Restaurantes

Gonçalo Fernandes: o empresário de 36 anos que criou um império de restaurantes

O fundador do grupo Fullest tem 27 espaços entre Lisboa, Porto e Algarve. Fatura mais de 20 milhões de euros por ano.
Gonçalo nasceu no meio da restauração.

Gonçalo Fernandes sempre teve olho para o negócio. Quando era miúdo, pegava nos bolos da pastelaria da mãe, o Mundo do Café, e levava-os para a escola para os vender. “Nem me importava muito com o preço. Era tudo lucro, porque não tinha de pagá-los”, conta à NiT.

Com o tempo, passou de reguila para um verdadeiro adolescente rebelde. Na escola não era bem comportado e adorava estar na galhofa, mas sabia que a sua vida iria acabar por seguir o mesmo rumo que a dos pais, no meio da restauração. “Sempre tive jeito para os negócios e acabei por formar-me em gestão hoteleira na Escola de Turismo e Hotelaria do Estoril”, conta.

Assim que terminou os estudos, seguiu o caminho esperado. Aos 19 anos, foi trabalhar com o pai, Abílio Fernandes, que era proprietário do Café In. Jovem, ambicioso e com uma mentalidade diferente, Gonçalo rapidamente percebeu que ser funcionário do pai não iria terminar bem. Até porque o gestor, natural do Porto, tinha outras ideias para o seu futuro.

“Com 20 anos comecei a pensar em abrir o meu próprio restaurante. Sabia que precisava de cerca de 30 mil euros e fui pedir um empréstimo para o fazer. Com esse dinheiro investi e abri Bellalisa Valmor”, recorda.

O negócio revelou-se um sucesso e a partir daí foi sempre a somar. Uns meses mais tarde, pegou no dinheiro que tinha conseguido faturar e abriu o segundo Bellalisa, desta vez no Elevador de Santa Justa. Ainda no mesmo ano, em 2009, inaugurou também a Peixaria do Rossio.

“Os últimos 15 anos foram de muito trabalho e uma aposta contínua, mas sempre com consciência”, refere.

Quando já somava cinco restaurantes no portfólio, decidiu criar um grupo onde pudesse agregar valor com outros serviços em que queria apostar, como as tour e os alojamentos. “Tínhamos uma forte presença na Baixa e com tudo o que já tínhamos criado, achámos que estava na altura de dar um nome e criar algo que nos permitisse continuar a crescer. Foi assim que surgiu a Fullest”, conta à NiT.

Desde então que o grupo tem estado em constante evolução e Gonçalo Fernandes, de 36 anos, nunca deixa de procurar boas oportunidades de negócio. “Assim que surgem temos um processo de análise em que temos de avaliar a localização e perceber se será um espaço mais turístico e que os clientes passam à porta e entram, ou se é algo para onde irão deslocar-se propositadamente. Outra hipótese é se está inserido numa zona de empresas. Depois disso avaliámos a concorrência na zona, o público-alvo e o preço médio a ser praticado. Só no final de definirmos todos estes parâmetros é que estabelecemos se vamos criar um conceito, ou implementar algum dos que já temos”.

Atualmente, a Fullest conta com steakhouses, restaurantes de comida italiana, espanhola, portuguesa, contemporânea, asiática e um espaço, o Cru, onde serve exclusivamente sushi. Tem ainda duas discotecas, o Tamariz e o MöTAO, em Vilamoura, que está a preparar a reabertura para a época de verão.

Embora aposte em diferentes conceitos e cozinhas, no final do dia, Gonçalo continua apaixonado pelas receitas da mãe, Inês de Fátima.

“Os pratos mais típicos são os meus preferidos e tenho pena que a cozinha portuguesa tenha deixado de ser fancy, ou de estar na moda. Mas acredito que é algo que temos de apostar, para não correr o risco de perder uma coisa que nos diferencia lá fora”.

A gestão, a filha e o Sporting

Ao todo, Gonçalo Fernandes gere 27 espaços e não pensa em ficar por aqui. “Nunca tive a ambição de trabalhar em prol do número. Nunca disse que queria abrir 40 ou 50 restaurantes. Não é disso que corro atrás”, explica, para logo a seguir acrescentar que lhe importa apenas que “cada negócio tenha viabilidade financeira”. “O que me motiva é quando aparecem oportunidades e depois os investimentos.”

Porém, garante que estes últimos anos não foram fáceis. A palavra escolhida por Gonçalo Fernandes para os descrever é simples: “vertiginosos”.

“Tivemos dores de crescimento, todos os dias tivemos de encontrar soluções para os problemas, planear da melhor forma e claro que com algo tão grande e tão brutal, existem muitos desafios”, justifica à NiT.

Apesar da agenda frenética, garante que há sempre tempo para duas coisas: a filha Camila, de seis anos, e o Sporting. “Durante a minha vida sempre ouvi os mais velhos a queixarem-se que não acompanharam o crescimento dos filhos. Eu não quero dizer isso. Quero estar presente na vida da minha filha. Embora nem sempre seja fácil, tento levá-la todos os dias à escola, por exemplo”, explica.

As chaves do sucesso

Criar novos negócios e conceitos é “a parte divertida”. Isso ajuda a explicar a quantidade de projetos que tem atualmente. E não vai ficar por aqui.

“Há uma semana abrimos o Pizzaiolo, numa perpendicular à Avenida da Liberdade. Amanhã vamos inaugurar o Slide and Friends, um novo conceito com pizza à fatia, no Castelo de São Jorge. Em breve vamos abrir outro Pizzaiolo na rua de São Nicolau e ainda o Fish no Saldanha.” 

Estes dados mostram bem como o grupo Fullest continua em expansão. E se mais provas fossem necessárias, bastava olhar para os números do último ano — em que faturaram 20 milhões de euros. Como é que isso é possível “Com muita exigência, rigor, uma liderança forte e pessoas com o mesmo mindset ao lado.”

O empresário reforça que “isto não é um trabalho unipessoal”. Aliás, Gonçalo admite que seria impossível fazê-lo sozinho.

“Costumo dizer que o mais importante na liderança das empresas são as pessoas que trabalham connosco diretamente. Têm de ser incríveis e eu tenho a sorte que as que estão comigo o são. É com eles que desenvolvo os projetos, que estão em várias frentes”.

A par dos recursos humanos, assume que ter um “controlo financeiro e de gestão exigentes” são fundamentais. “A equipa que temos atualmente permite-nos perceber se alguma unidade tem alguma fragilidade ao dia. Em negócios tão dinâmicos como este, a maior dificuldade é identificar o problema e corrigi-lo. Uma empresa grande tem de ser ágil. Esse é o grande desafio.”

Tudo isto foi definido desde o primeiro dia da empresa, onde implementou também uma metodologia onde o mérito é valorizado.

“Desde o início que deixei duas coisas bem assentes: queremos que as pessoas que trabalham na Fullest tenham uma boa vida, planeamento de carreiras e prémio, tudo com base no mérito. A par disto, o rigor com os clientes. Eles são quem nos pagam os ordenados, por isso têm de sair dos nossos espaços satisfeitos e a sentir que viveram uma experiência.”

Para que isso aconteça, planeiam tudo ao milímetro, desde a decoração do espaço ao serviço, passando pelo atendimento e, claro, pela qualidade dos produtos. “O nosso trabalho é servir boa disposição, simpatia e excelência. E isto começa em mim, como líder”, argumenta.

Coordenar empresas, a vida familiar e ainda ter tempo para “não se tornar num workaholic” (um dos seus maiores medos), deixa pouco tempo para uma coisa simples, mas fundamental: dormir. “Tenho sempre uma lista gigante de temas. Durante o dia consigo resolver cerca de 20, à noite deito-me com 100. Não é fácil, mas se há algo que sempre quis foi ter um equilibro entre a vida profissional e pessoal”.

Por mais utópico que possa parecer, Gonçalo garante que é (quase) sempre possível fazê-lo. Aliás, alguns momentos da semana estão religiosamente reservados para descontrair junto dos amigos e da família. E para ver, claro, os jogos do Sporting.

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