporcionar uma “experiência inesquecível”. “Para conseguir isso temos que induzir as pessoas em erro, tirá-las da zona de conforto. Queremos dar-lhes a entender coisas que na realidade não o são.”

Sem inferno na cozinha

Desengane-se quem achar o contrário: os pratos são as estrelas de cada jantar, mas brilham tanto ou mais do que os homens que, no recato da cozinha, os preparam. Eles é que são as caras do programa de domingo à noite, o chamariz que coloca no mapa o Hell’s Table.

“Se não tivéssemos ido ao programa, não estaríamos aqui”, confirma António Pedro. “Nem éramos interessantes ao ponto de virem jornalistas de todo o País fazerem cá reportagens”, remata Lucas. A conclusão parece óbvia.

Contudo, a imagem que qualquer telespectador retém do trio é completamente esmagada na cozinha do Hell’s Table. O serviço arranca sem pressas e sem correrias. Afastado de António e Diogo, Lucas mantém-se focado na pia. “Eu aqui só lavo pratos”, brinca.

“Se não tivéssemos ido ao programa, não estaríamos aqui”

A chegada dos seis clientes que iriam ocupar a mesa obrigam a engatar a primeira mudança. Sem solavancos. “Mal vês as câmaras tremes logo”, atira Lucas para Diogo, que se mantém sereno. “Deixa-os filmar. Pior figura do que fizemos na televisão, não vamos fazer”, responde.

É um contraste absoluto com o caos que trazemos na memória dos sucessivos episódios de “Hell’s Kitchen”. Com tudo preparado, os três primeiros pratos saem num ápice, preparados e empratados pelas mãos de António e Diogo, que vão fazendo um vai e vem à mesa para fazer as apresentações.

“Eles querem conhecer-te, Lucas”, ouve-se do corredor. Mais pacato do que nos papéis de liderança que regularmente lhe eram passados no programa, aceita com relutância. Sem espalhafato, continua a ser o olho atento a tudo o que acontece à sua volta. “Alguma vez viste um treinador a ir para o meio do campo?”, comenta entre risos.

A verdade é que quando algo falhou, foi a sua voz de comando que se impôs. “Vocês têm que ir os dois apresentar os pratos. A partir de agora vão sempre os dois”, comandou depois de um lapso.

Nesta cozinha trabalha-se sem gritos

Sem revelarem o que continham cada um dos pequenos ingredientes, molhos e crocantes com que iam embelezando e condimentando as proteínas, restava-nos tentar adivinhar. A surpresa é sempre para manter.

Quase sempre presentes no menu, garantem-nos, estão as ostras, acompanhadas de um granizado misterioso e de micro ervas. Depois, um carpaccio com parmesão, alcaparras fritas e acompanhado de outros molhos misteriosos, tudo terminado com a chama potente da tocha.

Um dos carpaccios volta para trás. “A cliente disse que não gostava de carne mal passada”, ouve-se. Esse é um risco que correm e que reconhecem existir sempre. Percebem, aliás, quando os clientes estão mais abertos a experimentar, a mergulhar na comida e nas surpresas; ou, pelo contrário, quando “não dão valor” ao empenho que os três cozinheiros aplicam nos cozinhados.

Felizmente, dizem, não correspondem à maioria. “A partir do momento em que se reserva uma mesa num restaurante onde não se sabe o que se vai comer, estão à espera de tudo”, diz António. “Isso reduz os potenciais clientes, há quem não alinhe nestas brincadeiras”, acrescenta Lucas.

Existe, claro, sempre a preocupação de, no momento da reserva, averiguar se existem casos de alergias, doenças ou dietas que possam obrigar a alterações. “Mas se for algo do género, não gosta de tártaro ou não gosta de ostras… Naquele momento é o que é. E já aconteceu que essas pessoas que vinham a medo, provaram e no fim disseram que foi o prato de que gostaram mais”, recorda Lucas.

O pesado legado de “Hell’s Kitchen”

Ao fim dos dois primeiros pratos, os clientes já mostravam à vontade suficiente para passear pela cozinha. Lucas serve de anfitrião entre uma ou outra questão sobre as câmaras de maturação. Mas a conversa conduzia inevitavelmente ao mesmo tema: “Hell’s Kitchen”.

É visível o desconforto dos três nas questões que abordam o tema. O impulso de notoriedade provocado pela aparição no programa foi usado como ferramenta para promover as carreiras e o projeto — isso é inegável. Mas para lá desse lado positivo, as recordações não são as melhores.

“O programa levantou a dúvida sobre se nós sabíamos ou não cozinhar. Eu enfrentei tudo isto como forma de dar uma resposta afirmativa: sim, nós sabemos do que falamos e sabemos cozinhar”, diz Lucas, que acaba por devolver uma pergunta.

“O programa levantou a dúvida sobre se nós sabíamos ou não cozinhar. Eu enfrentei tudo isto como forma de dar uma resposta afirmativa: sim, nós sabemos do que falamos e sabemos cozinhar”

“Diga-me, num episódio de hora e meia, durante quanto tempo são mostrados os pratos? Aquilo é um programa de quê?”

Há um sentimento geral de que o seu talento foi de certa forma instrumentalizado para criar um tipo de programa no qual não queriam participar. “A nós, coube-nos dar uma prestação num suposto programa de culinária. Nós somos cozinheiros. Se quiséssemos dar show, íamos para um ‘Secret Story’ ou para um ‘Big Brother’. Nós fomos lá para cozinhar.”

A verdade é que na classe de programas de culinária e de cozinha, “Hell’s Kitchen” situa-se num género muito próprio, numa espécie de exercício voyeuristico dos bastidores de uma cozinha profissional, cruzado com um reality show puro e duro.

Ljubomir Stanisic é retratado como uma figura autoritária, mas que serve de guia da aprendizagem necessária aos participantes. Mas será que foi isso que experienciaram os concorrentes?

Os três querem continuar a trabalhar juntos no projeto

“Não senti que aprendi nada de especial. Não me fez evoluir em nada como cozinheiro”, nota Diogo. António Pedro reforça: “Chegamos sempre à mesma conclusão: se quiséssemos aprender cozinha, tínhamos ido para uma escola. Venderam-me aquilo como um programa de cozinha e eu fui lá competir.”

Apesar das críticas, Lucas confessa que nada foi feito sem uma estratégia. “Nunca foi programa que me cativasse, sabia para onde ia, o nível de dureza (…) O meu primeiro critério foi sempre o de competir, mas o segundo foi o de projetar a empresa. Foi por isso que me inscrevi. E parece que deu resultado.”

E caso ainda existissem dúvidas, Diogo atira: “Não vai encontrar nada no nosso menu que tenha saído do ‘Hell’s Kitchen’.” Lucas não se conteve e voltou a puxar de uma das recorrentes piadas que iam surgindo na cozinha: “A não ser as migas de pão ralado”. Ninguém conteve a gargalhada.

“Não vai encontrar nada no nosso menu que tenha saído do ‘Hell’s Kitchen’.”

Visivelmente felizes e com sorrisos nunca vistos nos programas de domingo, Lucas, António e Diogo mantêm-se de pé atrás quando o assunto é o futuro do Hell’s Table. É a “semente” que querem plantar e, se ganhar raízes fortes, é claro que existem planos para “transplantar” o negócio para algo maior.

Embora ainda não seja um negócio rentável, fruto das despesas associadas a produtos de qualidade, servidos apenas em dois jantares semanais, Lucas resume a ambição.

“Queremos ir passo a passo. Não é um sprint. Temos que criar uma referência. Com que ideia ficam as pessoas de nós depois de nos verem na televisão? Eu que sou burro e não sei falar, o António que nunca teve a possibilidade de se mostrar e o Diogo que só chora. E nós somos cozinheiros”, sublinha. “Se calhar até somos melhores do que mostraram na televisão. Ou se calhar somos piores. Mas cabe-nos a nós mostrar tudo isso no Hell’s Table.”

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FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Avenida Marechal Humberto Delgado, 503, Vila Verde
  • HORÁRIO
  • Sexta e sábado (por marcação)
PREÇO MÉDIO
Mais de 50€
TIPO DE COMIDA
Contemporânea

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