Quando a NiT falou com o chef Rui Paula, por volta das 13 horas desta terça-feira, 5 de maio, esperava encontrá-lo sentado à mesa, num almoço cheio de pratos invejáveis. Afinal, estávamos bem enganados. “Não vou almoçar. Ando de um lado para o outro”, conta-nos, com a voz acelerada.
Geralmente, o detentor duas estrelas Michelin segue uma rotina bem definida. Acorda por volta das 8 horas, bebe um Actimel e come uma simples torrada, e, por volta das 11h30, almoça com a equipa do restaurante Casa de Chá da Boa Nova, em Leça da Palmeira, onde passa a maior parte do resto do dia.
Contudo, desta vez, foi “um dia atípico” para o chef de 58 anos, que a NiT acompanhou durante 24 horas, de manhã à noite. Assim que acordou — e se serviu do habitual menu de pequeno almoço — rumou até Lisboa, para preparar um jantar a quatro mãos no restaurante do hotel Memmo Príncipe Real, o Café Príncipe Real, do chef residente Jorge Fernandes. A carta pensada pelos dois ficará disponível por ali até domingo, 10 de maio.
Antes de arrancarem os preparos, Rui Paula ainda fez algumas paragens habituais na capital. É o caso da lavandaria Tinturaria Jaguar ou da loja de roupa Vintage Visons, onde foi comprar um casaco com a mulher, a gestora de projetos Diana Ferreira, de 41 anos.
“Normalmente, acordo, levo a minha filha mais pequena [Maria Clara, de três anos, irmã de Francisco e Mafalda] à escola. Depois, vou para a Casa de Chá da Boa Nova, respondo a emails, estou com os meus clientes e a minha equipa”, diz. Durante a tarde, vai para o dop [restaurante no Largo de São Domingos, no Porto].”
Por vezes, o chef tira também uma parte do seu tempo para receber fornecedores. “Hoje em dia, são eles que vêm ter comigo. Antes ia ao mercado, agora não. Trazem amostras, vejo no telemóvel se há novidades. No caso do peixe e marisco, tenho tudo muito bem montado.”
Rui Paula costuma viajar para Lisboa cerca de uma vez por mês, sempre com estadias curtas. Desta vez, por exemplo, não foram, de facto, mais do que 24 horas. Na manhã desta quarta-feira, dia 6, já estava a regressar para casa.
A NiT mostra-lhe como foi então o dia inteiro de Rui Paula, ao minuto.
9h13: “Já estou a caminho de Lisboa. Saí do Porto por volta das 8h30. Tomei banho como sempre, não sou dos que tomam banho no dia anterior. É obrigatório. O pequeno almoço é quase sempre um Actimel e uma torrada. Hoje, iria ao [restaurante] Casa de Chá da Boa Nova, porque tenho lá um evento, mas preciso excecionalmente de ir até à capital.”
10h30: “Fizemos uma pausa em Pombal. Preciso de tomar mais um café para aguentar o dia. É a minha mulher [Diana Ferreira] que vai a conduzir. Passo a viagem sempre ao telefone, quase tudo chamadas de trabalho. Vim a falar com o chef Kiko, que vai hoje [ao Memmo] e falámos de futebol. Ele é sportinguista, eu portista. A conversa foi essa.”

12h02: “Acabámos de chegar a Lisboa. Antes de ir para o Memmo, vim com a minha esposa a uma loja. Estamos na Vintage Visons [atelier em Campo de Ourique] para ela comprar um casaco de pelo. São coisas dela.”
12h58: “Ainda viemos à lavandaria. É sempre a Tinturaria Jaguar [na Graça]. Conheço os donos há muito tempo. É a melhor da cidade e do País, então deixamos sempre as coisas aqui. Por exemplo, se mandas lavar uma camisa, vem sempre toda direitinha, mesmo nas golas. Toalhas antigas, alta costura, tudo. Deixámos há duas semanas e viemos buscar.”
14h53: “Cheguei agora ao Memmo Príncipe Real, onde fui recebido pelo chef Jorge Fernandes, Ricardo Nestor [cozinheiro] e Sandro Teixeira [chef de cozinha]. Mais logo, vamos começar os pratos para o primeiro destes jantares, que o hotel vai receber até dia 10.”

16h02: “O chef Jorge Fernandes fez-me uma club sandwich, que é um clássico da gastronomia hoteleira [conhecido pela sua estrutura de três fatias de pão tostado, geralmente recheado com frango, bacon, alface, tomate e maionese]. Posso dizer que foi maravilhosa. A club sandwich dele é das melhores que já comi.”
16h30: “Vim um pouco para o quarto do hotel descansar e ver televisão. Quando tenho tempo, aproveito para ver um bocado as notícias. De lazer, costumo ver Netflix. O último filme que vi foi o novo do “Peaky Blinders” [“O Homem Imortal”, lançado em março], mas também gosto de ver alguns documentários.”
19h02: “Estivemos a fazer um briefing de preparação para o jantar com toda a equipa. Agora, vamos seguir com o empratamento.”
21h01: “O jantar vai começar agora, os convidados já estão todos sentados. Estou um pouco ocupado porque estou a mandar serviço.”

21h10: “Neste momento, estamos a servir a tartelete de sapateira (6€) e o bacalhau com salsa (5€). O primeiro é assinado por mim, o segundo pelo chef Jorge Fernandes.
21h30: “Agora é a vez do carabineiro com oca e cogumelo (28€), que também fui eu que trouxe.”
22h: “Chegou a parte de preparar o atum com ajoblanco e maçã verde (17€), de Jorge Fernandes.

22h50: “Tem corrido tudo impecável até agora, mas é muito cansativo. Mal conseguimos parar.”
23h: “O último prato é o tamboril com beringela e galanga (34€). Depois, vou servir a sobremesa, o topinambour com avelã (12€), mas também temos a cereja com brioche e vinho do Porto (10€).
01h21: Terminou o dia. O ritual é deitar-me na cama, ligar a televisão para ver as notícias, porque a esta hora não consigo ver filmes. Quando começar a fechar os olhos, apago a televisão. Quando acordar, ainda tomo o pequeno-almoço no hotel para voltar ao Porto por volta das 10 horas.


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