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Icónica cervejaria Trindade já reabriu e está melhor do que nunca. Veja as fotos

Não se preocupe: o bife à Trindade, o Brás de bacalhau e os mariscos, os clássicos de sempre, permanecem na carta.
O chef Alexandre Silva assina a carta.

A espera foi longa mas, finalmente, terminou. Após 13 meses de obras, a emblemática Trindade, que se apresenta como “a mais bela e antiga cervejaria de Portugal”, reabriu na primeira semana de setembro. Entre as novidades (são várias), destaca-se a carta assinada por Alexandre Silva — que conquistou a atenção do País ao vencer, em 2012, o Top Chef da RTP1 —, e o espaço totalmente renovado, embora sem nunca perder a essência que deu fama à casa.

Como parte do setor da restauração, o estabelecimento precisou fechar portas durante a pandemia. No contratempo, contudo, os responsáveis viram uma oportunidade: “terminar o projeto de renovação e começar as obras”, que visavam dar um ar mais atrativo e rejuvenescido ao projeto, conta à NiT Francisco Carvalho Martins, administrador do Grupo Portugália Restauração, que detém a marca desde 2007.

“O que nos levou a avançar foi a necessidade de preservar um edifício histórico e icónico da cidade de Lisboa — que tendo em conta a sua antiguidade já carecia de uma intervenção estrutural profunda —, aliada à vontade de tornar o espaço mais atraente, elevando a qualidade do ambiente e da oferta, através de um novo conceito, uma nova carta e uma nova marca que acrescentasse valor à Trindade”, acrescentou o proprietário via email.

Vale recordar que a história da cervejaria começou a escrever-se em 1836, quando esta se ergueu sobre as ruínas do então Convento da Santíssima Trindade, fundado oito séculos antes, em 1294. Agora, com quase 200 anos, “ganhou tons de cobre, lembrando a cerveja que sempre produziu, e tons azuis como os azulejos que a tornam histórica, icónica e única”. O resultado? Um ambiente requintado e ainda mais acolhedor.

O processo de reabilitação, a cargo do Atelier de Arquitetura Ana Costa, focou-se na requalificação da escala “conventual” do edifício, através do restauro dos elementos que a caracterizam, das abóbadas originais à zona de claustro e aos detalhes das cantarias. Igualmente recuperadas foram todas as obras Keil do Amaral, bem como os frescos, azulejos e peças de arte mais representativas da Trindade, que “sobreviveu a um terramoto, recuperou de dois incêndios e resistiu à passagem do tempo”.

Uma história em cinco espaços

Para explorar, há cinco áreas distintas: átrio, refeitório, claustro, sala Maria Keil e sala dos arcos. O primeiro, “que é hoje o principal acesso à cervejaria Trindade, está integrado no edifício remanescente do antigo Convento”. Aquela que, por muito tempo, foi “a única sala de atendimento ao público, sendo o restante da construção destinado às instalações fabris”,  destaca-se pelos “magníficos painéis de azulejos de inspiração maçónica, da autoria de Luis Ferreira”, também conhecido como o “Ferreira das Tabuletas”.

Já o refeitório, onde funcionou a Fábrica de Cerveja da Trindade, “é a mais importante construção remanescente do convento original”. “Em 1864, sendo a primeira sala [o átrio] notoriamente pequena para atender a procura, o estabelecimento foi prolongado para este salão, então decorado com magníficos painéis de azulejos representando, na parede norte, os quatro elementos, na parede sul, as estações do ano, e ao fundo da sala o comércio e a indústria”. 

O pintor Vale decorou o teto “com frescos de cores escuras a simbolizar motivos heráldicos”. Infelizmente, o trabalho perdeu-se em remodelações posteriores, revela Francisco.

Sobre o claustro, construído em 1756, o responsável diz que é possível ver “os arcos que compunham toda a sua fachada norte e o início das fachadas a este e oeste. Apesar de representarem menos de um quarto do Claustro original, estes vestígios dão a perfeita noção da sua dimensão e imponência. Os demais arcos remanescentes estão integrados nos edifícios vizinhos, hoje transformados em instituições, ateliers ou casas de habitação. 

Completa: “É através das dimensões deste claustro, e também das dimensões do refeitório, que podemos ainda hoje sentir a escala do edifício primitivo que abrigou um dos maiores e mais importantes conventos de Lisboa durante mais de cinco séculos. O trabalho em cantaria das colunas e arcos, sóbrio, mas amplo e elegante, atesta, igualmente, a prosperidade da Ordem durante o século XVIII”.

Já a sala Maria Keil integrava as áreas que, de 1864 a 1935, acolhiam a Fábrica de Cerveja Trindade. Com o encerramento da mesma e manutenção apenas da cervejaria e restaurante, esta ficou desocupada durante mais de uma década. 

A situação mudou em 1946 quando, “com o aumento da procura e no rasto do otimismo e prosperidade do pós-segunda Guerra Mundial, foram feitas obras de ampliação e beneficiação na Cervejaria e criados este novo salão e a sala dos arcos a ele anexa, explica o administrador.

Maria Keil do Amaral foi a artista convidada para tratar da decoração. Desenvolveu, para isso, “uma série de painéis de mosaico em pedra, inspirados no trabalho de calçada portuguesa, que por sua vez tem as suas raízes ancestrais nos mosaicos que decoravam o chão e as paredes das vilas e templos romanos. Trabalho naturalista, estes painéis são um bom exemplo das correntes artísticas decorativas da segunda geração do movimento modernista português”. 

Pela sua autonomia, a sala chegou a funcionar como restaurante independente. Falamos do Folclore, “um restaurante típico de qualidade, virado para o turismo e divulgação da arte popular portuguesa”. Em 1973, com o encerramento do projeto, a sala foi reintegrada na cervejaria.

Por último, na sala dos arcos, “é perfeitamente reconhecível o que resta da galeria norte do claustro original, reconstruído em meados do século XVIII, mais precisamente em 1756. Tratou-se, na verdade, de uma grande reconstrução de raiz, levada a cabo após a catastrófica destruição sofrida pelo convento [do qual pouco sobrou] no terramoto de 1755”.

O evento dramático foi responsável pelo aparecimento da expressão “cai o Carmo e a Trindade”, usada sempre que há uma grande tragédia. Referia-se ao desabamento dos conventos do mesmo nome, edificados numa das colinas de Lisboa que mais sofreu com o terrível sismo”.

Os arcos que resistem e dão nome à sala, revelam, com a sua “construção sóbria, sólida e elegante”, “a prosperidade da Ordem Trina na época. Mais difícil de imaginar, no entanto, é o clima de recolhimento, silêncio e meditação que reinavam à época neste corredor, mergulhados que estamos na alegre e ruidosa descontração da Trindade de hoje”, conclui Francisco.

O refeitório.

O restaurante e a petiscaria

Na carta, também há inovações, embora os clássicos permaneçam. “A Trindade continua a ser o bife, o marisco e o petisco, agora acompanhados por um menu imaginado pelo chef Alexandre Silva”. Permanecem, assim, clássicos como o bife à Trindade (17,9€ a 25,4€), o Brás de bacalhau (17,9€) e os mariscos (2,8€ a 32,8€).

Nas novidades para partilhar encontra a paleta de borrego (59€), a cataplana de peixe e marisco (59€) e o polvo assado no carvão (64€).

Se quiser petiscar, tem a trilogia de queijos (12,8€) ou charcutaria (12,5€), o mexilhão à Trindade (15€) e o croquete da casa (2,2€). Já para sobremesa pode pedir o pudim de cerveja (6,8€) ou o arroz-doce queimado com compota de limão (5,9€). Para acompanhar, nada melhor que uma das cervejas artesanais da marca Trindade (4,25€ a 5,1€).

Quem quiser uma experiência mais completa, dirige-se à área de restaurante. Os que procura, um ambiente mais informal têm a de petiscaria, com uma cozinha de petiscos a condizer. 

Francisco lembra ainda que o convite a Alexandre Silva — do Loco, premiado com uma estrela Michelin — se deveu ao facto de terem inteira confiança no seu trabalho. “Foi-lhe dada carta-branca para mexer na ementa sem que se perdesse a essência da Trindade. O chef deu o seu cunho a todos os pratos e adicionou-lhes valor, sem que nesse processo se perdesse a identidade de cada um”, conclui.

Carregue na galeria para espreitar tudo o que há para descobrir na renovada Trindade.

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FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua Nova da Trindade, 20 C.
    1200-468 Lisboa
  • HORÁRIO
  • Domingo a quinta-feira das 12 à meia-noite, sextas e sábados das 12 à uma da manhã.
PREÇO MÉDIO
Entre 30€ e 50€
TIPO DE COMIDA
Cervejaria

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