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Jantei de olhos vendados num dos restaurantes com melhor vista de Lisboa

“O Bico de Bunsen" é a nova rubrica do humorista Miguel Lambertini na NiT. Foi jantar ao Sheraton sem ver nada do que comia.
O jantar foi todo às escuras.

Para inaugurar a minha nova rubrica intitulada “O Bico de Bunsen”, que será publicada mensalmente aqui na NiT,  escolhi uma experiência obscura. OK, estou a exagerar, é só escura mesmo. Chama-se “Dining in the Dark” e, como o nome sugere, trata-se de um jantar às escuras, onde os clientes estão vendados durante toda a refeição. De certa maneira é um género de medida de prevenção invertida, tiramos a venda da boca e pomo-la nos olhos. 

Para quem gosta de cinema e literatura, pode imaginar um misto entre “50 Sombras de Grey” e “Ensaio sobre a Cegueira”, com um pouco menos de perversidade. É uma experiência original? É sim, senhor. É uma experiência espetacular? Depende. Por exemplo, se eu falasse nisto à minha avó, ela provavelmente diria que é uma ideia absurda e que a única atividade que se deve fazer às escuras é procriar. Quer dizer, o mais provável era não dizer nada, uma vez que a senhora já faleceu, mas em parte, esta declaração imaginária da minha avó tem algum cabimento. 

Eu próprio, quando me falaram nesta ideia, o primeiro pensamento que tive foi, “jantar com uma venda nos olhos faz tanto sentido como fazer a barba num escorrega de um parque aquático”. Mas ainda assim, decidi dar-lhe uma chance. O evento tem lugar no restaurante Panorama, no 24.º andar do hotel Sheraton, em Lisboa, que tem uma vista deslumbrante sobre a cidade de Lisboa. 

Vista essa que eu consegui contemplar uns escassos minutos antes de colocar a venda e imergir no negrume que seria a minha companhia durante todo o jantar. Não compreendo por isso a opção de escolher uma das melhores vistas panorâmicas da cidade se depois não podemos desfrutar dela. Faz-me lembrar um primo meu que vive na Amareleja e aproveitou a Black Friday para comprar um limpa-neves com desconto.

Chegado ao local, levaram-me até à minha mesa que, pelo cheiro, tinha uma vista espetacular para o Cristo Rei e aí começou verdadeiramente a experiência. O menu é sempre surpresa — apenas na altura da reserva pude escolher se queria optar pela sugestão vegetariana, de carne ou de peixe — e inclui entrada, prato principal e sobremesa. 

O facto de eliminarmos um dos sentidos em que nos apoiamos tanto, como é o caso da visão, faz com que os restantes fiquem supostamente mais apurados. A não ser, claro, se estivermos infetados com Covid-19, aí parece que olfato e paladar se perdem. Por isso foi particularmente divertido sentir o temor num dos empregados de mesa que me estava a servir, quando me perguntou se o prato estava bom e eu respondi: “Deve estar, mas a mim não me sabe a nada!” Aqui fez-se silêncio na sala e eu apressei-me a dizer “Estou a brincar, está delicioso”, para alívio de todos os presentes.

Realmente gostei da comida e percebo as opções que passam por alimentos e texturas mais empapadas para facilitar o processo, mas ainda assim parece-me que a malta da Fiver podia arriscar um pouco e servir pratos que aumentassem o nível de complexidade da experiência.

Por exemplo, um bom fondue, em que o último a ficar com uma queimadura de segundo grau, ganha. Ou sushi, por que não? Deve ser muito divertido para quem está de fora a ver. Eu já tenho dificuldade em pegar nos pauzinhos para apanhar uma peça de sushi com as luzes acesas, no escuro então conseguir apanhar uma peça, mergulhá-la no molho de soja e levar à boca sem vazar uma vista é uma tarefa só ao nível dos mais arrojados. No fundo, acaba por ser uma experiência dentro de uma experiência. 

Para quê jogar paintball quando podemos jantar às escuras? Ficamos com a roupa toda cagada na mesma e não precisamos de correr tanto. Só vantagens. Nota positiva também para todos os empregados de mesa que são muitíssimo simpáticos e atenciosos, embora eu goste de imaginar que eles aproveitam o facto de terem os clientes vendados para fazer piretes na nossa cara e tirar selfies a fazer-nos corninhos. Pelo menos era o que eu faria se tivesse essa oportunidade.

Como fui sozinho, a experiência teve um lado algo contemplativo, quase como uma sessão de meditação, guiada pelos dois copos de vinho tinto ótimo que me serviram. Confesso que entre um prato e outro ainda deu para passar um pouco pelas brasas. Mas também o que é que é suposto fazer num hotel? Comer e dormir. E eventualmente procriar, mas só se for às escuras. 

A vista que perdi durante toda a noite.

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