Restaurantes

Já foi treinador de futebol. Agora, Nuno tem dois restaurantes conceituados em Nova Iorque

O português partiu em busca do “sonho americano”. Atualmente dá a conhecer as especialidades portugueses às celebridades de Hollywood (e não só).

Até 2015, Nuno Sousa nunca equacionara outra carreira a não ser a de treinador de futebol. Natural de Galegos Santa Maria, em Barcelos, treinou o Santa Maria e o Freamunde, na segunda liga portuguesa. No entanto, no final da época, sem colocação, acabou por sentir-se perdido e vazio. Refugiou-se num sonho antigo que ganhou uma nova vida com os episódios do “MasterChef Austrália” que passavam na televisão nacional.

O treinador sempre gostou de cozinhar com a mãe e de receber amigos em casa. A dada altura começou a perceber que era feliz entre tachos, panelas e receitas e decidiu dar uma oportunidade a essa paixão. Na mesma época, Nuno Sousa leu um artigo sobre o novo restaurante que o chef Jorge Mendes iria abrir em Nova Iorque, o Lupo. De um dia para o outro e sem pensar muito, comprou uma viagem para a cidade norte-americana, fez as malas e partiu à procura de uma nova vida.

“Assim que aterrei e me dirigi a Brooklyn, senti-me em casa. Senti que havia algo a puxar-me para aqui. Depois pensei: Portugal vai estar sempre lá para voltar, se algo correr mal. Por isso, decidi arriscar”, conta o chef de 45 anos à NiT.

Quando chegou aos Estados Unidos da América não conhecia ninguém, não tinha casa para ficar, ou um trabalho. Passou os primeiros dias num hostel, onde lhe falaram do Craigslist, um site que publica ofertas de emprego, vendas de carro e casas. E foi nessa plataforma que nem uma semana após ter aterrado lhe surgiu a oferta que procurava: um cozinheiro para o Lupo, do chef Jorge Mendes.

Apareceu no espaço e assumiu que nunca tinha trabalhado na área. Fizeram um teste e disseram-lhe que era notória a falta de experiência. No entanto, gostaram da sinceridade, do facto de ser rápido e quiseram contratá-lo. Contudo, faltava a parte burocrática. Nuno ainda não tinha o número de segurança social norte-americano, e, embora estivesse legal, não podia ainda trabalhar ali.

Decidiu procurar outros espaços e acabou por manter entre dois a três empregos por semana. “De manhã, entre as 6 e as 13 horas trabalhava numa bagel shop, a fazer bagels. À tarde era treinador de futebol de miúdos e depois à noite, entre as 17 e as 22 horas estava num restaurante, nas preparações. Passei por mais de sete espaços, desde italianos a mediterrânicos e fui aprendendo em todos eles”, recorda, acrescentando que percorria a cidade de bicicleta ou metro, para chegar a tempo aos empregos.

Para o antigo treinador, Nova Iorque é a “cidade das oportunidades” e elas aparecem quando menos se espera. O objetivo do português nunca foi abrir o seu próprio restaurante, mas sim conseguir ter formação e chegar, quem sabe a ser chef. No entanto, a vida tinha outros planos.

O começo do Leitao

Nuno vivia há cerca de seis meses em Nova Iorque, quando aceitou um encontro no Smorgasburg, um festival de street food em Brooklyn. Assim que lá chegou, deparou-se com mais de 100 bancas de comida internacional. No entanto, faltava um gastronomia representada: a portuguesa.

Nos meses que se seguiram, sempre que podia, marcava presença no mercado. Mas, em todas as visitas, a desilusão de não ver nenhuma referência à sua terra. Em 2019, no quarto ano a viver em Nova Iorque e com a vida mais orientada, decidiu preencher a inscrição para ter uma barraca no mercado.

A aplicação foi aceite e faltava apenas decidir o que iria servir aos norte-americanos. Fã confesso das sandes de queijo da Serra e presunto da Casa Guedes, no Porto, decidiu criar uma reinterprteação, com pernil, outras com leitão e umas com assado de polvo. “Colocava os leitões na frente da banca e cortava-o à frente do público. As filas começaram a crescer e a procura a aumentar. Após a estreia, continuei a fazer parte do mercado, até que um cliente me desafiou a levar os meus pratos para um restaurante, em West Village”, diz.

O Leitao começou como “comida de rua” e acabou a ocupar um restaurante numa das zonas mais movimentadas da cidade. “A ideia inicial era criar algo de raiz, desenhar um novo menu. Mas quando fiquei com o espaço, em fevereiro de 2020, entrou a pandemia e todos foram obrigados a ficar m casa. Para não encerrar o negócio, em maio, comecei a vender as sandes do street food e frango piri-piri. Depois comecei a introduzir o nosso menu e passados quatro anos somos um espaço de cozinha portuguesa muito visitado”, revela.

Inspirado na sua infância, Nuno criou um menu que oferece uma abordagem aos sabores clássicos portugueses, celebrando o património culinário do país com um toque moderno. As refeições no seu restaurante começam com pratos para partilhar, que apresentam sabores icónicos e ingredientes do litoral. Há marisco, amêijoas em caldeiras, bacalhau, polvo nos carpaccios, e porco preto servido em costeletas que são marinadas em vinho verde.

No centro da oferta do Leitao está o prato principal que dá nome ao restaurante e que é a verdadeira estrela do menu — um leitão inteiro assado lentamente. Inspirado nas viagens que a família fazia, duas ou três vezes por ano, para comer esta especialidade em Portugal, este prato resume “o espírito comunitário e festivo da cozinha portuguesa”.

O leitão, importado de Espanha, é assado e servido inteiro à mesa com molhos caseiros e acompanhamentos como espinafres, batatas fritas, salada de beterraba assada, pimentos shishito e batatinhas assadas. Tudo o resto chega de Portugal, sobretudo o azeite e o vinho, dois inegociáveis para o chef.

“Começámos este restaurante devagar e com calma. Navegámos durante dois ou três anos pela incerteza, muito devido à pandemia. No entanto, fomos muito bem recebidos e os clientes adoram provar a comida portuguesa. Desde anónimos a famosos, como Woody Allen, que veio com a família, logo após visitar Portugal”, conta.

O realizador foi até ao Leitao para voltar a provar comida portuguesa, da qual ficou fã. No entanto, não é o único, O ator Christopher Meloni, conhecido pelo papel em “Lei e Ordem” é cliente habitual e adora levar lá amigos. “Vem cá a cada duas semanas”, revela Nuno Sousa.

O Galo chegou a Nova-Iorque

No ano em que celebrou seis anos desde a abertura do Leitao, Nuno inaugurou outro projeto, o Galo. O restaurante abriu a 15 de setembro e é uma “ode à portugalidade”. As paredes contam a história da terra onde nasceu e onde foi criado o primeiro galo de Barcelos. E à mesa chegam especialidades lusitanas, como cozido à portuguesa, ou favas com chouriço com ovo escalfado, que é o seu prato favorito, e o arroz de frango, que lhe lembra a comida da mãe.

Nuno visita Portugal três a quatro vezes por ano e, embora adore o seu País, não pensa em voltar. Agora está focado em elevar o nome do nosso país por terras americanas e conta com o apoio dos pais para o conseguir.

“A minha família vem me visitar muitas vezes e adoram ver o que construí. Quando abri o Galo a minha mãe decidiu preparar umas rabanadas, para eu ver se funcionava como sobremesa. Apoiam-me muito”, conclui.

O Galo está situado em Manhattan e já mereceu a visita do Primeiro-Ministro, Luís Montenegro e de António Costa.

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